Vejam um endereço de radio que toca rock clássico.
Recomendadíssimo.
rstradiorock.com.br
Blog para os admiradores de rock e musica de qualidade em geral. Serão postados discos de bandas, artistas solo dos mais variados estilos como rock progressivo, hard rock, blues, jazz, pop rock, aor rock, disco 70s, punk, new wave e tecnopop. Comentários são muito bem vindos. Esse blog não publicara links de albuns oficiais, mas talvez publicará links de albuns "bootlegs". Bom divertimento e um abraço a todos !!!
terça-feira, 22 de novembro de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Entrevista com Dinho Ouro Preto.
O Capital Inicial de hoje é melhor do que o do início da carreira?
Dinho - Eu acho que ele tem menos excessos. E isso é uma coisa que é um problema para a banda. Você vai acumulando maneirismos ao longo dos anos. Acho que graças à separação, nós conseguimos nos livrar um pouco disso. Eu ouço os primeiros discos e acho tudo muito excessivo. Produção demais, teclados demais, vocal demais. Eu acho que a gente aprendeu a controlar isso tudo.
Estamos melhor. Principalmente este disco que a gente lançou antes do acústico, o "Atrás dos Olhos". Eu acho esse disco o nosso melhor trabalho. A gente só tinha conseguido atingir essa simplicidade, ir direto ao assunto, somente no primeiro disco. O resto ficou meio barroco, com excesso de tudo
Vocês não percebiam esses excessos na época?
A gente cometeu um grande erro nos anos 80, não quero culpar ninguém, mas a entrada do Bozo descaracterizou muito a banda. A gente levo muito tempo tentando equacionar a entrada dele e acho que até hoje não conseguimos resolver isso direito. Eu acho que a volta do Capital é a volta como quarteto. Aliás, os nossos melhores discos foram gravados como quarteto.
Mas foram vocês que o convidaram para a banda.
Sim. Foi. Por isso a culpa foi toda nossa. Ele não tem culpa de nada, ele aceitou e tudo bem. A culpa foi inteira nossa. Ele era um músico letrado, que tinha se formado na ECA, tinha tocado com Arrigo Barnabé, ele era semi-erudito. E a gente era uma banda punk, que aprendeu tocando dois acordes. Não poderia dar certo. E não deu.
Por que você saiu da banda em 1994? Qual foi o motivo do racha entre vocês?
Já rolava uma estafa entre a gente. Já estávamos juntos desde os 19 anos, passamos por tudo, altos e baixos. Eu também queria tocar com outras pessoas, fazer outras coisas da vida. Acho que todos nós tínhamos uma certa dúvida existencial quanto ao Capital, não sabíamos direito para onde ir. E eu acho que quando a gente não sabe o que dizer, é melhor não dizer nada. Não que isso fosse deliberado, mas olhando para trás, acho que a gente fez a coisa certa em parar. Foi a melhor coisa que a gente fez. E parte do que está acontecendo agora é fruto desses cinco anos de silêncio. Tanto quanto a relação entre nós como a nossa relação com o público. Deu para pensar na vida, pensar na nossa música. Amadurecemos, tanto eu quanto a banda passamos por muitas dificuldades. Eu fiquei solo. Eu fiquei solo e independente nesses cinco anos e tudo foi muito difícil. Tudo. Gravar, fazer vídeo, todo o trabalho era mais difícil. Quando você passa por isso, ganha uma nova consciência, aprende a se virar sozinho. Me ensinou muito, passei a moderar as expectativas.
A relação entre os membros da banda voltou fortalecida?
Cara, a nossa amizade foi salva. Foi recuperada. A gente teve que cavar e varrer muita coisa para debaixo do tapete. Percebemos que maior do que qualquer um é a banda. Não ficamos mais embriagados com o sucesso e outras coisas que vem com ele. Sabemos que tudo é efêmero. A conseqüência é que nos damos muito melhor agora do que antes. Existe um respeito muito maior entre a gente.
O projeto do disco acústico já estava nos planos da banda desde a volta?
Sim e não. Existia a idéia de fazer um disco ao vivo. A gente nunca tinha feito um juntos e, fatalmente, um dia isso ia acontecer. A gente não sabia bem o formato, tínhamos duas alternativas: lançar um disco de rock mais pesado ou encarar o desafio de um acústico. Nós achamos que o acústico era melhor por inúmeras razões, entre elas, a própria visibilidade do projeto. Sabíamos que era um formato altamente vendável e vencedor. Mas quando eu digo isso, nem eu, nem gravadora, nem a MTV e muito menos a banda, esperava por essa repercussão. Todo mundo foi surpreendido pelo que aconteceu. E eu acho que isso acabou sendo uma vantagem. Entramos em campo sem nenhuma expectativa.
Mas vocês também pretendiam resgatar alguns velhos hits para o público novo que vocês acabaram conquistando com a volta?
Cara, a nossa maior preocupação, o nosso maior medo quando essa história começou, pelo menos o meu maior medo era que isso fosse visto com uma onda nostálgica. Que fosse uma coisa tipo "vamos lembrar como eram legais os anos 80" ou "jovem também tem saudade". O meu maior medo é que o disco tivesse essa característica. Por isso a gente botou várias músicas novas, como "Natasha", "Tudo Que Vai"... E conseguíamos o que queríamos, que era falar para a moçada e não para gente da minha idade. É o que vem acontecendo. A média de idade do público que vai aos nossos shows é de 16, 17 anos. Eu considero isso uma vitória.
Só que um lançamento desse não consegue esconder o clima de oportunismo.
E eu acho que em alguns casos, são oportunistas. Mas eu costumo dizer para as pessoas que sugerem que nós fomos oportunistas, que a gente voltou com um disco novo, antes, cheio de inéditas. Queremos virar a página do acústico o quanto antes. Devemos estar entrando em estúdio no começo do próximo semestre. Ou seja, não temos nada a ver com essa onda de nostalgia. As músicas que mais tocaram no rádio, que foram extraídas do acústico, eram músicas novas. E se uma banda não consegue mais compor ou apresentar novas idéias, não merece muita consideração, o que não é o nosso caso.
foto de Priscila Prade
Você não acha que banda de rock tem que durar pouco para não cair no ridículo?
Eu discordo. Tem várias bandas boas que estão há anos fazendo bons trabalhos. E, principalmente, eu acho que não existem regras no rock. Tem exemplos nos dois sentidos. Tem bandas-relâmpago maravilhosas, como o Sex Pistols e o Nirvana e tem bandas mais longas, como o Rolling Stones e o Aerosmith, que são ótimos. O segredo é você conseguir compor e apresentar novas idéias. Se você pegar o "Tatto You", que eu acho um dos melhores discos dos Stones, eles já tinham 20 anos de carreira. Nem tudo que é novo é bom e nem tudo que é velho é ruim.
É que algumas bandas envelhecem melhor ou pior do que outras. E tem aquelas bandas que vivem só do passado, como, por exemplo, o Deep Purple. Você vai ao show dos caras só para ouvir o "Machine Head", que é um disco de mais de 20 anos.
E você também pode envelhecer com dignidade. É só não ficar embarcando no último modismo. Você tem que abraçar o que sempre fez. Um exemplo é a volta do Echo & The Bunnymen, que é do caralho. Os discos recentes deles são sensacionais. Eu acho um erro o Clash não voltar. Todos estão inteiros, relativamente moços, não sei porque não voltam a tocar, são uma puta banda.
Por que o rock nacional perdeu espaço nos anos 90? As bandas estabelecidas perderam o gás? Ou não houve uma segunda geração?
Um pouco de tudo. Mas eu acho que houve uma segunda geração que nos sucedeu, como Raimundos, Planet Hemp, o Rappa, acho que é um pessoal bem anos 90.
Acredito que existia uma crise de identidade entre a nossa geração. Tudo isso coincidiu com a ascensão do grunge e no Brasil de bandas como Raimundos e o Rappa. Acho que de um certo modo, teve uma crise de consciência em quase todo mundo da minha geração. Várias bandas perderam. Foi o fundo do poço para todos, até os grandões como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, passaram por essa crise.
Todo mundo ficou com a auto-estima bem abalada no começo dos anos 90. Foi como se cada um de nós achasse que tinha se corrompido. Ou virado o inimigo. As coisas que a gente apontava como defeito aos outros, no começo da nossa carreira, foi o que acabamos virando. Com o passar dos anos, essa avaliação severa que nós fazíamos de nós mesmos, mudou. Falando por mim, a avaliação super séria que eu tinha do Capital, do que a banda tinha virado, eu já não acho mais hoje. Eu sou menos maniqueísta. Acho bacana muita coisa que a gente fez. Não é tudo lixo, que tem que jogar fora, como eu pensava nos anos 90.
Esta crise de identidade explica o fato de vocês terem mudado bastante de perfil, passando por eletrônicos, depois grunge, depois metal, aí acabaram...
Sim. Estas mudanças foram causas da entrada do Bozo, também. O Capital em determinados momentos passou por uma crise existencial muito forte, seguida de uma crise de identidade que já existia há anos. E também existia a eterna comparação com a Legião. Essa comparação fez com que a gente entregasse os pontos. Chegou um momento em que todo mundo falou "foda-se". Aí resolvemos virar ídolos a qualquer preço.
Assim que você saiu do Capital, você disse que não conseguia enxergar uma personalidade na banda, que vocês viviam atrás da Legião. E agora? Você enxerga uma personalidade no Capital?
Sim. A gente se desenvolveu ao longo dos anos. Agora, eu vejo um estilo, uma personalidade bem resolvida. Mas a gente levou 10 anos para alcançar isso. A ligação com o Renato e a Legião era intestinal, visceral. O Fê e o Flávio aprenderam a tocar no Aborto Elétrico. Eu aprendi vendo eles tocarem. O Dado é meu irmão e o Bonfá meu melhor amigo, nós crescemos juntos. Foi difícil romper esse cordão umbilical e caminhar com as próprias pernas.
Por que a sua carreira solo não decolou?
Eu estava numa gravadora independente, que é o selo do Dado (Villa Lobos, ex-Legião, e o selo é o Rock It!). Ambos não tinham dinheiro. Acho que as pessoas ouviam o meu disco e falavam, "isso é Capital!". Viviam dizendo, "é igualzinho, por que você saiu então?". Não viam nenhum propósito e eu acho que essas pessoas tinham razâo. Mas eu gosto do meu disco solo, acho que é um dos meus melhores trabalhos. Tive a oportunidade de trabalhar com o Suba, que foi um grande produtor. Mas aquilo poderia ter sido feito com o Capital, não precisava ter saído.
Qual foi a importância da cena de Brasília para o rock nacional?
Eu acho que é a mais importante cena roqueira do país. A única cidade que pode se rivalizar com Brasília é Porto Alegre. Em São Paulo tinha várias cenas isoladas, o Ira! era mod, o Inocentes era punk, os Titãs eram pop, o Ratos do Porão era hardcore, cada banda era uma coisa diferente, cada banda era uma ilha. Em Brasília, como em Porto Alegre, existia uma unidade. Unidade de referências, de origens, nos discursos...
Não sei se atribuiria o sucesso do rock brasileiro à cena de Brasília, mas é uma cena crucial na história do rock nacional. Em todo o momento, dos anos 80 para cá, sempre existiu uma banda de Brasília entre as maiores do país.
Por que a crítica especializada gosta de massacrar o rock nacional, principalmente as bandas dos anos 80?
Se você perceber um padrão nessas críticas, vai ver uma coisa engraçada. Eles sempre estão falando muito bem de alguém e, aproveitam, para alfinetar o rock brasileiro. Dizem coisas como "dentro desse roquinho nacional, essa é uma coisa que se destaca". Para falar bem de alguém tem que falar mal do rock brasileiro.
Mas a crítica restringe-se apenas ao rock nacional e a MPB. Eles não se dignam a analisar os gêneros mais populares – como a música sertaneja, o axé e o pagode – esses são completamente ignorados. Se eles se preocupam com a gente, ok, significa que nós temos importância.
Por que a volta de bandas veteranas como vocês e o Ira!? Não há nada novo que preste?
Não, existem bandas novas muito boas. E o bacana é que a gente está co-existindo com essas bandas novas. Rappa, Planet Hemp, Raimundos, Jota Quest, Rumbora, Pato Fu, Skank, são bandas legais pra caralho que estão indo super bem. E nós estamos co-existindo com eles. No Brasil isso é um a coisa nova, mas lá fora isso é bem normal. Um garoto vai ao show do Offspring e do Aerosmith com o mesmo prazer. Não existe isso de uma geração ou outra
Existem diferenças entre ser um artista popular e fazer música pop?
Sim. A gente não tem acesso aos veículos populares. Não entramos nas grandes rádios, temos dificuldades de entrar na Globo. Nós fazemos música pop mas não somos populares.
E nós não temos pudores. Eu faço o que for preciso pelo rock nacional e pela minha música. A gente faz música para os nossos veículos. Mas, se uma rádio popular me convidar, ou algum programa de TV, eu vou. Mas vou nos meus termos. Eu vou para tocar a minha música. O Brasil tem uma mania muito anti-social. Não adianta fingir que estamos no Primeiro Mundo. Se a gente ficar restrito a 89FM e a MTV, a nossa música só será ouvida pela classe média branca. É legal sair desse castelo de mármore. E se você quer mostrar o rock brasileiro para o povo, tem que abraças todas as oportunidades que lhe são oferecidas.
Mas ainda existem pessoas pré-dispostas, no grande público consumidor, a conhecer o rock nacional?
O perfil dessas pessoas mudou dos anos 80 para cá. A molecada de hoje é menos intransigente do que a gente era. Com a gente não tinha muita conversa. Hoje, o mesmo cara que gosta de forró, gosta de Capital. O cara gosta de Raimundos,Capital, Falamansa... É um cara muito mais tolerante do que a gente nos anos 80.
E você acha isso legal?
Não muito (cai na gargalhada) ... Confesso que sou intolerante. É uma das minhas manias. Em relação a tudo na vida, menos música, eu sou tolerante. Ainda acho que a segmentação é uma coisa positiva. Acredito que a segmentação é o melhor caminho para todos os gêneros musicais no Brasil.
E o novo disco do Capital?
Estou começando a compor. Já existem umas cinco bases prontas. Em janeiro eu vou entrar em estúdio. Eu queria chegar em março com as bases todas prontas para já começar a pré-produção. Se tudo der certo assim, sai em junho. Mas já antecipo que vai ser bem cru, pesado, uma banda de rock básico.
Dinho no Rock In Rio 3 - Foto de Marcelo Rossi
E o seu livro sobre a cena de Brasília? Em que pé que está?
O livro está em um disquete. Assim que assentar um pouco a poeira do acústico, acho que no final do ano, eu vou retomá-lo. Não dá tempo de escrever. Só este ano a gente fez 120 shows e eu ainda tenho duas crianças pequenas em casa. Fica impraticável. Mas se tudo der certo também eu o lanço em junho, junto com o novo disco do Capital. O problema é que escrever o livro está se mostrando muito mais difícil do que eu pensava. E eu estou escrevendo de um modo totalmente caótico, eu conto as histórias da maneira que eu vou lembrando.
Você leu o "Diário da Turma", do Paulo Marchetti?
Sim, inclusive está bem aqui na minha mesa. Eu achei legal, mas o meu não é bem isso. A minha história se passa antes, o livro acaba quando as bandas começam. As bandas, eu falo, quero dizer a Legião Urbana e o Capital Inicial. O Paulinho era molequinho nessa época, devia ter 6 ou 7 anos. Eu tinha 16 anos quando o meu livro começa. O livro do Paulo começa bem depois. E ele conta a história entrevistando as pessoas. O meu é um romance, eu falo na primeira pessoa e você, leitor, em alguns momentos vai ficar em dúvida se alguns fatos aconteceram ou não. E eu também não sei se aconteceram do jeito que eu estou contando.
Dinho - Eu acho que ele tem menos excessos. E isso é uma coisa que é um problema para a banda. Você vai acumulando maneirismos ao longo dos anos. Acho que graças à separação, nós conseguimos nos livrar um pouco disso. Eu ouço os primeiros discos e acho tudo muito excessivo. Produção demais, teclados demais, vocal demais. Eu acho que a gente aprendeu a controlar isso tudo.
Estamos melhor. Principalmente este disco que a gente lançou antes do acústico, o "Atrás dos Olhos". Eu acho esse disco o nosso melhor trabalho. A gente só tinha conseguido atingir essa simplicidade, ir direto ao assunto, somente no primeiro disco. O resto ficou meio barroco, com excesso de tudo
Vocês não percebiam esses excessos na época?
A gente cometeu um grande erro nos anos 80, não quero culpar ninguém, mas a entrada do Bozo descaracterizou muito a banda. A gente levo muito tempo tentando equacionar a entrada dele e acho que até hoje não conseguimos resolver isso direito. Eu acho que a volta do Capital é a volta como quarteto. Aliás, os nossos melhores discos foram gravados como quarteto.
Mas foram vocês que o convidaram para a banda.
Sim. Foi. Por isso a culpa foi toda nossa. Ele não tem culpa de nada, ele aceitou e tudo bem. A culpa foi inteira nossa. Ele era um músico letrado, que tinha se formado na ECA, tinha tocado com Arrigo Barnabé, ele era semi-erudito. E a gente era uma banda punk, que aprendeu tocando dois acordes. Não poderia dar certo. E não deu.
Por que você saiu da banda em 1994? Qual foi o motivo do racha entre vocês?
Já rolava uma estafa entre a gente. Já estávamos juntos desde os 19 anos, passamos por tudo, altos e baixos. Eu também queria tocar com outras pessoas, fazer outras coisas da vida. Acho que todos nós tínhamos uma certa dúvida existencial quanto ao Capital, não sabíamos direito para onde ir. E eu acho que quando a gente não sabe o que dizer, é melhor não dizer nada. Não que isso fosse deliberado, mas olhando para trás, acho que a gente fez a coisa certa em parar. Foi a melhor coisa que a gente fez. E parte do que está acontecendo agora é fruto desses cinco anos de silêncio. Tanto quanto a relação entre nós como a nossa relação com o público. Deu para pensar na vida, pensar na nossa música. Amadurecemos, tanto eu quanto a banda passamos por muitas dificuldades. Eu fiquei solo. Eu fiquei solo e independente nesses cinco anos e tudo foi muito difícil. Tudo. Gravar, fazer vídeo, todo o trabalho era mais difícil. Quando você passa por isso, ganha uma nova consciência, aprende a se virar sozinho. Me ensinou muito, passei a moderar as expectativas.
A relação entre os membros da banda voltou fortalecida?
Cara, a nossa amizade foi salva. Foi recuperada. A gente teve que cavar e varrer muita coisa para debaixo do tapete. Percebemos que maior do que qualquer um é a banda. Não ficamos mais embriagados com o sucesso e outras coisas que vem com ele. Sabemos que tudo é efêmero. A conseqüência é que nos damos muito melhor agora do que antes. Existe um respeito muito maior entre a gente.
O projeto do disco acústico já estava nos planos da banda desde a volta?
Sim e não. Existia a idéia de fazer um disco ao vivo. A gente nunca tinha feito um juntos e, fatalmente, um dia isso ia acontecer. A gente não sabia bem o formato, tínhamos duas alternativas: lançar um disco de rock mais pesado ou encarar o desafio de um acústico. Nós achamos que o acústico era melhor por inúmeras razões, entre elas, a própria visibilidade do projeto. Sabíamos que era um formato altamente vendável e vencedor. Mas quando eu digo isso, nem eu, nem gravadora, nem a MTV e muito menos a banda, esperava por essa repercussão. Todo mundo foi surpreendido pelo que aconteceu. E eu acho que isso acabou sendo uma vantagem. Entramos em campo sem nenhuma expectativa.
Mas vocês também pretendiam resgatar alguns velhos hits para o público novo que vocês acabaram conquistando com a volta?
Cara, a nossa maior preocupação, o nosso maior medo quando essa história começou, pelo menos o meu maior medo era que isso fosse visto com uma onda nostálgica. Que fosse uma coisa tipo "vamos lembrar como eram legais os anos 80" ou "jovem também tem saudade". O meu maior medo é que o disco tivesse essa característica. Por isso a gente botou várias músicas novas, como "Natasha", "Tudo Que Vai"... E conseguíamos o que queríamos, que era falar para a moçada e não para gente da minha idade. É o que vem acontecendo. A média de idade do público que vai aos nossos shows é de 16, 17 anos. Eu considero isso uma vitória.
Só que um lançamento desse não consegue esconder o clima de oportunismo.
E eu acho que em alguns casos, são oportunistas. Mas eu costumo dizer para as pessoas que sugerem que nós fomos oportunistas, que a gente voltou com um disco novo, antes, cheio de inéditas. Queremos virar a página do acústico o quanto antes. Devemos estar entrando em estúdio no começo do próximo semestre. Ou seja, não temos nada a ver com essa onda de nostalgia. As músicas que mais tocaram no rádio, que foram extraídas do acústico, eram músicas novas. E se uma banda não consegue mais compor ou apresentar novas idéias, não merece muita consideração, o que não é o nosso caso.
foto de Priscila Prade
Você não acha que banda de rock tem que durar pouco para não cair no ridículo?
Eu discordo. Tem várias bandas boas que estão há anos fazendo bons trabalhos. E, principalmente, eu acho que não existem regras no rock. Tem exemplos nos dois sentidos. Tem bandas-relâmpago maravilhosas, como o Sex Pistols e o Nirvana e tem bandas mais longas, como o Rolling Stones e o Aerosmith, que são ótimos. O segredo é você conseguir compor e apresentar novas idéias. Se você pegar o "Tatto You", que eu acho um dos melhores discos dos Stones, eles já tinham 20 anos de carreira. Nem tudo que é novo é bom e nem tudo que é velho é ruim.
É que algumas bandas envelhecem melhor ou pior do que outras. E tem aquelas bandas que vivem só do passado, como, por exemplo, o Deep Purple. Você vai ao show dos caras só para ouvir o "Machine Head", que é um disco de mais de 20 anos.
E você também pode envelhecer com dignidade. É só não ficar embarcando no último modismo. Você tem que abraçar o que sempre fez. Um exemplo é a volta do Echo & The Bunnymen, que é do caralho. Os discos recentes deles são sensacionais. Eu acho um erro o Clash não voltar. Todos estão inteiros, relativamente moços, não sei porque não voltam a tocar, são uma puta banda.
Por que o rock nacional perdeu espaço nos anos 90? As bandas estabelecidas perderam o gás? Ou não houve uma segunda geração?
Um pouco de tudo. Mas eu acho que houve uma segunda geração que nos sucedeu, como Raimundos, Planet Hemp, o Rappa, acho que é um pessoal bem anos 90.
Acredito que existia uma crise de identidade entre a nossa geração. Tudo isso coincidiu com a ascensão do grunge e no Brasil de bandas como Raimundos e o Rappa. Acho que de um certo modo, teve uma crise de consciência em quase todo mundo da minha geração. Várias bandas perderam. Foi o fundo do poço para todos, até os grandões como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, passaram por essa crise.
Todo mundo ficou com a auto-estima bem abalada no começo dos anos 90. Foi como se cada um de nós achasse que tinha se corrompido. Ou virado o inimigo. As coisas que a gente apontava como defeito aos outros, no começo da nossa carreira, foi o que acabamos virando. Com o passar dos anos, essa avaliação severa que nós fazíamos de nós mesmos, mudou. Falando por mim, a avaliação super séria que eu tinha do Capital, do que a banda tinha virado, eu já não acho mais hoje. Eu sou menos maniqueísta. Acho bacana muita coisa que a gente fez. Não é tudo lixo, que tem que jogar fora, como eu pensava nos anos 90.
Esta crise de identidade explica o fato de vocês terem mudado bastante de perfil, passando por eletrônicos, depois grunge, depois metal, aí acabaram...
Sim. Estas mudanças foram causas da entrada do Bozo, também. O Capital em determinados momentos passou por uma crise existencial muito forte, seguida de uma crise de identidade que já existia há anos. E também existia a eterna comparação com a Legião. Essa comparação fez com que a gente entregasse os pontos. Chegou um momento em que todo mundo falou "foda-se". Aí resolvemos virar ídolos a qualquer preço.
Assim que você saiu do Capital, você disse que não conseguia enxergar uma personalidade na banda, que vocês viviam atrás da Legião. E agora? Você enxerga uma personalidade no Capital?
Sim. A gente se desenvolveu ao longo dos anos. Agora, eu vejo um estilo, uma personalidade bem resolvida. Mas a gente levou 10 anos para alcançar isso. A ligação com o Renato e a Legião era intestinal, visceral. O Fê e o Flávio aprenderam a tocar no Aborto Elétrico. Eu aprendi vendo eles tocarem. O Dado é meu irmão e o Bonfá meu melhor amigo, nós crescemos juntos. Foi difícil romper esse cordão umbilical e caminhar com as próprias pernas.
Por que a sua carreira solo não decolou?
Eu estava numa gravadora independente, que é o selo do Dado (Villa Lobos, ex-Legião, e o selo é o Rock It!). Ambos não tinham dinheiro. Acho que as pessoas ouviam o meu disco e falavam, "isso é Capital!". Viviam dizendo, "é igualzinho, por que você saiu então?". Não viam nenhum propósito e eu acho que essas pessoas tinham razâo. Mas eu gosto do meu disco solo, acho que é um dos meus melhores trabalhos. Tive a oportunidade de trabalhar com o Suba, que foi um grande produtor. Mas aquilo poderia ter sido feito com o Capital, não precisava ter saído.
Qual foi a importância da cena de Brasília para o rock nacional?
Eu acho que é a mais importante cena roqueira do país. A única cidade que pode se rivalizar com Brasília é Porto Alegre. Em São Paulo tinha várias cenas isoladas, o Ira! era mod, o Inocentes era punk, os Titãs eram pop, o Ratos do Porão era hardcore, cada banda era uma coisa diferente, cada banda era uma ilha. Em Brasília, como em Porto Alegre, existia uma unidade. Unidade de referências, de origens, nos discursos...
Não sei se atribuiria o sucesso do rock brasileiro à cena de Brasília, mas é uma cena crucial na história do rock nacional. Em todo o momento, dos anos 80 para cá, sempre existiu uma banda de Brasília entre as maiores do país.
Por que a crítica especializada gosta de massacrar o rock nacional, principalmente as bandas dos anos 80?
Se você perceber um padrão nessas críticas, vai ver uma coisa engraçada. Eles sempre estão falando muito bem de alguém e, aproveitam, para alfinetar o rock brasileiro. Dizem coisas como "dentro desse roquinho nacional, essa é uma coisa que se destaca". Para falar bem de alguém tem que falar mal do rock brasileiro.
Mas a crítica restringe-se apenas ao rock nacional e a MPB. Eles não se dignam a analisar os gêneros mais populares – como a música sertaneja, o axé e o pagode – esses são completamente ignorados. Se eles se preocupam com a gente, ok, significa que nós temos importância.
Por que a volta de bandas veteranas como vocês e o Ira!? Não há nada novo que preste?
Não, existem bandas novas muito boas. E o bacana é que a gente está co-existindo com essas bandas novas. Rappa, Planet Hemp, Raimundos, Jota Quest, Rumbora, Pato Fu, Skank, são bandas legais pra caralho que estão indo super bem. E nós estamos co-existindo com eles. No Brasil isso é um a coisa nova, mas lá fora isso é bem normal. Um garoto vai ao show do Offspring e do Aerosmith com o mesmo prazer. Não existe isso de uma geração ou outra
Existem diferenças entre ser um artista popular e fazer música pop?
Sim. A gente não tem acesso aos veículos populares. Não entramos nas grandes rádios, temos dificuldades de entrar na Globo. Nós fazemos música pop mas não somos populares.
E nós não temos pudores. Eu faço o que for preciso pelo rock nacional e pela minha música. A gente faz música para os nossos veículos. Mas, se uma rádio popular me convidar, ou algum programa de TV, eu vou. Mas vou nos meus termos. Eu vou para tocar a minha música. O Brasil tem uma mania muito anti-social. Não adianta fingir que estamos no Primeiro Mundo. Se a gente ficar restrito a 89FM e a MTV, a nossa música só será ouvida pela classe média branca. É legal sair desse castelo de mármore. E se você quer mostrar o rock brasileiro para o povo, tem que abraças todas as oportunidades que lhe são oferecidas.
Mas ainda existem pessoas pré-dispostas, no grande público consumidor, a conhecer o rock nacional?
O perfil dessas pessoas mudou dos anos 80 para cá. A molecada de hoje é menos intransigente do que a gente era. Com a gente não tinha muita conversa. Hoje, o mesmo cara que gosta de forró, gosta de Capital. O cara gosta de Raimundos,Capital, Falamansa... É um cara muito mais tolerante do que a gente nos anos 80.
E você acha isso legal?
Não muito (cai na gargalhada) ... Confesso que sou intolerante. É uma das minhas manias. Em relação a tudo na vida, menos música, eu sou tolerante. Ainda acho que a segmentação é uma coisa positiva. Acredito que a segmentação é o melhor caminho para todos os gêneros musicais no Brasil.
E o novo disco do Capital?
Estou começando a compor. Já existem umas cinco bases prontas. Em janeiro eu vou entrar em estúdio. Eu queria chegar em março com as bases todas prontas para já começar a pré-produção. Se tudo der certo assim, sai em junho. Mas já antecipo que vai ser bem cru, pesado, uma banda de rock básico.
Dinho no Rock In Rio 3 - Foto de Marcelo Rossi
E o seu livro sobre a cena de Brasília? Em que pé que está?
O livro está em um disquete. Assim que assentar um pouco a poeira do acústico, acho que no final do ano, eu vou retomá-lo. Não dá tempo de escrever. Só este ano a gente fez 120 shows e eu ainda tenho duas crianças pequenas em casa. Fica impraticável. Mas se tudo der certo também eu o lanço em junho, junto com o novo disco do Capital. O problema é que escrever o livro está se mostrando muito mais difícil do que eu pensava. E eu estou escrevendo de um modo totalmente caótico, eu conto as histórias da maneira que eu vou lembrando.
Você leu o "Diário da Turma", do Paulo Marchetti?
Sim, inclusive está bem aqui na minha mesa. Eu achei legal, mas o meu não é bem isso. A minha história se passa antes, o livro acaba quando as bandas começam. As bandas, eu falo, quero dizer a Legião Urbana e o Capital Inicial. O Paulinho era molequinho nessa época, devia ter 6 ou 7 anos. Eu tinha 16 anos quando o meu livro começa. O livro do Paulo começa bem depois. E ele conta a história entrevistando as pessoas. O meu é um romance, eu falo na primeira pessoa e você, leitor, em alguns momentos vai ficar em dúvida se alguns fatos aconteceram ou não. E eu também não sei se aconteceram do jeito que eu estou contando.
Entrevista com John Deacon.
Clássica com a revista Bizz em 1986.
Bizz: O único trabalho que vocês lançaram em 85 foi o single "One Vision". Por que isso?
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Deacon: Estivemos afastados do estúdio desde o último LP, Works. Geralmente, quando acabamos um disco, estamos com o saco tão cheio das gravações e do trabalho conjunto que sempre tiramos umas férias.
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Bizz: Então, 85 foi uma éspécie de período de férias coletivas?
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Deacon: Não realmente. Fizemos poucos shows, mas eles foram bem importantes. Fizemos duas apresentações no Rock in Rio, depois tocamos na Nova Zelândia, na Austrália, Japão, e voltamos à Inglaterra para tocar no Live Aid. Não foi um ano tão tranquilo assim.
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Bizz: Vocês têm se envolvido em projetos de discos solo e turnês sucessivas. Não fica difícil acomodar o trabalho do Queen no meio dessa situação?
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Deacon: Fica. Mas o que aconteceu de fato é que ao longo dos últimos anos começamos a ter sérias divergências internas. Os interesses do grupo têm ficado bem distanciados dos interesses individuais. Enquanto a banda segue sem prejudicar a saúde de seus integrantes não há necessidade de separação. Mas a situação está difícil, e é necessário que cada um saiba organizar bem seu tempo. Quando Freddie iniciou seu projeto solo, eu marquei bobeira e fiquei um tempão sem fazer nada. Nós ficamos a ver navios, o que foi muito chato…
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Bizz: Voltando ao single, ele parece ter sido um resultado imediato da apresentação do Live Aid.
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Deacon: Bem, talvez no contexto da letra, não sei… Não estive muito envolvido com a composição. Apesar da autoria ter sido creditada ao grupo todo, ela na verdade é dos outros três.
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Bizz: Isso não é muito usual, não? Você sempre teve grande responsabilidade no trabalho do Queen.
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Deacon: É, no passado era assim, quando as composições eram feitas individualmente.
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Bizz: E como estão os planos para o futuro?
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Deacon: Planos para o futuro? Bem, hoje já não somos tão organizados como há alguns anos, quando sabíamos o que iríamos fazer meses depois. Estamos fazendo a trilha sonora de Highlander, o segundo filme do diretor de vídeos Russell Mulcahy (autor de vários clips do Duran Duran). É uma fita muito interessante, com um visual soberbo, um bom roteiro e grandes atores – ela é estrelada por Sean Connery e Christophe Lambert.
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Bizz: E a próxima turnê?
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Deacon: Quando terminar o trabalho com o filme discutiremos o que fazer. Esse é o problema de um grupo quando ele faz muito sucesso. Todos têm planos individuais, e quando se vai decidir os rumos do grupo cada um tenta puxar a brasa para a sua sardinha. Eu particularmente acho que, depois da resposta do público no Live Aid, nós deveríamos partir para uma turnê ao invés de ficar mofando num estúdio. Tem gente na banda que acha melhor gravar outro disco e excursionar depois.
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Bizz: O que você acha dessa onda de shows beneficentes? As pessoas devem usar a música para causas políticas?
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Deacon: Acho que sim. Bob Geldof fez isso com o disco Do They Know It’s Christmas e depois com o Live Aid, e conseguiu chamar a atenção dos políticos para esses problemas. Achei ótimo o Live Aid causar uma reação generalizada em várias partes do mundo, um fenômeno sem precedentes e que levantou muita grana. É um jeito de fazer com que os músicos sejam ouvidos for a do âmbito musical.
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Bizz: O Queen participou de vários shows beneficentes, não foi?
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Deacon: Vários, mas nunca fizemos muita publicidade em cima. No último LP abrimos mão de alguns direitos autorais, mas nunca quisemos divulgar isso. Podemos nos dar ao luxo de doar alguns direitos para causas beneficentes. É algo que todos os membros do grupo acatam, apesar das divergências.
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Bizz: Quais causas você apoia?
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Deacon: Dou preferência a causas humanas, bem mais do que à defesa de animais e esse tipo de coisas. Eu também apoiaria causas em benefício da saúde mental.
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Bizz: O disco Works tem uma ligação com os anos 60, com os Beatles e com o início de carreira do próprio Queen. Como você enxerga esse trabalho em meio a todo esse revival, esse modismo de volta ao passado e ao rock antigo?
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Deacon: O jeito de se fazer música mudou muito nos últimos anos, principalmente por causa do avanço tecnológico. Eu gosto da atitude de pessoas que formam grupos, com quatro, cinco ou três membros, não importa, mas com um caráter de grupo, que grava e toca ao vivo com a mesma formação. Por isso gosto dessa volta aos velhos valores, de se privilegiar o grupo ao invés do aparato.
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Bizz: Mas os integrantes do Queen andaram seguindo direções diferentes, e havia rumores de que a banda iria acabar, principalmente na época do projeto solo de Freddie Mercury. Como está a situação?
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Deacon: Eu tenho uma visão simplista disso. Acho que um grupo deve fazer duas coisas: gravar e tocar ao vivo. Nós lançamos o single, e estamos fazendo música para um filme; estamos trabalhando juntos, portanto ainda somos um grupo. Não é como o Police, por exemplo. Eles continuam dizendo que estão unidos, mas não estão gravando ou tocando juntos.
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Bizz: Parece que o Queen não será convidado para o segundo Rock in Rio. O que você acha disso?
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Deacon: (surpreso) Eu não sabia. Só tinha lido nos jornais sobre as tentativas de se mudar o evento para São Paulo… Não sei, acho difícil promover um evento desses a cada dois anos. Mas se houver um esse ano gostaria muito de tocar lá de novo. Na primeira vez as condições são sempre especiais – todo mundo estava nervoso e apreensivo com a organização da coisa toda. Mas tudo correu muito bem.
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Bizz: A imprensa brasileira divulgou o evento como sendo um fato histórico. Você concorda com essa classificação?
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Deacon: Em termos de América do Sul eu acho que sim. E principalmente para o Brasil, porque foi uma coisa feita por brasileiros. Muitos viajaram de longe para ver o evento, o que demonstra que ele teve mesmo uma grande repercussão internacional.
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Bizz: Eu estava me perguntando por que mandaram você quando pedi para entrevistar o Queen…
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Deacon: É porque eu sou voluntário… (risos) Só por isso.
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Bizz: Os outros não dão entrevistas?
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Deacon: Já demos tantas que eu nem sei mais ao certo se os outros ainda gostam disso. O Roger é bom nisso, ele é bem tranquilo para entrevistas.
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Bizz: Acabamos de assistir ao clip de "One Vision". Ele é bem diferente dos anteriores, mais simples, direto, com vocês tocando no estúdio…
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Deacon: É, eu gosto desse clip. É uma mudança bem refrescante… Tínhamos feito alguns clips que não foram bem recebidos, e decidimos trocar de diretor e de conceito. Em vez de passarmos a impressão de estar tocando ao vivo, resolvemos tocar de verdade e aparecer assim no vídeo. Pusemos câmeras no estúdio em Munique enquanto estávamos gravando o single. Foi uma experiência estranha. Eu ficava meio nervoso sendo filmado enquanto tocava de verdade – foi mais ou menos como o lance dos Beatles no filme Let it Be. Mas correu tudo bem, e deu para gravar do jeito que imaginávamos. Além dessas imagens, o clip inclui cenas gravadas há algumas semanas em Londres. São cenas nas quais nos referimos a algumas imagens do vídeo de "Bohemian Rhapsody", feito dez anos atrás. Naquele tempo nossa aparência era completamente diferente – a idéia era recriar as poses e juntar as duas imagens, para mostrar como nós mudamos nesses dez anos.
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Bizz: Deve ser difícil para vocês, que já fizeram tantos vídeos, alguns tão bons…
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Deacon: (interrompendo) … e outros tão ruins… (risos)
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Bizz: …conseguir escapar do padrão, quando se tem que fazer algo novo, não é?
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Deacon: É duro, realmente, quando se é uma grande banda e precisa apresentar algo diferente. E com a música é ainda mais difícil…
Bizz: O único trabalho que vocês lançaram em 85 foi o single "One Vision". Por que isso?
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Deacon: Estivemos afastados do estúdio desde o último LP, Works. Geralmente, quando acabamos um disco, estamos com o saco tão cheio das gravações e do trabalho conjunto que sempre tiramos umas férias.
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Bizz: Então, 85 foi uma éspécie de período de férias coletivas?
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Deacon: Não realmente. Fizemos poucos shows, mas eles foram bem importantes. Fizemos duas apresentações no Rock in Rio, depois tocamos na Nova Zelândia, na Austrália, Japão, e voltamos à Inglaterra para tocar no Live Aid. Não foi um ano tão tranquilo assim.
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Bizz: Vocês têm se envolvido em projetos de discos solo e turnês sucessivas. Não fica difícil acomodar o trabalho do Queen no meio dessa situação?
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Deacon: Fica. Mas o que aconteceu de fato é que ao longo dos últimos anos começamos a ter sérias divergências internas. Os interesses do grupo têm ficado bem distanciados dos interesses individuais. Enquanto a banda segue sem prejudicar a saúde de seus integrantes não há necessidade de separação. Mas a situação está difícil, e é necessário que cada um saiba organizar bem seu tempo. Quando Freddie iniciou seu projeto solo, eu marquei bobeira e fiquei um tempão sem fazer nada. Nós ficamos a ver navios, o que foi muito chato…
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Bizz: Voltando ao single, ele parece ter sido um resultado imediato da apresentação do Live Aid.
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Deacon: Bem, talvez no contexto da letra, não sei… Não estive muito envolvido com a composição. Apesar da autoria ter sido creditada ao grupo todo, ela na verdade é dos outros três.
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Bizz: Isso não é muito usual, não? Você sempre teve grande responsabilidade no trabalho do Queen.
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Deacon: É, no passado era assim, quando as composições eram feitas individualmente.
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Bizz: E como estão os planos para o futuro?
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Deacon: Planos para o futuro? Bem, hoje já não somos tão organizados como há alguns anos, quando sabíamos o que iríamos fazer meses depois. Estamos fazendo a trilha sonora de Highlander, o segundo filme do diretor de vídeos Russell Mulcahy (autor de vários clips do Duran Duran). É uma fita muito interessante, com um visual soberbo, um bom roteiro e grandes atores – ela é estrelada por Sean Connery e Christophe Lambert.
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Bizz: E a próxima turnê?
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Deacon: Quando terminar o trabalho com o filme discutiremos o que fazer. Esse é o problema de um grupo quando ele faz muito sucesso. Todos têm planos individuais, e quando se vai decidir os rumos do grupo cada um tenta puxar a brasa para a sua sardinha. Eu particularmente acho que, depois da resposta do público no Live Aid, nós deveríamos partir para uma turnê ao invés de ficar mofando num estúdio. Tem gente na banda que acha melhor gravar outro disco e excursionar depois.
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Bizz: O que você acha dessa onda de shows beneficentes? As pessoas devem usar a música para causas políticas?
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Deacon: Acho que sim. Bob Geldof fez isso com o disco Do They Know It’s Christmas e depois com o Live Aid, e conseguiu chamar a atenção dos políticos para esses problemas. Achei ótimo o Live Aid causar uma reação generalizada em várias partes do mundo, um fenômeno sem precedentes e que levantou muita grana. É um jeito de fazer com que os músicos sejam ouvidos for a do âmbito musical.
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Bizz: O Queen participou de vários shows beneficentes, não foi?
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Deacon: Vários, mas nunca fizemos muita publicidade em cima. No último LP abrimos mão de alguns direitos autorais, mas nunca quisemos divulgar isso. Podemos nos dar ao luxo de doar alguns direitos para causas beneficentes. É algo que todos os membros do grupo acatam, apesar das divergências.
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Bizz: Quais causas você apoia?
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Deacon: Dou preferência a causas humanas, bem mais do que à defesa de animais e esse tipo de coisas. Eu também apoiaria causas em benefício da saúde mental.
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Bizz: O disco Works tem uma ligação com os anos 60, com os Beatles e com o início de carreira do próprio Queen. Como você enxerga esse trabalho em meio a todo esse revival, esse modismo de volta ao passado e ao rock antigo?
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Deacon: O jeito de se fazer música mudou muito nos últimos anos, principalmente por causa do avanço tecnológico. Eu gosto da atitude de pessoas que formam grupos, com quatro, cinco ou três membros, não importa, mas com um caráter de grupo, que grava e toca ao vivo com a mesma formação. Por isso gosto dessa volta aos velhos valores, de se privilegiar o grupo ao invés do aparato.
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Bizz: Mas os integrantes do Queen andaram seguindo direções diferentes, e havia rumores de que a banda iria acabar, principalmente na época do projeto solo de Freddie Mercury. Como está a situação?
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Deacon: Eu tenho uma visão simplista disso. Acho que um grupo deve fazer duas coisas: gravar e tocar ao vivo. Nós lançamos o single, e estamos fazendo música para um filme; estamos trabalhando juntos, portanto ainda somos um grupo. Não é como o Police, por exemplo. Eles continuam dizendo que estão unidos, mas não estão gravando ou tocando juntos.
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Bizz: Parece que o Queen não será convidado para o segundo Rock in Rio. O que você acha disso?
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Deacon: (surpreso) Eu não sabia. Só tinha lido nos jornais sobre as tentativas de se mudar o evento para São Paulo… Não sei, acho difícil promover um evento desses a cada dois anos. Mas se houver um esse ano gostaria muito de tocar lá de novo. Na primeira vez as condições são sempre especiais – todo mundo estava nervoso e apreensivo com a organização da coisa toda. Mas tudo correu muito bem.
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Bizz: A imprensa brasileira divulgou o evento como sendo um fato histórico. Você concorda com essa classificação?
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Deacon: Em termos de América do Sul eu acho que sim. E principalmente para o Brasil, porque foi uma coisa feita por brasileiros. Muitos viajaram de longe para ver o evento, o que demonstra que ele teve mesmo uma grande repercussão internacional.
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Bizz: Eu estava me perguntando por que mandaram você quando pedi para entrevistar o Queen…
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Deacon: É porque eu sou voluntário… (risos) Só por isso.
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Bizz: Os outros não dão entrevistas?
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Deacon: Já demos tantas que eu nem sei mais ao certo se os outros ainda gostam disso. O Roger é bom nisso, ele é bem tranquilo para entrevistas.
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Bizz: Acabamos de assistir ao clip de "One Vision". Ele é bem diferente dos anteriores, mais simples, direto, com vocês tocando no estúdio…
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Deacon: É, eu gosto desse clip. É uma mudança bem refrescante… Tínhamos feito alguns clips que não foram bem recebidos, e decidimos trocar de diretor e de conceito. Em vez de passarmos a impressão de estar tocando ao vivo, resolvemos tocar de verdade e aparecer assim no vídeo. Pusemos câmeras no estúdio em Munique enquanto estávamos gravando o single. Foi uma experiência estranha. Eu ficava meio nervoso sendo filmado enquanto tocava de verdade – foi mais ou menos como o lance dos Beatles no filme Let it Be. Mas correu tudo bem, e deu para gravar do jeito que imaginávamos. Além dessas imagens, o clip inclui cenas gravadas há algumas semanas em Londres. São cenas nas quais nos referimos a algumas imagens do vídeo de "Bohemian Rhapsody", feito dez anos atrás. Naquele tempo nossa aparência era completamente diferente – a idéia era recriar as poses e juntar as duas imagens, para mostrar como nós mudamos nesses dez anos.
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Bizz: Deve ser difícil para vocês, que já fizeram tantos vídeos, alguns tão bons…
www.tudoqueen.cjb.net
Deacon: (interrompendo) … e outros tão ruins… (risos)
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Bizz: …conseguir escapar do padrão, quando se tem que fazer algo novo, não é?
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Deacon: É duro, realmente, quando se é uma grande banda e precisa apresentar algo diferente. E com a música é ainda mais difícil…
terça-feira, 28 de junho de 2011
Entrevista com Peter Criss.
HeraldTribune.com — Sua última experiência com gravações foi em “Psycho Circus”, em 1998, ainda com o KISS, repleta de confrontos, em que você e Ace [Frehley, guitarrista] tiveram uma participação ínfima. Acredito que desta vez tenha sido algo mais refrescante para você.
Peter Criss — "Muito. O ‘Psycho Circus’ foi um outro exemplo da história se repetindo novamente. Poder e dinheiro são duas coisas assustadoras. Quando você entra nelas — e eu entrei, abusei, usei como todos nós fazemos — isso tudo aconteceu. O produtor Bruce Fairbairn morreu, Deus abençoe sua alma, depois daquele álbum. Mas o que mais me incomodou, e tenho certeza que incomodou os fãs também, é que tratava-se de um momento mágico para a banda, estar nela novamente, fazer um álbum... há canções neste álbum [N. do T.: refere-se ao seu novo trabalho] que foram escritas para aquele disco. Escrevi ‘Hope’ e ‘Justice For All’ para aquele trabalho".
HeraldTribune.com — Nos velhos tempos, eles escolheriam pelo menos uma música sua para cada um dos trabalhos do Kiss. Por que isso não aconteceu com “Psycho Circus”?
Criss — "Isso machucou pra valer, cara. Muitas mudanças aconteceram. Sim, você está certo, se fosse tudo seria bem legal. Mas não rolou isso desta vez, percebi tudo e disse: ‘Ok, bem, apenas rezo para Deus um dia poder gravá-las’".
HeraldTribune.com — Já que estamos falando do Kiss e todos os turbilhões de eventos que resultaram nas separações, o que de fato aconteceu? Você os deixou durante a “Farewell Tour”, voltou para o projeto da Sinfonia de Melbourne (que acabou resultando no álbum “Symphony: Alive IV”, de 2003), foi para a turnê com o AEROSMITH, em 2004 e, então, saiu novamente.
Criss — "Vamos colocar as coisas desse jeito: pensei que o Ace estaria na turnê com o AEROSMITH, mas ele não estava. Então, disse para minha mulher e meus amigos que sem o Ace essa não era a banda original e desse jeito eu não farei as coisas".
HeraldTribune.com — Como é olhar para alguém que se veste como o Ace, usa a maquiagem que era do Ace, toca as notas de Ace, mas não é ele?
Criss — "Absolutamente assustador. Algumas noites eu me perdia tanto no excitamento das pessoas e na música que quase chegava a pensar que era o Ace. Você olha lá por um milésimo de segundo e lá está ele. O cara o copia em tudo e muito bem, nota por nota, era quase como o Ace. E então isso começou a me atingir e você fica como: ‘Nossa, isso é bem assustador’. Mas era nos camarins que você realmente sentia a diferença. E era uma merda, uma merda mesmo".
HeraldTribune.com — E o que você acha do atual baterista do KISS, Eric Singer, vestir a sua máscara?
Criss — "Não dou a mínima. Eu até me importei por um tempo, então pensei que você pode colocar um milhão de pessoas naquela máscara, mas não serei eu. Não será minha alma. E não será minha voz e meu coração e qualquer coisa que venha do meu coração passará pelas minhas mãos. Vem da minha música".
HeraldTribune.com — Falando sobre seu novo álbum, por que você decidiu concentrar-se mais nas baladas?
Criss — "Porque não queria ficar berrando pra vocês. Acho que meu grande objetivo eram as baladas, então me concentrei nessa teoria. Acho que as pessoas adoram o jeito que canto músicas lentas. Posso estar errado. E, além do mais, como é um trabalho autobiográfico, achei que deveria ser cantado deste jeito".
HeraldTribune.com — Voltando ao novo álbum, há uma faixa chamada “Space Ace” que vocês compôs para Ace Frehley. Vocês ainda são amigos?
Criss — "Sim, e sempre seremos. Somos inseparáveis não importa o que aconteça, somos almas gêmeas. E espero que ele goste dessa música. Ele achou legal quando eu a fiz. Ela fecha o álbum, caminha para uma jam latina selvagem. Como isso aconteceu nunca saberei, mas com o Ace isso tudo é possível. Você pode fazer o que quiser com o Ace, ele é uma espécie de alienígena. A faixa-título, ‘One for All’, fala sobre os atentados de 11 de setembro. Eu tinha ido à igreja e quando cheguei em casa, minha esposa disse que um avião havia batido nas torres. Eu pensei: ‘Bem, provavelmente foi um daqueles pequenos aviões’. E quando vi aqueles dois aviões enormes, foi muito surreal, parecia que eu estava assistindo a um filme de terror. Essa é uma música que fala sobre o quão ruim é a guerra, e ela deve parar. A música é como se fosse um cara abrindo a boca sobre o sistema".
Peter Criss — "Muito. O ‘Psycho Circus’ foi um outro exemplo da história se repetindo novamente. Poder e dinheiro são duas coisas assustadoras. Quando você entra nelas — e eu entrei, abusei, usei como todos nós fazemos — isso tudo aconteceu. O produtor Bruce Fairbairn morreu, Deus abençoe sua alma, depois daquele álbum. Mas o que mais me incomodou, e tenho certeza que incomodou os fãs também, é que tratava-se de um momento mágico para a banda, estar nela novamente, fazer um álbum... há canções neste álbum [N. do T.: refere-se ao seu novo trabalho] que foram escritas para aquele disco. Escrevi ‘Hope’ e ‘Justice For All’ para aquele trabalho".
HeraldTribune.com — Nos velhos tempos, eles escolheriam pelo menos uma música sua para cada um dos trabalhos do Kiss. Por que isso não aconteceu com “Psycho Circus”?
Criss — "Isso machucou pra valer, cara. Muitas mudanças aconteceram. Sim, você está certo, se fosse tudo seria bem legal. Mas não rolou isso desta vez, percebi tudo e disse: ‘Ok, bem, apenas rezo para Deus um dia poder gravá-las’".
HeraldTribune.com — Já que estamos falando do Kiss e todos os turbilhões de eventos que resultaram nas separações, o que de fato aconteceu? Você os deixou durante a “Farewell Tour”, voltou para o projeto da Sinfonia de Melbourne (que acabou resultando no álbum “Symphony: Alive IV”, de 2003), foi para a turnê com o AEROSMITH, em 2004 e, então, saiu novamente.
Criss — "Vamos colocar as coisas desse jeito: pensei que o Ace estaria na turnê com o AEROSMITH, mas ele não estava. Então, disse para minha mulher e meus amigos que sem o Ace essa não era a banda original e desse jeito eu não farei as coisas".
HeraldTribune.com — Como é olhar para alguém que se veste como o Ace, usa a maquiagem que era do Ace, toca as notas de Ace, mas não é ele?
Criss — "Absolutamente assustador. Algumas noites eu me perdia tanto no excitamento das pessoas e na música que quase chegava a pensar que era o Ace. Você olha lá por um milésimo de segundo e lá está ele. O cara o copia em tudo e muito bem, nota por nota, era quase como o Ace. E então isso começou a me atingir e você fica como: ‘Nossa, isso é bem assustador’. Mas era nos camarins que você realmente sentia a diferença. E era uma merda, uma merda mesmo".
HeraldTribune.com — E o que você acha do atual baterista do KISS, Eric Singer, vestir a sua máscara?
Criss — "Não dou a mínima. Eu até me importei por um tempo, então pensei que você pode colocar um milhão de pessoas naquela máscara, mas não serei eu. Não será minha alma. E não será minha voz e meu coração e qualquer coisa que venha do meu coração passará pelas minhas mãos. Vem da minha música".
HeraldTribune.com — Falando sobre seu novo álbum, por que você decidiu concentrar-se mais nas baladas?
Criss — "Porque não queria ficar berrando pra vocês. Acho que meu grande objetivo eram as baladas, então me concentrei nessa teoria. Acho que as pessoas adoram o jeito que canto músicas lentas. Posso estar errado. E, além do mais, como é um trabalho autobiográfico, achei que deveria ser cantado deste jeito".
HeraldTribune.com — Voltando ao novo álbum, há uma faixa chamada “Space Ace” que vocês compôs para Ace Frehley. Vocês ainda são amigos?
Criss — "Sim, e sempre seremos. Somos inseparáveis não importa o que aconteça, somos almas gêmeas. E espero que ele goste dessa música. Ele achou legal quando eu a fiz. Ela fecha o álbum, caminha para uma jam latina selvagem. Como isso aconteceu nunca saberei, mas com o Ace isso tudo é possível. Você pode fazer o que quiser com o Ace, ele é uma espécie de alienígena. A faixa-título, ‘One for All’, fala sobre os atentados de 11 de setembro. Eu tinha ido à igreja e quando cheguei em casa, minha esposa disse que um avião havia batido nas torres. Eu pensei: ‘Bem, provavelmente foi um daqueles pequenos aviões’. E quando vi aqueles dois aviões enormes, foi muito surreal, parecia que eu estava assistindo a um filme de terror. Essa é uma música que fala sobre o quão ruim é a guerra, e ela deve parar. A música é como se fosse um cara abrindo a boca sobre o sistema".
Entrevista com Neil Young.
Você fez um álbum descaradamente anti-Bush no ano passado, Living with War, e foi muito criticado por isso. Ficou espantado ao ver sua geração, que se uniu tanto contra a Guerra do Vietnã, demorar tanto para reagir à Guerra do Iraque?
Acho que eles reagiram muito bem. Estavam adormecidos, eram a maioria silenciosa e não sabiam. Mas acordaram e recuperamos um pouco do controle [no Congresso]. Não estou decepcionado com ninguém. Os universitários hoje reagem a uma situação que é real em suas vidas. Para eles, é mais importante conseguir emprego do que se preocupar com a guerra, porque a economia está tão dilacerada. Estão concentrados em garantir o futuro. Por quê? Porque ninguém está indo ao campus de faculdades para levá-los ao Iraque. Os Estados Unidos não sabem que estão em guerra. Não se pede a ninguém que faça sacrifícios, a não ser os soldados que se apresentaram como voluntários. O governo Bush prefere desperdiçar vidas de norte-americanos - ter soldados cansados e desgastados pela batalha cometendo erros e morrendo em combate - a perder a eleição por realizar uma convocação. Mas, assim que eles começarem a convocar, você vai ver que tudo vai mudar imediatamente. Esses universitários estão prontos para se manifestar, mas ninguém os cutucou.
As canções de rock ainda têm o poder de transformar mentalidades e efetivar mudanças sociais e políticas duradouras? O que acha?
A música é hoje tão poderosa quanto sempre foi. O negócio é que não sou tão poderoso quanto era quando estava com 22, 23 anos - quando as pessoas me ouviam pela primeira vez. Isso acabou, nunca mais vai acontecer. Não posso esperar a reação que obtive há 30, 40 anos. Mas isso não me incomoda, desde que saiba que canto a respeito das coisas em que acredito. Quando escrevi "Let's Impeach the President" [canção de Living with War], muita gente a viu como uma música vagabunda, dizendo que a melodia era horrorosa. O que vou fazer? Escrever uma música dessas e usar uma boa melodia? Isso não faz sentido. É necessária uma melodia que irrite as pessoas, que seja tão idiota e repetitiva que cause raiva.
Você escreveu "Ohio" da mesma maneira?
Não. "Ohio" tem a ver com jovens assassinados [quatro universitários foram mortos a tiros pela Guarda Nacional durante manifestações na Universidade Estadual de Kent, em 1970]. Fala de pessoas com quem você se importa em nível pessoal, seu irmão, sua irmã. É quando você coloca tudo que tem - no quesito poético, musical e de performance - à disposição porque acredita tanto naquilo. "Let's Impeach the President" é uma canção política a respeito de algo tão errado que a única maneira de destacar como é errado é por meio de uma música que seja errada, demolidora. Nesse aspecto, ela teve muito sucesso.
Em "Campaigner" (do álbum Decade, 1977), você cantou: "Even Richard Nixon has got soul" (até Richard Nixon tinha alma). O que quis dizer com isso?
Todo mundo é humano. A alma de Richard Nixon estava na maneira como ele ficava quando estava com a família, com um ar totalmente perdido. Ele foi um grande estadista - esteve na China - mas, mesmo assim, fodeu tanto com tudo em casa. Era muito parecido com Bill Clinton. Bill Clinton desfez todo o bem que realizou, na posição de um homem inteligente governando o país, com o desastre de sua vida pessoal. Abriu a porta para a direita religiosa e permitiu aos conservadores que descrevessem os democratas como infiéis. Isso se transferiu para as duas últimas eleições.
Você consegue se imaginar dizendo que George W. Bush tem alma?
Tenho certeza de que tem. Onde está? Está em Crawford, no Texas, com a família dele. Tem uma coisa sobre Bush: é preciso respeitá-lo por estar em condição física tão boa. Ele se esforça para ficar em forma e isso é um ótimo exemplo. A outra coisa é que ele tem mesmo muita convicção daquilo em que acredita. Ele e o pessoal dele acham que são as únicas pessoas que deveriam governar. Infelizmente, nós não concordamos com ele.
Como jovem criado no Canadá, qual era sua perspectiva em relação à política dos Estados Unidos no início na década de 1960?
De fora deste país, dava para ver muita hipocrisia. Direitos civis, por exemplo, nós não tínhamos esse tipo de problema no Canadá. Mas tínhamos um problema com os nossos norte-americanos nativos - os índios - bêbados que ficavam largados nas ruas. E era um problema que nós mesmos criamos.
Há muitas referências aos índios na sua música e nas imagens dos seus álbuns. Por que uma identificação tão forte com essa cultura?
Eu adorava a simplicidade e a naturalidade deles. Os índios são basicamente pagãos. E é nisso que acredito: na natureza. Esta é a minha igreja: quando vou à floresta, ou a um grande campo verde ou à água. Não preciso de nenhum pregador. Sempre me identifiquei com os ciclos da Lua. E era isso que os índios faziam: "Faz quantas luas que você esteve aqui?". Tem tudo a ver com a Lua. Se estou gravando, espero a Lua. Se tenho músicas, olho no calendário e digo: "Certo, bem aqui, aqui vai ser bom". Sempre tem algo lá, um tipo de energia, nos três ou quatro dias que antecedem a lua cheia. Assim que ela começa a minguar, você perde a concentração. Então, paro nessa época. Não preciso ficar me perguntando por que não sinto a vibe que sentia no dia anterior. Só digo "foda-se" e vou fazer outra coisa.
Você saiu do Canadá em 1966 e foi de carro até Los Angeles com Bruce Palmer (baixista do Buffalo Springfield). O que esperava encontrar lá?
Estúdios de gravação, outros músicos, interação. Não havia gente bastante no Canadá. Se você quer deixar sua marca em algum lugar e só tem uma oportunidade de deixar esta marca, que a deixe então no lugar em que o maior número de pessoas vai reparar. De que adianta ser fantástico e estar em Moose Jaw [Canadá]? Não vai ajudar em nada.
Por que escolheu Los Angeles? Estava sabendo das mudanças que ocorriam em San Francisco?
Chegamos a Los Angeles. E fomos embora, não tínhamos dinheiro. Tomamos o rumo de San Francisco porque não conseguimos dar início a nada em Los Angeles. Foi quando topamos com [Stephen] Stills e [Richie] Furay, em um sinal de trânsito, saindo da cidade [os quatro acabaram ficando em Los Angeles e fundaram o Buffalo Springfield com o baterista Dewey Martin].
Como foi estar no olho do furacão em 1966 e 67?
As pessoas olham para aquela época como um período de abalos sísmicos na cultura pop - como uma lua cheia que durou dois anos. Os jovens estavam unidos em sua oposição à guerra e também descobriam a música que os unia. Não tinha nada a ver com a geração de colegiais de Frank Sinatra. Hendrix, Janis Joplin, Jefferson Airplane - eles não eram ídolos pop. Faziam parte de um movimento e estávamos todos juntos naquilo. Não era um negócio musical. Não era a indústria do entretenimento. Não tínhamos [programas de TV como] Entertainment Tonight nem American Idol. Não tínhamos essas merdas, a música era convincente e as pessoas acreditavam nela. Foi por isso que os anos de 1966 e 67 foram uma época tão importante na minha vida. E são históricos para os jovens de hoje. Eles olham para trás e pensam: "Meu Deus, queria ter visto aquilo. Como eles conseguiram?". Bom, as pessoas não eram céticas. Woodstock não tinha acontecido. Quando as grandes corporações viram Woodstock, enxergaram muitos cifrões: "Podemos pegar essa música e vender carros Ford". Costumava demorar um ano ou dois, depois de um som fazer sucesso, até que aparecesse em comerciais. Hoje, os comerciais vêm primeiro.
Você saiu do Buffalo Springfield em 1967, depois voltou antes de a banda se desmembrar em 68. Por que era tão difícil para você ficar em uma banda que obviamente era tão maravilhosa?
A banda era maravilhosa, mas tóxica. Estávamos com 20 e poucos anos, tentando nos encontrar, e não gostava que me dissessem o que podia ou não fazer. Os outros também não. Stephen é meu irmão e brigávamos como irmãos - nós não nos agüentávamos, mas também não nos desgrudávamos. Às vezes, tocávamos tão bem que era assustador. E a cozinha rítmica do Buffalo Springfield ao vivo era uma das melhores experiências. Aqueles caras podiam ir a qualquer lugar. Mas a gente tem que fazer o que está a fim.
Você se arrepende de não ter tocado com o Springfield no Monterey Pop Festival?
Não. Eu não gostava de ser agrupado com um monte de outras bandas. Sinto muito por a banda não ter sido assim tão boa em Monterey - provavelmente porque não estava lá. Mas também não me arrependo de não ter feito o The Tonight Show com eles. Não queria que a nossa música fosse entretenimento, achava que era mais do que isso. As pessoas faziam qualquer coisa por divulgação - iam a programas de entrevista vespertinos com algum colunista de fofocas ridículo. Você tinha que ver os lugares em que os agentes nos enfiavam. Eu pensava: "Que se foda tudo isso". Essa exposição também era uma maneira de transmitir a sua mensagem - a adolescentes que nunca tinham ido a San Francisco, mas que podiam ver uma banda como a Airplane no The Ed Sullivan Show. É por isso que as pessoas faziam essas coisas. Era ótimo para elas. Tocavam na TV, e o público as assistia. Mas eu não conseguia comprar essa idéia.
Você disse certa vez que não era "patrocinado por ninguém". Fica desalentado de ver a música de seus contemporâneos, como Jimi Hendrix e The Who, agora aparecer com regularidade em anúncios de TV? É uma guerra que você perdeu?
Eu não perdi, só lutava por mim. Minha música até hoje tem a ver comigo e com meu público, independentemente do número de pessoas que tenha sobrado. No final, quando não estiver mais aqui e o meu público não estiver mais aqui, só vai sobrar a música. As pessoas poderão escutá-la e tirar dela o que bem entenderem.
Você recebe propostas para licenciar suas músicas para comerciais ou as agências de publicidade simplesmente o riscaram de sua lista de desejos?
Elas já desistiram. Tenho sorte na vida por ter me dado tão bem. Não sou um artista de hits. Todos os meus amigos, os compositores e intérpretes que conheço, já tiveram mais hits do que eu. Mas hits são perigosos. É preciso ter cuidado: se tiver vários seguidos, você se fode para sempre. Você fica preso àquela coisa eternamente. Continuo preso àquela coisa do início dos anos 70 com "Old Man" e "Heart of Gold". Mas consegui viver alguns outros momentos em que a minha música era relevante para uma nova geração. Isso é algo pelo que me sinto agradecido.
Você escreveu "Old Man" quando estava na casa dos 20 anos. Agora que está na casa dos 60, qual é a melhor coisa de estar mais velho?
As coisas já não me incomodam tanto. Agora, eu me afasto e digo: "Certo, vamos esperar uma semana para ver o que essa gente vai fazer..." Até lá, provavelmente já vou estar preocupado com outro assunto mesmo. Não vou gastar meu tempo enlouquecendo a respeito de coisas que não posso mudar, a respeito de coisas que outras pessoas dizem - desde que eu possa continuar dizendo o que penso, fazer minha música e tocar minha guitarra. É só isso que me importa. Sei que no fim vou sair por aí de novo fazendo rock'n'roll.
Os hippies deixaram um legado positivo?
Agora, são figuras engraçadas. No entanto, quando você canta o verso "trippin' down that ol' hippie highway" (viajando por aquela velha estrada hippie) em "Roger and Out" (de Living with War), é com verdadeiro orgulho, não ironia ou gozação.
Eu e a minha geração: a gente entende o que esse verso quer dizer. Os hippies exerceram alguma influência? Claro que sim - paz e amor. Nós éramos isso. Mas hoje é fácil fazer graça com qualquer coisa. A mídia parece um pátio de escola gigantesco. Um garoto manco entra ali e todo mundo começa a chutá-lo. Fazemos piada com pessoas que são diferentes. Você pode fazer a mesma coisa que faz com um hippie com um caipira. Se os anos 60 foram superestimados, então não sei o que poderia ser dito a respeito de algumas outras décadas e gerações. Fomos superestimados? Comparados a quê? "Geração X", que diabos isso quer dizer? Não é diferente o bastante para se tirar sarro? Cadê a marca? Não deixaram nenhuma. Deixaram um X. Não estou aqui para dizer que os anos 60 foram a única coisa boa que aconteceu. Ainda é possível que o mesmo tipo de coisa aconteça de novo. Não vai acontecer comigo. Vai acontecer com alguém que tem 20 anos de idade. Porque a vida é assim. Você precisa estar envolvido em alguma coisa com várias outras pessoas, identificando-se com algo que só você e elas compreendem. É isso que os jovens estão sempre tentando achar: algo que os separe de seus pais e do resto da cultura dominante.
Você vê algo da energia, da unidade e da esperança que transformou a década de 1960 nos jovens de hoje? Um dos personagens do seu álbum Greendale (2003) é Sun Green, uma ativista ambiental adolescente.
Ela luta para se assegurar de que não vai herdar o mundo do jeito que está indo. Mas é muito solitária porque ninguém enxerga o que ela vê. Nosso país é um dos últimos a perceber que o aquecimento global é causado pelas pessoas. Não vai sobrar muito para os nossos netos se prosseguirmos neste caminho. Quando a minha filha estiver com 50 anos e os filhos dela estiverem crescidos, a diferença entre o mundo agora e como ele era nos anos 60 vai parecer três dias na comparação com o que vem por aí. O que vai acontecer quando todas as casas próximas ao mar forem destruídas? Para onde essas pessoas vão? Vão se voltar contra os que continuam tendo casa. Vai ser um tumulto. Ninguém vai ajudar seus semelhantes. Paz e amor - isso não vai acontecer, não nesse ambiente. Muita gente precisa mudar.
Há coisas alentadoras que você diz a sua filha, que podem lhe dar esperança para o futuro?
Não tem nada específico que eu possa dizer, além de: "Faça aquilo em que você acredita e tente acreditar em tudo que faz". Funciona para mim até hoje.
Acho que eles reagiram muito bem. Estavam adormecidos, eram a maioria silenciosa e não sabiam. Mas acordaram e recuperamos um pouco do controle [no Congresso]. Não estou decepcionado com ninguém. Os universitários hoje reagem a uma situação que é real em suas vidas. Para eles, é mais importante conseguir emprego do que se preocupar com a guerra, porque a economia está tão dilacerada. Estão concentrados em garantir o futuro. Por quê? Porque ninguém está indo ao campus de faculdades para levá-los ao Iraque. Os Estados Unidos não sabem que estão em guerra. Não se pede a ninguém que faça sacrifícios, a não ser os soldados que se apresentaram como voluntários. O governo Bush prefere desperdiçar vidas de norte-americanos - ter soldados cansados e desgastados pela batalha cometendo erros e morrendo em combate - a perder a eleição por realizar uma convocação. Mas, assim que eles começarem a convocar, você vai ver que tudo vai mudar imediatamente. Esses universitários estão prontos para se manifestar, mas ninguém os cutucou.
As canções de rock ainda têm o poder de transformar mentalidades e efetivar mudanças sociais e políticas duradouras? O que acha?
A música é hoje tão poderosa quanto sempre foi. O negócio é que não sou tão poderoso quanto era quando estava com 22, 23 anos - quando as pessoas me ouviam pela primeira vez. Isso acabou, nunca mais vai acontecer. Não posso esperar a reação que obtive há 30, 40 anos. Mas isso não me incomoda, desde que saiba que canto a respeito das coisas em que acredito. Quando escrevi "Let's Impeach the President" [canção de Living with War], muita gente a viu como uma música vagabunda, dizendo que a melodia era horrorosa. O que vou fazer? Escrever uma música dessas e usar uma boa melodia? Isso não faz sentido. É necessária uma melodia que irrite as pessoas, que seja tão idiota e repetitiva que cause raiva.
Você escreveu "Ohio" da mesma maneira?
Não. "Ohio" tem a ver com jovens assassinados [quatro universitários foram mortos a tiros pela Guarda Nacional durante manifestações na Universidade Estadual de Kent, em 1970]. Fala de pessoas com quem você se importa em nível pessoal, seu irmão, sua irmã. É quando você coloca tudo que tem - no quesito poético, musical e de performance - à disposição porque acredita tanto naquilo. "Let's Impeach the President" é uma canção política a respeito de algo tão errado que a única maneira de destacar como é errado é por meio de uma música que seja errada, demolidora. Nesse aspecto, ela teve muito sucesso.
Em "Campaigner" (do álbum Decade, 1977), você cantou: "Even Richard Nixon has got soul" (até Richard Nixon tinha alma). O que quis dizer com isso?
Todo mundo é humano. A alma de Richard Nixon estava na maneira como ele ficava quando estava com a família, com um ar totalmente perdido. Ele foi um grande estadista - esteve na China - mas, mesmo assim, fodeu tanto com tudo em casa. Era muito parecido com Bill Clinton. Bill Clinton desfez todo o bem que realizou, na posição de um homem inteligente governando o país, com o desastre de sua vida pessoal. Abriu a porta para a direita religiosa e permitiu aos conservadores que descrevessem os democratas como infiéis. Isso se transferiu para as duas últimas eleições.
Você consegue se imaginar dizendo que George W. Bush tem alma?
Tenho certeza de que tem. Onde está? Está em Crawford, no Texas, com a família dele. Tem uma coisa sobre Bush: é preciso respeitá-lo por estar em condição física tão boa. Ele se esforça para ficar em forma e isso é um ótimo exemplo. A outra coisa é que ele tem mesmo muita convicção daquilo em que acredita. Ele e o pessoal dele acham que são as únicas pessoas que deveriam governar. Infelizmente, nós não concordamos com ele.
Como jovem criado no Canadá, qual era sua perspectiva em relação à política dos Estados Unidos no início na década de 1960?
De fora deste país, dava para ver muita hipocrisia. Direitos civis, por exemplo, nós não tínhamos esse tipo de problema no Canadá. Mas tínhamos um problema com os nossos norte-americanos nativos - os índios - bêbados que ficavam largados nas ruas. E era um problema que nós mesmos criamos.
Há muitas referências aos índios na sua música e nas imagens dos seus álbuns. Por que uma identificação tão forte com essa cultura?
Eu adorava a simplicidade e a naturalidade deles. Os índios são basicamente pagãos. E é nisso que acredito: na natureza. Esta é a minha igreja: quando vou à floresta, ou a um grande campo verde ou à água. Não preciso de nenhum pregador. Sempre me identifiquei com os ciclos da Lua. E era isso que os índios faziam: "Faz quantas luas que você esteve aqui?". Tem tudo a ver com a Lua. Se estou gravando, espero a Lua. Se tenho músicas, olho no calendário e digo: "Certo, bem aqui, aqui vai ser bom". Sempre tem algo lá, um tipo de energia, nos três ou quatro dias que antecedem a lua cheia. Assim que ela começa a minguar, você perde a concentração. Então, paro nessa época. Não preciso ficar me perguntando por que não sinto a vibe que sentia no dia anterior. Só digo "foda-se" e vou fazer outra coisa.
Você saiu do Canadá em 1966 e foi de carro até Los Angeles com Bruce Palmer (baixista do Buffalo Springfield). O que esperava encontrar lá?
Estúdios de gravação, outros músicos, interação. Não havia gente bastante no Canadá. Se você quer deixar sua marca em algum lugar e só tem uma oportunidade de deixar esta marca, que a deixe então no lugar em que o maior número de pessoas vai reparar. De que adianta ser fantástico e estar em Moose Jaw [Canadá]? Não vai ajudar em nada.
Por que escolheu Los Angeles? Estava sabendo das mudanças que ocorriam em San Francisco?
Chegamos a Los Angeles. E fomos embora, não tínhamos dinheiro. Tomamos o rumo de San Francisco porque não conseguimos dar início a nada em Los Angeles. Foi quando topamos com [Stephen] Stills e [Richie] Furay, em um sinal de trânsito, saindo da cidade [os quatro acabaram ficando em Los Angeles e fundaram o Buffalo Springfield com o baterista Dewey Martin].
Como foi estar no olho do furacão em 1966 e 67?
As pessoas olham para aquela época como um período de abalos sísmicos na cultura pop - como uma lua cheia que durou dois anos. Os jovens estavam unidos em sua oposição à guerra e também descobriam a música que os unia. Não tinha nada a ver com a geração de colegiais de Frank Sinatra. Hendrix, Janis Joplin, Jefferson Airplane - eles não eram ídolos pop. Faziam parte de um movimento e estávamos todos juntos naquilo. Não era um negócio musical. Não era a indústria do entretenimento. Não tínhamos [programas de TV como] Entertainment Tonight nem American Idol. Não tínhamos essas merdas, a música era convincente e as pessoas acreditavam nela. Foi por isso que os anos de 1966 e 67 foram uma época tão importante na minha vida. E são históricos para os jovens de hoje. Eles olham para trás e pensam: "Meu Deus, queria ter visto aquilo. Como eles conseguiram?". Bom, as pessoas não eram céticas. Woodstock não tinha acontecido. Quando as grandes corporações viram Woodstock, enxergaram muitos cifrões: "Podemos pegar essa música e vender carros Ford". Costumava demorar um ano ou dois, depois de um som fazer sucesso, até que aparecesse em comerciais. Hoje, os comerciais vêm primeiro.
Você saiu do Buffalo Springfield em 1967, depois voltou antes de a banda se desmembrar em 68. Por que era tão difícil para você ficar em uma banda que obviamente era tão maravilhosa?
A banda era maravilhosa, mas tóxica. Estávamos com 20 e poucos anos, tentando nos encontrar, e não gostava que me dissessem o que podia ou não fazer. Os outros também não. Stephen é meu irmão e brigávamos como irmãos - nós não nos agüentávamos, mas também não nos desgrudávamos. Às vezes, tocávamos tão bem que era assustador. E a cozinha rítmica do Buffalo Springfield ao vivo era uma das melhores experiências. Aqueles caras podiam ir a qualquer lugar. Mas a gente tem que fazer o que está a fim.
Você se arrepende de não ter tocado com o Springfield no Monterey Pop Festival?
Não. Eu não gostava de ser agrupado com um monte de outras bandas. Sinto muito por a banda não ter sido assim tão boa em Monterey - provavelmente porque não estava lá. Mas também não me arrependo de não ter feito o The Tonight Show com eles. Não queria que a nossa música fosse entretenimento, achava que era mais do que isso. As pessoas faziam qualquer coisa por divulgação - iam a programas de entrevista vespertinos com algum colunista de fofocas ridículo. Você tinha que ver os lugares em que os agentes nos enfiavam. Eu pensava: "Que se foda tudo isso". Essa exposição também era uma maneira de transmitir a sua mensagem - a adolescentes que nunca tinham ido a San Francisco, mas que podiam ver uma banda como a Airplane no The Ed Sullivan Show. É por isso que as pessoas faziam essas coisas. Era ótimo para elas. Tocavam na TV, e o público as assistia. Mas eu não conseguia comprar essa idéia.
Você disse certa vez que não era "patrocinado por ninguém". Fica desalentado de ver a música de seus contemporâneos, como Jimi Hendrix e The Who, agora aparecer com regularidade em anúncios de TV? É uma guerra que você perdeu?
Eu não perdi, só lutava por mim. Minha música até hoje tem a ver comigo e com meu público, independentemente do número de pessoas que tenha sobrado. No final, quando não estiver mais aqui e o meu público não estiver mais aqui, só vai sobrar a música. As pessoas poderão escutá-la e tirar dela o que bem entenderem.
Você recebe propostas para licenciar suas músicas para comerciais ou as agências de publicidade simplesmente o riscaram de sua lista de desejos?
Elas já desistiram. Tenho sorte na vida por ter me dado tão bem. Não sou um artista de hits. Todos os meus amigos, os compositores e intérpretes que conheço, já tiveram mais hits do que eu. Mas hits são perigosos. É preciso ter cuidado: se tiver vários seguidos, você se fode para sempre. Você fica preso àquela coisa eternamente. Continuo preso àquela coisa do início dos anos 70 com "Old Man" e "Heart of Gold". Mas consegui viver alguns outros momentos em que a minha música era relevante para uma nova geração. Isso é algo pelo que me sinto agradecido.
Você escreveu "Old Man" quando estava na casa dos 20 anos. Agora que está na casa dos 60, qual é a melhor coisa de estar mais velho?
As coisas já não me incomodam tanto. Agora, eu me afasto e digo: "Certo, vamos esperar uma semana para ver o que essa gente vai fazer..." Até lá, provavelmente já vou estar preocupado com outro assunto mesmo. Não vou gastar meu tempo enlouquecendo a respeito de coisas que não posso mudar, a respeito de coisas que outras pessoas dizem - desde que eu possa continuar dizendo o que penso, fazer minha música e tocar minha guitarra. É só isso que me importa. Sei que no fim vou sair por aí de novo fazendo rock'n'roll.
Os hippies deixaram um legado positivo?
Agora, são figuras engraçadas. No entanto, quando você canta o verso "trippin' down that ol' hippie highway" (viajando por aquela velha estrada hippie) em "Roger and Out" (de Living with War), é com verdadeiro orgulho, não ironia ou gozação.
Eu e a minha geração: a gente entende o que esse verso quer dizer. Os hippies exerceram alguma influência? Claro que sim - paz e amor. Nós éramos isso. Mas hoje é fácil fazer graça com qualquer coisa. A mídia parece um pátio de escola gigantesco. Um garoto manco entra ali e todo mundo começa a chutá-lo. Fazemos piada com pessoas que são diferentes. Você pode fazer a mesma coisa que faz com um hippie com um caipira. Se os anos 60 foram superestimados, então não sei o que poderia ser dito a respeito de algumas outras décadas e gerações. Fomos superestimados? Comparados a quê? "Geração X", que diabos isso quer dizer? Não é diferente o bastante para se tirar sarro? Cadê a marca? Não deixaram nenhuma. Deixaram um X. Não estou aqui para dizer que os anos 60 foram a única coisa boa que aconteceu. Ainda é possível que o mesmo tipo de coisa aconteça de novo. Não vai acontecer comigo. Vai acontecer com alguém que tem 20 anos de idade. Porque a vida é assim. Você precisa estar envolvido em alguma coisa com várias outras pessoas, identificando-se com algo que só você e elas compreendem. É isso que os jovens estão sempre tentando achar: algo que os separe de seus pais e do resto da cultura dominante.
Você vê algo da energia, da unidade e da esperança que transformou a década de 1960 nos jovens de hoje? Um dos personagens do seu álbum Greendale (2003) é Sun Green, uma ativista ambiental adolescente.
Ela luta para se assegurar de que não vai herdar o mundo do jeito que está indo. Mas é muito solitária porque ninguém enxerga o que ela vê. Nosso país é um dos últimos a perceber que o aquecimento global é causado pelas pessoas. Não vai sobrar muito para os nossos netos se prosseguirmos neste caminho. Quando a minha filha estiver com 50 anos e os filhos dela estiverem crescidos, a diferença entre o mundo agora e como ele era nos anos 60 vai parecer três dias na comparação com o que vem por aí. O que vai acontecer quando todas as casas próximas ao mar forem destruídas? Para onde essas pessoas vão? Vão se voltar contra os que continuam tendo casa. Vai ser um tumulto. Ninguém vai ajudar seus semelhantes. Paz e amor - isso não vai acontecer, não nesse ambiente. Muita gente precisa mudar.
Há coisas alentadoras que você diz a sua filha, que podem lhe dar esperança para o futuro?
Não tem nada específico que eu possa dizer, além de: "Faça aquilo em que você acredita e tente acreditar em tudo que faz". Funciona para mim até hoje.
Entrevista com Cindy Lauper.
Você sempre foi fã de blues?
Sou fã desde criança. A primeira vez que ouvi um disco de blues foi quando li uma matéria dizendo que uma banda que eu adorava era muito influenciada pelo estilo. Eu saí e comprei discos de Muddy Waters and Ma Rainey e Big Mama Thornton e acabei fisgada.
O disco tem alguns convidados fabulosos. Você mesma entrou em contato com eles?
Alguns sim, outros foram a minha empresária Lisa Barbaris que fez o contato, mas antes de tudo precisei escolher quem eu queria no disco. Depois foi só dar os telefonemas.
E como foi dividir o estúdio com monstros como BB King ou a Ann Peebles?
A Ann veio até o estúdio e nós inclusive dividimos o memso microfone. Cantar com ela foi fantástico. Nós tínhamos essa cabine de gravação minúscula onde nos esprememos. Nós ficamos olho a olho e cantamos tudo que podíamos. Ela é uma cantora magnífica e uma pessoa maravilhosa.
Quanto ao BB King, Lisa, a minha empresária é bastante amiga da empresária dele e fez o contato perguntando se o BB estaria interessado em participar. Ele não teria como ir para Memphis, então nós enviamos a faixa para Las Vegas onde ele mora para que gravasse de lá. Meu co-produdor, Scott Bomar, viajou para acompanhar tudo. Quando ele me tocou os resultados eu comecei a rir e depois a chorar, por achar aquilo tudo inacreditável.
Como as canções foram escolhidas? Todas eram velhas favoritas?
Eu escolhi músicas que contassem histórias, que fossem edificantes. Eu passei por maus bocados tentando selecionar apenas 11 faixas pois existem inúmeros blues sensacionais.
E os shows? Eles serão baseados nesse disco?
Eu queria que essa turnê fosse baseada nesse álbum. Nos últimos dez anos eu basicamente fiz shows de grandes sucessos colocando algumas músicas do disco que estava divulgando no momento. Então dessa vez o show vai ser realmente em cima do "Memphis Blues". Mas é claro que eu irei cantar vários dos meus hits também. A banda que está me acompanhando nessa tour é composta por alguns dos maiores músicos de blues de todos os tempos. Esse pessoal tocou com todo mundo do (produtor) Willie Mitchell ao BB King, do Booker T. & the M.G.'s ao Isaac Hayes e a lista vai embora. Eu queria que a turnê fosse tão focada e "blueseira" quanto possível e isso envolvia ter a banda certa na estrada comigo. Então nós tivemos que criar alguns arranjos para os hits pois sei que as pessoas que vêm aos meus shows querem ouvi-los também. Nós tocamos músicas do "Memphis Blues" e depois fazemos os sucessos. A recepção está sendo muito boa. Minha empresária disse que estou fazendo alguns dos melhores shows da minha carreira (eu nunca leio as resenhas) e todas as apresentações estão esgotando. Então imagino que as pessoas estejam curtindo. Eu espero que o (saxofonista brasileiro)Leo Gandelman apareça em alguns dos shows também (Gandelman toca em I Don't Want To Cry uma faixa do disco exclusiva para a América Latina).
Quais as suas lembranças de quando tocou aqui pela primeira vez em 1989?
Eu me senti tão bem recebida e fiquei maravilhada em ver como as pessoas eram lindas. Para todo lugar que olha você vê pessoas maravilhosas. Todas muito boas e generosas além de terem uma comida e música fabulosas. Eu me senti muito bem-vinda quando fui pela primeira vez para aí e me senti da mesma forma em todas vezes que voltei.
Voltando bastante no tempo, é verdade que antes de estourar com "She's So Unusual" você estava cantando em um restaurante?
Eu tive uma série de empregos bizarros antes do "She's So Unusual" sair. Trabalhei em uma fábrica, no joquei club exercitando e levando os cavalos para passear. Também perfurei orelhas e cantei em um piano bar japonês.
Quando o "She's So Unusual" estava sendo gravado havia um sentimento de que ele iria fazer todo aquele sucesso?
Eu me diverti muito gravando o disco. Nós todos sentíamos fortemente que algo especial estava sendo feito, mas não pensávamos em quantos hits iríamos ter. Tudo só parecia bem e estávamos muito animados.
E como foi para você quando "Girls Just Wanna Have Fun" começou a tocar sem parar?
Para ser sincera eu me senti vingada. Eu ouvi tantas vezes e de tantas pessoas que eu jamais iria conseguir vencer, que não era boa o bastante, que era muito estranha... então quando eu tive aquele primeiro hit foi tipo "SIM!".
E depois mais e mais faixas do disco foram estourando. Deve ter sido louco.
...foi louco e maravilhoso.
Você ficou nervosa quando veio a hora de lançar o sucessor de tamanho sucesso?
Sim, porque a gravadora bota muita pressão em cima já que você rendeu muito dinheiro para eles. O primeiro disco você grava quase sem nenhuma interferência. Aí chega no segundo e todo mundo chega pra dar pitaco. Então esse processo deixou as gravações meio estressantes, mas eu não estava estressada porque tinha muita coisa que gostaria falar.
Como você enxerga o (segundo disco) "True Colors" hoje em dia?
Eu tenho muito orgulho dele.
Dos anos 90 em diante você lançou menos discos e pareceu não querer mais ficar cercada por toda a loucura dos megafamosos. Você realmente se cansou de tudo aquilo ou foi o público e o mercado que mudaram?
Eu não fiz discos para não serem comerciais. É claro que eu gostaria que todos tivessem vendido milhões de cópias, mas não foi por isso que os gravei. Eu sempre tentei me manter fiel a mim mesmo enquanto artista esperando que meus fãs fossem gostar do resultado.
Para encerrar o que os brasileiros podem esperar da sua turnê pelo país?
Muita diversão, ótima música e uma grande celebração.
Sou fã desde criança. A primeira vez que ouvi um disco de blues foi quando li uma matéria dizendo que uma banda que eu adorava era muito influenciada pelo estilo. Eu saí e comprei discos de Muddy Waters and Ma Rainey e Big Mama Thornton e acabei fisgada.
O disco tem alguns convidados fabulosos. Você mesma entrou em contato com eles?
Alguns sim, outros foram a minha empresária Lisa Barbaris que fez o contato, mas antes de tudo precisei escolher quem eu queria no disco. Depois foi só dar os telefonemas.
E como foi dividir o estúdio com monstros como BB King ou a Ann Peebles?
A Ann veio até o estúdio e nós inclusive dividimos o memso microfone. Cantar com ela foi fantástico. Nós tínhamos essa cabine de gravação minúscula onde nos esprememos. Nós ficamos olho a olho e cantamos tudo que podíamos. Ela é uma cantora magnífica e uma pessoa maravilhosa.
Quanto ao BB King, Lisa, a minha empresária é bastante amiga da empresária dele e fez o contato perguntando se o BB estaria interessado em participar. Ele não teria como ir para Memphis, então nós enviamos a faixa para Las Vegas onde ele mora para que gravasse de lá. Meu co-produdor, Scott Bomar, viajou para acompanhar tudo. Quando ele me tocou os resultados eu comecei a rir e depois a chorar, por achar aquilo tudo inacreditável.
Como as canções foram escolhidas? Todas eram velhas favoritas?
Eu escolhi músicas que contassem histórias, que fossem edificantes. Eu passei por maus bocados tentando selecionar apenas 11 faixas pois existem inúmeros blues sensacionais.
E os shows? Eles serão baseados nesse disco?
Eu queria que essa turnê fosse baseada nesse álbum. Nos últimos dez anos eu basicamente fiz shows de grandes sucessos colocando algumas músicas do disco que estava divulgando no momento. Então dessa vez o show vai ser realmente em cima do "Memphis Blues". Mas é claro que eu irei cantar vários dos meus hits também. A banda que está me acompanhando nessa tour é composta por alguns dos maiores músicos de blues de todos os tempos. Esse pessoal tocou com todo mundo do (produtor) Willie Mitchell ao BB King, do Booker T. & the M.G.'s ao Isaac Hayes e a lista vai embora. Eu queria que a turnê fosse tão focada e "blueseira" quanto possível e isso envolvia ter a banda certa na estrada comigo. Então nós tivemos que criar alguns arranjos para os hits pois sei que as pessoas que vêm aos meus shows querem ouvi-los também. Nós tocamos músicas do "Memphis Blues" e depois fazemos os sucessos. A recepção está sendo muito boa. Minha empresária disse que estou fazendo alguns dos melhores shows da minha carreira (eu nunca leio as resenhas) e todas as apresentações estão esgotando. Então imagino que as pessoas estejam curtindo. Eu espero que o (saxofonista brasileiro)Leo Gandelman apareça em alguns dos shows também (Gandelman toca em I Don't Want To Cry uma faixa do disco exclusiva para a América Latina).
Quais as suas lembranças de quando tocou aqui pela primeira vez em 1989?
Eu me senti tão bem recebida e fiquei maravilhada em ver como as pessoas eram lindas. Para todo lugar que olha você vê pessoas maravilhosas. Todas muito boas e generosas além de terem uma comida e música fabulosas. Eu me senti muito bem-vinda quando fui pela primeira vez para aí e me senti da mesma forma em todas vezes que voltei.
Voltando bastante no tempo, é verdade que antes de estourar com "She's So Unusual" você estava cantando em um restaurante?
Eu tive uma série de empregos bizarros antes do "She's So Unusual" sair. Trabalhei em uma fábrica, no joquei club exercitando e levando os cavalos para passear. Também perfurei orelhas e cantei em um piano bar japonês.
Quando o "She's So Unusual" estava sendo gravado havia um sentimento de que ele iria fazer todo aquele sucesso?
Eu me diverti muito gravando o disco. Nós todos sentíamos fortemente que algo especial estava sendo feito, mas não pensávamos em quantos hits iríamos ter. Tudo só parecia bem e estávamos muito animados.
E como foi para você quando "Girls Just Wanna Have Fun" começou a tocar sem parar?
Para ser sincera eu me senti vingada. Eu ouvi tantas vezes e de tantas pessoas que eu jamais iria conseguir vencer, que não era boa o bastante, que era muito estranha... então quando eu tive aquele primeiro hit foi tipo "SIM!".
E depois mais e mais faixas do disco foram estourando. Deve ter sido louco.
...foi louco e maravilhoso.
Você ficou nervosa quando veio a hora de lançar o sucessor de tamanho sucesso?
Sim, porque a gravadora bota muita pressão em cima já que você rendeu muito dinheiro para eles. O primeiro disco você grava quase sem nenhuma interferência. Aí chega no segundo e todo mundo chega pra dar pitaco. Então esse processo deixou as gravações meio estressantes, mas eu não estava estressada porque tinha muita coisa que gostaria falar.
Como você enxerga o (segundo disco) "True Colors" hoje em dia?
Eu tenho muito orgulho dele.
Dos anos 90 em diante você lançou menos discos e pareceu não querer mais ficar cercada por toda a loucura dos megafamosos. Você realmente se cansou de tudo aquilo ou foi o público e o mercado que mudaram?
Eu não fiz discos para não serem comerciais. É claro que eu gostaria que todos tivessem vendido milhões de cópias, mas não foi por isso que os gravei. Eu sempre tentei me manter fiel a mim mesmo enquanto artista esperando que meus fãs fossem gostar do resultado.
Para encerrar o que os brasileiros podem esperar da sua turnê pelo país?
Muita diversão, ótima música e uma grande celebração.
Entrevista com Madonna.
Realizada recentemente a revista Rolling Stone.
Austin:
Você cresceu em Pontiac, subúrbio de Detroit, de onde você recebeu várias influências musicais de festas e churrascos que você frequentava na sua vizinhança afro-americana. Do que se lembra?
Madonna:
A Motown estava por toda parte. Stevie Wonder, Diana Ross, os Jackson 5, foi com isso que eu cresci. Mas quando entrei para o colegial nos mudamos para outro bairro que era de classe média e branca. Não tinha mais festas, nem música alta do vizinho. Eu me sentia uma estranha. Foi aí que eu criei meu próprio mundo. Eu decidi então me tornar uma dançarina profissional. Me tornei mais introvertida e fugia de casa para ir a concertos. Descobri o poder da música a partir daquele ponto, não que eu pudesse articular a ninguém.
Austin:
Quais foram os primeiros concertos que você viu?
Madonna:
Meu primeiro foi o do David Bowie no Cobo Hall [em Detroit] quando eu tinha 15 anos. Ele tinha mímicos, foi incrível. Eu queria tê-lo visto como Ziggy Stardust. Meu segundo show foi Elton John e meu terceiro foi Bob Marley. Nada mal, não é?
Austin:
Nada mal mesmo. Você bebia nos shows?
Madonna:
No colegial? Nunca! Eu era uma ‘nerd’. Eu nunca bebi até o meu primeiro divórcio, [do ator Sean Penn] quando eu tinha 30 anos.
Austin:
É interessante ouvir você falar de Bowie como uma influência.
Madonna:
É que todos pensam que eu cresci sob influência da ‘disco music’. Meu irmão mais velho ficava no porão ouvindo The Who, Rolling Stones, Bob Dylan , “Whole Lotta Love” do Zeppelin , “Baba O’Riley” do The Who.
Austin:
Você performou “Baba O’Riley” em um show de talentos na sétima serie.
Madonna:
Minhas amigas pintaram meu corpo com flores e corações fluorescentes. Eu usei um short e um top, fiquei louca. Havia um holofote estroboscópico e luzes mais escuras, tenho certeza de que todos pensaram que eu era louca. Foi minha primeira vez no palco. Talvez o começo das minhas performances provocadoras, eu acho. Depois disso nenhuma garota queria falar comigo, e os garotos me olhavam de modo estranho.
Austin:
Você ainda se considera uma ‘nerd’?
Madonna:
Eu ainda uso expressões como “oopsie-daisy” [expressão antiga equivalente a "que droga", mas menos ofensiva e usada por pessoas que se sentem constrangidas em usar "palavrões"]. Enquanto crescia nunca me sentia uma pessoa legal, nunca fiz parte de uma turma. Mas ‘nerd’ não é uma palavra que as pessoas usem para me descrever. Exceto, talvez, o Stuart Price que me disse um dia, “No fundo você é uma ‘nerd’, mas ninguém sabe disso”. Eu entendi isso como um elogio. Eu sou bobinha e não sou legal.
Stuart Price deu um dos álbuns mais fáceis para a Madonna: 'Confessions On A DanceFloor' (2005). Na visão dela, fazer esse álbum foi o mais tranquilo da sua carreira. Stuart Price deu um dos álbuns mais fáceis para a Madonna: ‘Confessions On A DanceFloor’ [2005]. Na visão dela, fazer esse álbum foi o mais tranquilo da sua carreira.
Austin:
Você se mudou para Nova York depois de deixar a Universidade de Michigan para se tornar uma dançarina. Como ocorreu essa transição da dança para o canto?
Madonna:
Foi uma questão de circunstâncias. Como eu era dançarina, comecei a ir para audições de teatro, onde era forçada a cantar. A maioria das pessoas era bem mais profissional do que eu. Eu pegava as letras e então alguém tocava piano, e eu cantava as músicas que conhecia. Como por exemplo, Aretha Franklin ou qualquer outra coisa vergonhosa.
Austin:
Em 1979 você morava no Queens com Dan e Ed Gilroy, que tinham uma banda chamada ‘The Breakfest Club’. Você acabou se juntando a eles e escreveu sua primeira música.
Madonna:
Ela se chama ‘Tell the truth’. Tinha uns quatro acordes, e também outros versos e um refrão. Foi uma experiência religiosa. Decidi que, se eu queria mesmo me tornar uma cantora, precisava saber como, precisava aprender a tocar algum instrumento. Nós morávamos em uma sinagoga abandonada e, quando eu voltava das aulas de música, servia de modelo para Dan, que era pintor. Eu era a musa dele. Ele me ensinou como tocar acordes. Quando eles não estavam em casa eu tocava bateria. Aprendi ouvindo Elvis Costello. Então um dia escrevi uma música e fiquei tipo, ‘quem escreveu isso?’. Quando o baterista deles deixou a banda eu assumi seu posto. Certa noite, no clube CBGB, eu implorei para eles me deixarem cantar e tocar guitarra. A posição do microfone parecia cada vez mais atraente.
Austin:
Em 1982 você fechou com a Sire Records. Entre as demos existia ‘Everybody’ que se tornou seu primeiro single. Quando foi a primeira vez que você ‘se ouviu’ no rádio?
Madonna:
Eu morava no Upper West Side, na 99 com a Riverside. Eram umas 7 da noite e eu tinha um rádio no meu quarto ligado na estação KTU. Escutei ‘Everybody’ e disse ‘Oh meu Deus, sou eu saindo da caixa!’. Foi uma sensação incrível!
Austin:
Você ligou para o seu pai?
Madonna:
Não liguei para ele. Meu pai não teria ficado muito impressionado.
Austin:
Como você celebrou?
Madonna:
Naquele tempo eu andava com muitos grafiteiros: o Futura 2000, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Jean-Michel, que me apresentou a Andy Warhol. Eu lembro que estávamos em um restaurante japonês na 2nd Avenue com a 7th Street, onde o Keith tinha vários desenhos na parede. Jean-Michel falava de como ele tinha inveja de eu estar tocando na rádio. Ele achava que eu tinha uma forma mais acessível de arte e Andy mandou ele parar de reclamar.
Austin:
Haring morreu em 1990, de AIDS, e Basquiat morreu de overdose em 1988. Eles foram artistas incríveis para a geração. Como você os conheceu?
Madonna:
Eu fui apresentada a Keith por um colega de quarto, mas eu já conhecia o trabalho dele nas ruas, metrôs e prédios. Então nós começamos a sair para o Danceteria, Mudd Clubb e Roxy. O pessoal do Rocksteady [estilo musical parecido com reggae e ska] estava lá. Nós dançávamos, assistíamos break-dance nos clubes e nas ruas.
O figurino Old School da última turnê realizada, Sticky & Sweet, tem inspiração na grafitagem de Keith Haring O figurino ‘Old School’ da última turnê realizada, Sticky & Sweet, tem inspiração na grafitagem de Keith Haring
Austin:
Você fazia ‘grafite’?
Madonna:
Nas paredes, metrôs e calçadas.
Austin:
Qual era sua assinatura?
Madonna:
Boy Toy.
Austin:
Sério! Quem teve essa idéia?
Madonna:
Acho que foi o Futura. Ele é inteligente. Foi ele quem pintou meu quarto na 99, mas o dono não gostou. Nós tínhamos uma pequena gangue – Debi Mazar fazia parte dela. Nos chamávamos de as ‘Webo Girls’ – como ‘Huevos’, garotas com bolas.
Austin:
Você tem alguma pintura de Warhol, Haring ou Basquiat?
Madonna:
Eu tenho de todos. Keith e Warhol fizeram quatro para mim na época que me casei com Sean. São fotos da capa do The New York Post quando minhas fotos nuas apareceram na Playboy e na Penthouse. A manchete era ‘Eu não tenho vergonha‘. Então eles pegaram todas essas capas e pintaram por cima. Elas estão na minha casa em Los Angeles. Também tenho uma jaqueta de couro que Keith Harring pintou, nunca vou dá-las a ninguém.
Austin:
Desde o começo da sua carreira a transformação da sua imagem foi constante. Entre seus álbuns 1983, ‘Madonna’, e 1984, ‘Like A Virgin’, você passou por uma mega reinvenção, de uma morena punk para a loira no vestido de noiva. De onde veio tudo isso?
Madonna:
Eu não sei. Acho que comecei a escrever músicas mais sensuais e inconscientemente me transformei naquilo. Vem também do fato de que eu estava fazendo mais sessões de fotos, sempre vestida e estilizada. Antes disso eu fazia tudo sozinha, não tinha maquiador, eu pegava minhas meias-calças e as amarrava na minha cabeça, usava alguns rosários. Depois disso o Steven Meisel e o pessoal da moda começaram a me pôr em espartilhos. Eu acho que as pessoas dão muita atenção para a re-invenção e eu sou muito menos calculista do que pareço. Eu evoluo de acordo com o que estou interessada, com os livros que leio ou as roupas que vejo. Me chame de Zelig, daquele filme do Woody Allen em que o personagem muda de personalidade a cada pessoa diferente com quem fala. Acho tão chato ser sempre a mesma, uma garota precisa mudar seu visual.
Austin:
Quando você foi apresentada no Rock & Roll Hall of Fame tinha um vídeo da sua carreira e, quando você subiu no palco, fez uma piada sobre ‘todos os meus penteados horríveis’. Qual era sua você olha e mais odeia?
Madonna:
Acho que a fase do batom roxo e suéter verde fluorescente, e muitos desses penteados. Mas tudo bem, estamos falando dos anos 80, a era do penteado ruim.
Austin:
Por outro lado, existe algum momento que você olha para trás e diz ‘Nossa, eu era muito gostosa!’?
Madonna:
Você acha que eu vou te dizer? E ser aniquilada pelos próximos 10 anos? Não vou responder essa…
Austin:
Tem aquela famosa história de quando você performou no Radio City Music Hall em 1985 e a platéia estava tomada de clones seus. A ‘Virgin Tour’ começou em Seattle e percorreu todo o país. Foi Madonna-mania desde o começo?
Madonna:
A turnê foi muito louca porque eu saí do CBGB e do Mudd Club para tocar em grandes arenas. Eu toquei em um pequeno teatro em Seattle e as garotas estavam de saia, calças rasgadas, luvas de renda, rosários, laços no cabelo e brincos de argola. Eu pensava ‘Isso é loucura!’. Depois de Seattle todos os shows foram transferidos para arenas. Eu nunca fiz uma turnê de ônibus, todos dizem que é muito legal!
Austin:
Você não escreveu nem ‘Material Girl’ nem ‘Like A Virgin’. Qual foi sua primeira impressão após ouvir as demos?
Madonna:
Eu gostei delas porque eram ao mesmo tempo irônicas e provocativas, mas diferentes de mim. Eu não sou materialista e certamente não era virgem, e de qualquer forma, como alguém pode ser “como” uma virgem? Gosto de brincar com as palavras, eu as achava espertas. Tão bobas, tão legais.
Austin:
Não é materialista?
Madonna:
Eu me sinto sortuda de poder comprar um quadro da Fridah Kahlo e morar em uma boa casa, mas eu sei que consigo viver sem isso. Sou engenhosa, e se eu parar em uma casa no meio da floresta, eu terei que trabalhar. Essas coisas não são obrigatórias para minha felicidade. É isso que eu quero dizer quando ‘não sou uma pessoa materialista’.
Austin:
Você achava que essas duas músicas se tornariam grandes ‘hits’?
Madonna:
Não. Elas combinaram comigo. Eu nunca fui boa para julgar se as coisas se tornariam grandes ou não. As músicas mais retardadas que eu já escrevi como ‘Cherish’ ou ‘Sorry’, se tornaram grandes sucessos. ‘Into The Groove’ é outra música que eu me sinto retardada ao cantar, mas todo mundo parece gostar dela.
Austin:
Isso é porque ‘Into The Groove’ tem um baixo incrível!
Madonna:
É! Graças ao Stephen Bray. Sempre começava com um baixo e uma batida. Você construía a partir do zero, como em ‘Holiday’, ‘Hung Up’, ‘Music’. Eu penso que tem a ver com o fato de eu ser dançarina, porque é o baixo quem comanda quando você é dançarina. Você sente isso no seu centro de gravidade.
Austin:
Como você reage às criticas? Quando as fotos nuas apareceram na Playboy e na Penthouse você estava totalmente inatingível.
Madonna:
Foi a primeira vez que eu tive a atitude ‘foda-se’. Vocês querem me fazer sentir péssima por causo disso? Nunca vou deixar a opinião pública mudar o que eu penso sobre mim. Não vou me desculpar por algo que eu já tenha feito.
Austin:
Seu ex-empresário, Freddy DeMann, pensou que sua carreira ia acabar depois de sua performance de ‘Like A Virgin’ no VMA em 1984. Você ficou preocupada?
Madonna:
Ele estava branco feito um fantasma. Estava desapontado comigo, porque eu tinha rolado no chão, meu vestido tinha subido e todos podiam ver minha calcinha. No que eu estava pensando? ‘Meu sapato saiu do pé, não sei como colocá-lo de volta, vou descer até o chão para fazer isso’. Foi medonho e divertido, eu não sabia que iria significar tanto no meu futuro, milhões de coisas passavam pela minha cabeça.
Austin:
Não eram só suas performances que eram provocativas. Você não escreveu ‘Papa Don’t Preach’, mas é impossível imaginar outra pessoa cantando. O que aquela música significa pra você?
Madonna:
Ela era perfeita em conjunto com o meu gênio de estar contra as autoridades masculinas, mesmo sendo o Papa, a Igreja Católica ou meu pai e seus pensamentos conservadores e patriarcais.
Austin:
Qual foi a repercussão?
Madonna:
Fora muitas. Todos ficaram confusos. Mas para ‘Papa Don’t Preach’ existem muitas opiniões, por isso que achei tão legal. Perguntavam, ‘Ela é contra ou a favor do aborto?
Austin:
Há alguma idéia que você não levou adiante por ser muito chocante?
Madonna:
Eu fiz um ensaio fotográfico com Steven Klein para a capa do meu último álbum [Hard Candy]. Fiz um ensaio fotográfico com Steven Klein para a capa do meu último álbum, ‘Hard Candy’. Eu pintei a minha cara com tinta escura, exceto a minha boca que deixei com os lábios vermelhos e os olhos bem brancos. Era um jogo de palavras. Você já ouviu falar sobre a ‘Black Madonna’? Eu achava que poderia ter milhares de significados, seria um conceito legal para meu álbum. Mas então eu pensei ‘só 25% das pessoas vão entender, ou ainda menos, penso que não vale a pena’. Isso acontece todo o tempo, por isso que tenho pessoas como Guy Oseary que cuidam de mim e dizem ‘não, você não vai fazer isso‘.
Austin:
Muitos fãs consideram ‘Live To Tell’, do seu álbum de 1986 ‘True Blue’, a música que melhor a descreve. Você se lembra de algo da época em que a escreveu?
Madonna:
Algumas vezes quando eu escrevo uma música, eu só canalizo. E posso dizer que ‘Live To Tell’ é sobre minha infância, o relacionamento com meus pais e minha madrasta. Mas talvez não. Pode ser também algo sobre uma novela ou ramance de F. Scoot Fritzgeral que escutei uma vez, não precisa ser necessariamente autobiográfica. Eu posso dizer o mesmo sobre ‘La Isla Bonita’, não sei de onde veio.
Austin:
Quer dizer que você nunca sonhou com San Pedro?
Madonna:
Eu nem sei onde San Pedro fica. Naquele tempo eu não viajava para ilhas maravilhosas, talvez eu estivesse indo para o estúdio e vi alguma coisa sobre San Pedro.
Austin:
Como você escreveu ‘Vogue’?
Madonna:
Eu escrevi enquanto fazia o filme ‘Dick Tracy’. Depois que nós gravamos o filme, Warren Beatty me pediu para escrever algo que se relacionasse com o ponto de vista da minha personagem, algo que ela poderia ter feito. Ela era obcecada com lugares secretos e ilegais e é assim que o filme começa. A idéia da letra veio daquilo. Coincidentemente eu estava indo ao Sound Factory onde tinha esses dançarinos que faziam uma nova dança chamada “vogueing” e então Shep Pettibone, que co-produziu ‘Vogue’ comigo, era DJ de lá e foi assim que aconteceu.
Austin:
Qual foi o maior desafio da sua carreira?
Madonna:
Trabalhar em ‘Evita’ com Andrew Lloyd e Tim Rice. Foi uma sensibilidade de canto totalmente diferente, eu precisava trabalhar muito com um treinador vocal para cantar com força e convicção. Muitas coisas foram gravadas ao vivo, e eu estava no estúdio com produtores e escritores estranhos e uma grande orquestra. A primeira música que eles queriam que eu cantasse foi ‘Don’t Cry For Me Argentiva’, que era a mais difícil. Eu quase comecei a chorar, me senti muito intimidada, mas depois consegui relaxar.
Com Live To Tell, de 1987, Madonna queria mostrar que tinha uma imagem séria para interpretar Eva Peron nos cinemas. O diretor ainda não acreditava no potencial da cantora, que ganhou o Globo de Ouro por Melhor Atriz. Com ‘Live To Tell’, de 1987, Madonna queria mostrar que tinha uma imagem séria para interpretar Eva Peron nos cinemas. O diretor ainda não acreditava no potencial da cantora, que ganhou o Globo de Ouro na categoria ’Melhor Atriz’.
Austin:
Em 1998 você retornou depois de quatro anos com ‘Ray Of Light’ trabalhando com o britânico da música eletrônica, William Orbit. Por que ele?
Madonna:
Depois de ‘Evita’ eu tive um bebê. Saí do mundo da cultura pop por um tempo e quando voltei estava me sentido com fome, curiosa, procurando algo novo. Durante aquele tempo eu estava ouvindo as musicas de William Orbit da gravação ‘Strange Cargo’. Ele é bem excêntrico e vive em seu próprio mundo. Eu estava longe tanto tempo e quando entrei no estúdio com ele me senti como se fosse atirada de um canhão. Eu tinha tantas idéias e ‘Ray Of Light’ reflete isso.
Austin:
Na maioria dos seus álbuns você procura produtores fora do radar como Orbit, Mirways e Stuart price. Mas para o ‘Hard Candy’ você mudou para ‘hitmakers’ como Timbaland, Justin Timberlake e Pharrel Williams. O que você tinha em mente?
Madonna:
Eu sempre penso ‘Ok, quem está fazendo música que eu gosto agora?‘ e eu realmente gostava da música de Timbaland e Justin. Justin é um escritor incrível, ‘What Goes Around…Comes Around?’ é brilhante! Então pensei que seria um bom desafio trabalhar com ele.
Austin:
Alguém já recusou trabalhar com você?
Madonna:
Claro, ou o artista ‘não tem tempo’. Eu queria trabalhar com Eminem, mas acho que ele não queria trabalhar comigo [risos] talvez ele seja tímido.
Austin:
Em 1996 você teve sua primeira filha, Lourdes. Depois sua família cresceu com Rocco, que você teve com Guy Ritchie, e depois David e Mercy, adotados do Malaui. Os seus filhos possuem músicas favoritas suas?
Madonna:
Com certeza. Lourdes gosta das minhas músicas mais antigas. Ela curte os anos 80, desde o jeito de se vestir até o que ela ouve. Rocco gosta de tudo que fiz com Timbaland. Ele é basicamente um garoto ‘hip hop’ e ‘eletrônica’. A música favorita do David é ‘Ha isla’, é desse jeito que ele a chama, ele é meu maior fã! Todos dizem que quando ele assiste ao show fica congelado do começo ao fim, estuda cada movimento, cada passo de dança [Sorrisos]. David não é parado como meus filhos mais velhos.
Austin:
Você e Lourdes foram juntas ao show de Lady GaGa em NY. Vocês vão a muitos shows?
Madonna:
Nós estamos apenas começando, gostamos do mesmo tipo de música. Eu acho Lady GaGa ótima, quando nós vimos ela eu senti um pouco de reconhecimento. Pensei ‘ela é especial’, tem algo interessante nela, não tem medo e é engraçada. Quando fala com o público parece inteligente e esperta. GaGa é única.
Austin:
Você consegue sentir a ambição das pessoas?
Madonna:
Sim. Tem pessoas como Justin Timberlake que são muito bonitas e descontraídas. Ele é tipo um Cary Grant. Eu o amo e adoro trabalhar com ele, mas não me vejo nele. Mas me vejo em Lady GaGa, no começo da minha carreira com certeza. Quando a vi não tinha muito dinheiro para a produção, ela tinha buracos na meia calça e erros por toda parte. Era uma bagunça, mas GaGa tem algo especial e foi bom ver aquilo num palco simples.
Madonna apresentou-se com Lady Gaga, de forma surpreendente, no Saturday Night Live, programa de humor mais famoso dos EUA. Madonna apresentou-se com Lady Gaga, de forma surpreendente, no ‘Saturday Night Live’, programa de humor mais famoso dos EUA.
Austin:
Outro artista que você admira é Sting. O que você pode falar sobre ele?
Madonna:
Eu considero Sting meu amigo, mas sou mais amiga da mulher dele, Trudie. Ele é um músico incrível que toca cinquenta instrumentos diferentes. Sempre me sinto intimidada por ele e sempre acho que ele me olha com superioridade. Não querendo me deixar triste, mas eu sou uma ‘pop star’ e ele um músico de verdade. Nós não falamos sobre música quando estamos juntos. Sting geralmente está no canto jogando xadrez ou tocando um instrumento de dezesseis cordas que eu nem sei o nome.
Austin:
Ano passado você e Guy Ritchie se divorciaram…
Madonna:
Você não precisa abaixar o seu tom de voz ao falar sobre isso, não é nenhum palavrão. Eu pensei que nós íamos falar sobre música, talvez se você conseguir conectar isso com música eu falarei sobre o divórcio.
Austin:
Então vamos falar de uma parte da letra de ‘Devil Wouldn’t Recognize You’ do ‘Hard Candy’: ‘I should just walk away/ Over and over, I keep on coming back for more [Eu devia ir embora/ de novo e de novo, eu sempre volto para mais]‘.
Madonna:
O que eu posso dizer? Ano passado foi desafiador. O trabalho me salvou, estou muito grata que tenha tido trabalho para fazer, se não eu teria me atirado de um prédio. A vida é sempre ajustada. Meus filhos não estão comigo agora, estão com o pai deles. Não estou confortável com a idéia deles não viverem juntos. Existem prós e contras, mas eu me sinto bem agora.
Austin:
O que você adora ao ter filhos de três países diferentes?
Madonna:
Quanto mais diversificado é o mundo em que você vive, mais aberto você é. Meus dois mais novos são da África, o que abriu meus olhos e me deu uma nova perspectiva do mundo. Minha casa é como uma propaganda da Benetton. Tenho babás francesas, seguranças israelenses, assistentes da Argentina e Porto Rico e também um cheff japonês e outro italiano. É incrível, eu adoro! Não gostaria que fosse diferente, minha vida é uma mistura de diferentes línguas e músicas.
Austin:
Eu estive no show de ontem em Budapeste e fiquei chocado. Nenhuma das músicas foi apresentada na forma original.
Madonna:
Mesmo as minhas músicas novas, eu preciso reinventá-las ou depois de algumas vezes ficarei enjoada de todas. Quando você vai reinventá-las senta por dias com seu diretor musical e sua banda. Inevitavelmente acaba usando o ‘sample’ de alguém e daí precisa pedir permissão e pagar mais dinheiro. Já me disseram ‘você podia apenas ir lá, tocar violão e suas músicas como o Paul McCartney’ mas eu ficaria entediada. A alegria dos meus shows vem da mágica de criá-los – o teatro! Sou perfeccionista, gosto de trabalho duro, gosto de suar!
Austin:
Certamente. Você cantou ‘Into The Groove’ enquanto pulava corda.
Madonna:
Eu sempre tenho que fazer algo bem impossível nos meus shows e é esse o momento mais impossível. É muito difícil dançar e cantar ao mesmo tempo. É por isso que a maioria das pessoas que dançam não canta, pelo menos muito bem.
Austin:
Em ‘I’m Going To Tell You A Secret’, o seu documentário sobre a ‘Re-Invention Tour’, você está toda cheia de gelo como um jogador de basquete depois do show.
Madonna:
Depois do show eu sento numa banheira de gelo e fico lá por dez minutos. É doloroso ao entrar, mas você se sente tão bem depois. Sou uma atleta, meus tornozelos são enrolados antes dos shows e eu tenho terapia e tratamentos físicos. Isso vem de anos e anos de abusos dançando em salto alto, o que não é bom para seus joelhos. Todos os dançarinos têm machucados, mas temos que lidar com eles. Nós fazemos acupuntura e terapias e continuamos.
Austin:
Quando você olha para o público, o que você nota?
Madonna:
Algumas vezes é puro entusiasmo. Eu estava em Munique outro dia e tinha esse pai na primeira fila com sua filha nos ombros. Ela estava totalmente impressionada, sorrindo de orelha a orelha. Também do lado havia dois caras sem camisa cobertos de tatuagens minhas.
Austin:
Quando os fãs cantaram parabéns em Varsóvia você desmoronou em lágrimas.
Madonna:
Quando o público começa a chorar, tem um efeito contagiante. Chorar é complicado porque quando você chora não consegue cantar bem, sua garganta treme. Mas ao longo da turnê muitas coisas emocionantes aconteceram. Obama foi eleito logo antes de eu entrar no palco [em San Diego], nós rezamos antes do show e eu tinha lágrimas no meu rosto. Eu disse, ‘Eu me sinto como se estivesse vivendo um sonho’, então beijei o chão. Tenho vontade de chorar agora.
Austin:
Uma vez você disse à ‘Rolling Stone’, ‘Existem horas que eu penso que se eu soubesse que a fama seria assim não teria lutado tanto. Chega a ser demais, eu odeio ser examinada, eu não agüento mais!’. O que você pensa sobre a fama hoje em dia?
Madonna:
Vale à pena se você entender que também tem fim. Meu trabalho me permitiu fazer coisas fora do campo da música. Saber que minha experiência na África mudou a vida das pessoas para melhor, ver a vida deles mudando na minha frente, como eu não posso me sentir bem com isso? Eu não estou sempre bem, posso te afirmar. Ontem eu acordei no lado errado da cama, que bom que a entrevista foi hoje.
Austin:
Irritada?
Madonna:
Super irritada. Quando eu fico sem dormir não é muito engraçado. Você sabe, todo dia paro por um momento para pensar como minhas palavras e ações podem afetar as pessoas. Faço toda manhã e quando vou dormir, ‘O que vou fazer com o meu dia? O que fiz no meu dia?’.
Austin:
Na maioria das vezes, você está satisfeita?
Madonna:
Algumas vezes, mas outras vezes eu fracasso e penso que não faço nada a não ser causar caos. Mas sou um ser humano e erro, então depois eu esqueço de mim.
Rolling Stone Online: A rainha abre o coração
Nesta parte da entrevista [que só foi divulgada no site oficial da revista Rolling Stone], Madonna fala sobre como lida com as críticas, principalmente quando partem de sua filha Lourdes Maria, sua relação com Michael Jackson e Britney Spears.
Austin:
Sua energia no palco é incrível. Eu particularmente gostei de ‘Into The Groove’, que você cantou enquanto pulava corda na turnê Sticky & Sweet. Como você faz para manter tão boa forma?
Madonna:
Eu tenho dois programas de malhação. Aquele que eu faço em dias de shows, que deixa meu corpo aquecido e preparado de verdade, e aquele para quando estou de folga e que envolve tudo. O tipo de treinamento que eu faço incorpora desde o balé até Pilates, correr na esteira, pular corda, pular na cama elástica, ginástica olímpica, etc. exercitando todos os grupos musculares que eu uso para fazer o show. O mais importante é eu manter minha resistência cardiovascular. No começo da turnê passada eu estava patinando. Mas aí eu acabei desistindo de usá-los, pois vivia voando para fora da pista.
Austin:
Com que freqüência você chora no palco?
Madonna:
[Durante a turnê Sticky & Sweet] há um momento pouco antes de eu cantar ‘You Must Love Me’, que é uma canção bastante triste, quando tenho um tempo maior para conversar com a platéia. Nesta etapa da turnê, eu chorei quando estava falando a respeito dos dois homens que morreram no desabamento do meu palco em Marselha. Também chorei quando fiquei sabendo da morte de Michael Jackson.
Austin:
Você e Michael Jackson nasceram no mesmo mês, Agosto de 1958. Como foi para você vê-lo ainda criança fazendo tanto sucesso?
Madonna:
Eu era loucamente apaixonada por ele. Ele era muito talentoso. As músicas que ele cantava não eram nada infantis.
Austin:
Quando foi a primeira vez que você o viu pessoalmente?
Madonna:
Foi no começo dos anos 80, quando comecei a trabalhar com Freddy DeMann, que na época era empresário de Michael Jackson. Eu o vi no Madison Square Garden, e eu pirei. Ele foi impecável. Havia uma festa no Helmsley Palace Hotel. Ele era bastante tímido, mas para mim ele era único.
Austin:
Você sentia inveja dele?
Madonna:
De forma positiva. Queria ter escrito ‘Billie Jean’ e ‘Wanna Be Startin’ Something’. Não tem uma música dele que eu não goste.
Austin:
Dez anos depois surgiu um boato sobre um dueto, e, além disso, vocês foram juntos ao Oscar.
Madonna:
Houve uma época em que nós saíamos juntos. Ele queria trabalhar comigo. Penso que ele queria me conhecer e comecei a agir da mesma maneira. É uma experiência um pouco estranha compor com outra pessoa, porque você se sente vulnerável e tímido. Senti-me desse jeito quando trabalhei com Justin Timberlake. Compor com alguém é algo muito íntimo, é como ser atirada em um rolo compressor. ‘Em suas posições, preparem-se, criem!’. Você tem que superar esses obstáculos. Ou seja, ‘Eu quero impressionar esta pessoa, mas será que ela não vai achar minhas idéias estúpidas demais? E se as idéias dela forem estúpidas? Será que eu posso ser honesta com ela? Será que não irei ofendê-la?’. E aí você começa a conversar e a trocar idéias e você precisa agir assim para que a coisa aconteça de verdade, tem de ser criativa. E era isso que nós estávamos fazendo. Assistindo filmes, jantando, saindo, indo ao Oscar, agindo como duas crianças para ver se haveria química. Ele relaxou. Tirou os óculos escuros, bebeu uma taça de vinho, eu o fiz rir.
Austin:
Você é a única grande artista que não se deixou abater pelas críticas de que foi alvo ao longo dos anos. Por que você acha que elas conseguiram destruir a carreira de Jackson?
Madonna:
Tudo o que eu tenho são minhas opiniões, eu não tinha tanta intimidade assim com ele. É bom ter uma boa infância e ter noção de quem você é no mundo antes que as pessoas comecem a falar quem elas pensam que você é. Onde você pode cometer erros e ser inocente. Isso te dá mais noção de confiança. Não penso que ele tenha começado desta forma. Ele tinha alguma noção de quem ele era para o mundo, de ser adorado e ser famoso? É difícil sobreviver assim. Penso que ele se sentia inseguro sobre todas as atenções que recebia, e tinha uma relação de amor e ódio com seu trabalho. Ele não parecia ter amigos próximos. E na última década, todos o abandonaram, ou o taxaram de maluco. As pessoas dizem tantas mentiras a meu respeito e eu nunca pensei duas vezes sobre as acusações que fizeram contra ele, de que elas pudessem ser verdadeiras. Mas ele não parecia saber se defender, de forma pública ou privada, e isso pode te destruir. Quando ele morreu, todos começaram a falar sobre o quanto ele era um gênio, só que ninguém se lembrou de fazer isso enquanto ele estava vivo. É uma lástima.
Austin:
Britney Spears apareceu em um vídeo durante a música ‘Human Nature’ na sua turnê. Ela está presa em um elevador e começa a pirar. É a forma que você achou de fazer uma analogia com que aconteceu com a carreira dela?
Britney Spears chegou a fazer uma apresentação especial em 2008, na turnê Sticky & Sweet no show de Los Angeles Britney Spears chegou a fazer uma apresentação especial em 2008, na turnê Sticky & Sweet no show de Los Angeles
Madonna:
Sim. Não ficou bem clara minha intenção? ‘Não sou sua vadia, não venha me sacanear’. Eu penso que as pessoas deveriam cuidar de suas próprias vidas e deixá-la em paz para que ela cresça. Penso que todo mundo chega ao fundo do poço em algum momento da vida e ela, assim como o Michael Jackson, não teve infância de verdade, então há algo de inerente naquele cenário. Tenho muita compaixão por ela e espero que ela encontre harmonia em sua vida. Não faço idéia do quanto ela caiu. Mas as pessoas não deveriam acreditar em tudo o que lêem.
Austin:
Você descreveu a música como um veículo para transcender a miséria. Quando foi que você percebeu que a música tinha esse poder de cura?
Madonna:
Bem, todo mundo sabe que a música pode deixar você feliz, tirá-lo da pior e salvá-lo e, mesmo que você nem esteja ciente disso, está acontecendo. Não conheço uma única pessoa que não tenha dito, ‘Esta música salvou minha vida’, ‘Esta música foi a trilha sonora do meu verão’, ‘Esta música me tirou da forca’.
Austin:
Desde o começo, você foi classificada como ‘uma cantora de um único sucesso’. Em que momento você foi capaz de transformar essas opiniões em motivação? Eu acho que a virada definitiva aconteceu quando suas fotos nua apareceram na ‘Playboy’ e na ‘Penthouse’, e com a sua famosa frase ‘Não tenho vergonha’.
Madonna:
Foi algo que eu fiz e que estava totalmente fora do contexto, já que as fotos foram tiradas quando eu estava posando para aulas de fotografia. Foi tão injusto. Obviamente alguém estava tentando levar vantagem com o fato de eu estar ficando famosa e vendeu as fotos. Aquilo foi apenas uma forma de poder sobreviver quando eu cheguei à Nova York. Eu posava para aulas de arte: pintura, fotografia, desenho. Eu era bailarina, então eu era capaz de permanecer na mesma posição por um bom tempo e você conseguia ver os músculos do meu corpo. É um trabalho perfeitamente respeitável. Todos tentaram me deixar embaraçada, e tudo pareceu tão ridículo. Eu não diria que, a partir daquele momento, nada do que as pessoas dissessem a meu respeito pudesse me aborrecer, mas eu era capaz de usá-las como forma de, como você mesmo disse, motivação. Era o efeito contrário. Se você disser que eu não consigo, eu provarei que consigo. É como tudo na vida. Quanto mais resistência nós temos, mais pesados ficamos, mais seus músculos crescem. Possivelmente esta seja a razão de eu ainda ter uma carreira. Eu sempre lidei com resistência.
Austin:
Você acha que algumas das suas declarações e provocações de certa forma interferiram na qualidade da sua música?
Madonna:
É possível, mas tudo aconteceu como deveria acontecer. Não nego nada do que eu disse ou fiz. Lembro de quando estava fazendo meu documentário ‘I AM BECAUSE WE ARE’, e eu entrei na disputa no festival de Sundance. Uma mulher falou, ‘Você tem de decidir se quer ser uma artista ou uma ativista’. Então respondi, ‘E por que não posso ser ambas?’. Sempre agi desta forma.
Austin:
Em 1989, ninguém tentou impedi-la de dançar e cantar em frente às cruzes em chamas no clipe de ‘Like A Prayer’?
Madonna:
Para falar a verdade não foram muitas pessoas que se mostraram contra isso. Obviamente depois de pronto elas se mostraram contra, mas eu ignorei. Algumas vezes eu apenas o defendia. Eu penso que é desfragmentação religiosa, ou fanáticos que dizem fazer as coisas em nome de Deus, mas na realidade trazem sofrimento às vidas das pessoas é algo que precisa ser combatido, e eu senti que foi isso que eu estava fazendo. E quando eu cantei ‘Live To Tell’ na cruz [na 'Confessions Tour'] eu estava apoiando Jesus Cristo, pagando tributo à sua mensagem, que é a de amar ao próximo como a si mesmo, a de tratar as pessoas com dignidade. Mas os cristãos não gostaram muito da idéia.
Na 'Confessions Tour', Madonna causou polêmica ao cantar 'Like a Prayer' crucificada. Em 1989, o clipe da mesma canção foi banido em vários lugares do mundo por exibir cruzes pegando fogo e membros racistas. Na ‘Confessions Tour’, Madonna causou polêmica ao cantar ‘Live To Tell’ crucificada. Antes disso, porém, ela já causava polêmica junto à igreja Católica. Em 1989, o clipe de ‘Like A Prayer’ foi banido em vários lugares do mundo por exibir cruzes pegando fogo e membros racistas.
Austin:
Quem você considera um gênio musical? Como você define ‘gênio’?
Madonna:
‘Gênio’ quer dizer tantas coisas diferentes. Pode ser sobre a poesia, ou a melodia, ou o timbre da voz quando alcança uma determinada nota. Seja Cole Porter, Elvis Costello, Joe Henry, Stevie Wonder, Cat Stevens, David Bowie, Lou Reed, Chrissie Hynde, Joni Mitchell, Iggy Pop, Elton John, John Lennon ou Chris Martin.
Austin:
Você cantou ‘Imagine’ na sua ‘Re-invention Tour’. Onde você estava quando John Lennon foi assassinado?
Madonna:
Eu estava no Upper East Side. Lembro de estar descendo do trem na 72nd Street, algumas horas depois do que aconteceu e havia uma multidão e carros de polícia, foi uma loucura. Todos estavam chocados. A forma como aconteceu era perturbadora, a violência pode te deixar muito paranóico. O acidente de carro da Princesa Diana, e o evento trágico com Michael Jackson, essas coisas fazem você ficar parado. Toda vez que eu cantava ‘Imagine’ eu percebia as pessoas na primeira fila chorando. Era contagiante. John Lennon despertava isso nas pessoas.
Austin:
Você pode apontar algumas inspirações para alguns dos discos que gravou?
Madonna:
Há tantas pessoas que são inspiradoras, artistas e filósofos. Eu me inspiro em pessoas que quebram as regras, como Martin Luther King, Al Gore e Ghandi. Tenho mais heróis obscuros como Frida Kahlo, Martha Graham e Eleanor Roosevelt. Para o disco ‘American Life’ eu diria que as inspirações foram Michael Moore e Che Guevara. Eu sempre me inspirei em pessoas que não têm medo de expressar suas opiniões, e falar sobre sexo e provocações e o que é certo ou errado. O que é correto e incorreto no comportamento de homens e mulheres, e brincar com esses limites. Obviamente que eu sei que se eu tivesse nascido homem, muito do que eu disse e fiz jamais teria recebido a atenção que recebeu. Essa realidade é bem evidente na minha cabeça.
Austin:
Algumas das suas melhores músicas – ‘Live To Tell’, ‘Like A Prayer’, ‘Cherish’ – foram colaborações com o compositor e produtor Patrick Leonard. Por que essa relação foi tão bem sucedida?
Madonna:
Nós dois viemos da mesma região e, no fundo, ambos somos ‘nerds’. Ele é melancólico, e ele é um músico classicamente treinado com um incrível senso de melodia. Nós tivemos uma ótima química desde o começo, sempre surgíamos com algo interessante. Normalmente nós não escrevemos canções frívolas, embora tenhamos feito isso também. Mas existe algo de mágico na forma como compomos.
Austin:
Falando um pouco sobre suas letras, quais são os versos de que você mais gosta dos que escreveu ao longo dos anos?
Madonna:
Eu gosto das letras das músicas menos famosas. ‘Miles Away’ e ‘Devil Wouldn’t Recognize You’. Elas são mais pessoais e menos acessíveis. Eu adoro a letra de ‘Like It or Not’. [Cantando] ‘I’ll be the garden, you’ll be the snake, all of my fruit is yours to take, better the devil that you know, your love will surely grow’. E eu adoro ‘Paradise [Not For Me]‘. [Cantando] ‘I can’t remember when I was young, I can’t explain if it was wrong’.
Austin:
Qual a importância dos ‘hits’ para você?
Madonna:
Bem, elas são importantes, não vou mentir. Eu quero que a minha música seja acessível e alcance pessoas ao redor do mundo.
Austin:
Quem você gosta de ouvir?
Madonna:
Eu escuto música o tempo todo. Tenho muitos amigos que são DJs, ou então recebo coisas de outros artistas, dos meus agentes, ou vou a um clube ou simplesmente ouço rádio. As pessoas sempre trazem música para as minhas aulas de malhação e toda Terça-Feira eu confiro a lista do iTunes. Tenho dois amigos que são DJs em Nova York e eles estão sempre me apresentando coisas novas. Não vivo em uma bolha.
Austin:
Sua filha mais velha, Lourdes, lhe apresenta à nova geração musical?
Madonna:
Ela me apresentou Ting Tings. Há uma banda nova chamada Disco Bitch. Ela adora My Chemical Romance e já superou ‘a febre’ Jonas Brothers. Ela adora Lady Gaga, Ciara, T.I. e Justin. Vive com o iPod grudado nos ouvidos.
Austin:
Ela a critica?
Madonna:
Ah sim. Meus concertos, minha música. Ela é honesta de uma forma brutal, não apenas comigo, mas com todo mundo, sobre o que você está vestindo, com quem está namorando, as músicas que você ouve, cada escolha sua. Nós estamos usando o mesmo tamanho agora, ela pega as minhas roupas, meus sapatos, vive enfiada no meu armário. Além disso, ela está trabalhando na turnê agora. Agora parecemos mais como amigas e brigamos o tempo todo. Uma relação normal de mãe e filha que está passando pela puberdade.
Austin:
É muito incomum para você ser confrontada com opiniões tão honestas? Imagino que haja muitas pessoas andando em ovos quando você está por perto.
Madonna:
Eu penso que sou muito boa em identificar quando alguém tenta me sacanear. Eu prefiro pensar que tenho amigos que são honestos comigo e pessoas com quem trabalho que me dizem coisas que eu não quero ouvir. Eu tenho essas pessoas no meu dia a dia e tenho sorte de tê-las.
Austin:
Qual a função da Lourdes na turnê?
Madonna:
Ela ajuda os bailarinos a se vestir. Ela ajuda na maquiagem e no cabelo, vive fazendo experiências. É muito talentosa. Ela poderia tranquilamente ter sua própria linha de criação de roupas, pois ela tem muito estilo. Todos vivem lhe perguntando o que ela acha do visual deles. A ela, não a mim.
No último show da turnê em 2009, Madonna encerra a turnê ao lado da filha, que dançam juntas o hit 'Give It 2 Me'. No último show da turnê ‘Sticky & Sweet’, em 2009, Madonna encerra o show ao lado da filha, e elas dançam juntas o hit ‘Give It 2 Me’.
Austin:
Quais objetos você considera os de maior valor?
Madonna:
Eu tenho pilhas de cadernos com composições minhas de décadas. Outras coisas são mais maternais, como o primeiro sapatinho que minha filha usou, o primeiro fio de cabelo.
Austin:
É um sentimento agridoce, o rompimento com a Warner Bros., após passar sua carreira toda lá?
Madonna:
Não sei dizer. A indústria fonográfica que conhecemos não existe mais. O mercado musical hoje é completamente diferente do que era no começo. É uma evolução natural. Por um lado, está bem melhor agora, porque os jovens têm a chance de se lançar no mercado sem tanta burocracia e sem intermediários, toda aquela bobagem que só atrapalha. Por outro lado, não há ninguém dando apoio para que elas sigam em frente. Não sei qual a solução para isso. Acredito que vai voltar tudo à estaca zero outra vez. Mas eu me sinto bem assim.
Madonna entra para o Rock And Roll of Fame em 2008 e recebe o prêmio de Justin Timberlake. Madonna entra para o ‘Rock and Roll Hall of Fame’ em 2008 e recebe o prêmio de Justin Timberlake.
Austin:
Na entrega do Rock And Roll Hall Of Fame, você resumiu seu discurso dizendo, ‘Tudo se volta para a música’. Você pensa no seu legado ou, daqui a cem anos, em como você será lembrada?
Madonna:
Não necessariamente. Mas quando eu faço meus shows e vejo como a música carrega as pessoas, mais do que qualquer coisa quando eu vejo as pessoas chorando, ou estáticas, é como a música afeta as pessoas e o poder que ela tem, sobre qualquer outra forma de arte. Sinto-me tão inspirada por outras pessoas – sou um ser humano como qualquer outro. Nós devemos todos partilhar dessa mesma conexão. Sinto-me privilegiada e abençoada por ser um canal para a música. No fim das contas, as pessoas irão pensar no sapato que usei no VMAs ou na minha foto nua no jornal, ou vão se lembrar de ‘Live To Tell’? Penso que no fim das contas elas irão se lembrar da autenticidade. Elas se lembram do que é verdade, e o resto
Austin:
Você cresceu em Pontiac, subúrbio de Detroit, de onde você recebeu várias influências musicais de festas e churrascos que você frequentava na sua vizinhança afro-americana. Do que se lembra?
Madonna:
A Motown estava por toda parte. Stevie Wonder, Diana Ross, os Jackson 5, foi com isso que eu cresci. Mas quando entrei para o colegial nos mudamos para outro bairro que era de classe média e branca. Não tinha mais festas, nem música alta do vizinho. Eu me sentia uma estranha. Foi aí que eu criei meu próprio mundo. Eu decidi então me tornar uma dançarina profissional. Me tornei mais introvertida e fugia de casa para ir a concertos. Descobri o poder da música a partir daquele ponto, não que eu pudesse articular a ninguém.
Austin:
Quais foram os primeiros concertos que você viu?
Madonna:
Meu primeiro foi o do David Bowie no Cobo Hall [em Detroit] quando eu tinha 15 anos. Ele tinha mímicos, foi incrível. Eu queria tê-lo visto como Ziggy Stardust. Meu segundo show foi Elton John e meu terceiro foi Bob Marley. Nada mal, não é?
Austin:
Nada mal mesmo. Você bebia nos shows?
Madonna:
No colegial? Nunca! Eu era uma ‘nerd’. Eu nunca bebi até o meu primeiro divórcio, [do ator Sean Penn] quando eu tinha 30 anos.
Austin:
É interessante ouvir você falar de Bowie como uma influência.
Madonna:
É que todos pensam que eu cresci sob influência da ‘disco music’. Meu irmão mais velho ficava no porão ouvindo The Who, Rolling Stones, Bob Dylan , “Whole Lotta Love” do Zeppelin , “Baba O’Riley” do The Who.
Austin:
Você performou “Baba O’Riley” em um show de talentos na sétima serie.
Madonna:
Minhas amigas pintaram meu corpo com flores e corações fluorescentes. Eu usei um short e um top, fiquei louca. Havia um holofote estroboscópico e luzes mais escuras, tenho certeza de que todos pensaram que eu era louca. Foi minha primeira vez no palco. Talvez o começo das minhas performances provocadoras, eu acho. Depois disso nenhuma garota queria falar comigo, e os garotos me olhavam de modo estranho.
Austin:
Você ainda se considera uma ‘nerd’?
Madonna:
Eu ainda uso expressões como “oopsie-daisy” [expressão antiga equivalente a "que droga", mas menos ofensiva e usada por pessoas que se sentem constrangidas em usar "palavrões"]. Enquanto crescia nunca me sentia uma pessoa legal, nunca fiz parte de uma turma. Mas ‘nerd’ não é uma palavra que as pessoas usem para me descrever. Exceto, talvez, o Stuart Price que me disse um dia, “No fundo você é uma ‘nerd’, mas ninguém sabe disso”. Eu entendi isso como um elogio. Eu sou bobinha e não sou legal.
Stuart Price deu um dos álbuns mais fáceis para a Madonna: 'Confessions On A DanceFloor' (2005). Na visão dela, fazer esse álbum foi o mais tranquilo da sua carreira. Stuart Price deu um dos álbuns mais fáceis para a Madonna: ‘Confessions On A DanceFloor’ [2005]. Na visão dela, fazer esse álbum foi o mais tranquilo da sua carreira.
Austin:
Você se mudou para Nova York depois de deixar a Universidade de Michigan para se tornar uma dançarina. Como ocorreu essa transição da dança para o canto?
Madonna:
Foi uma questão de circunstâncias. Como eu era dançarina, comecei a ir para audições de teatro, onde era forçada a cantar. A maioria das pessoas era bem mais profissional do que eu. Eu pegava as letras e então alguém tocava piano, e eu cantava as músicas que conhecia. Como por exemplo, Aretha Franklin ou qualquer outra coisa vergonhosa.
Austin:
Em 1979 você morava no Queens com Dan e Ed Gilroy, que tinham uma banda chamada ‘The Breakfest Club’. Você acabou se juntando a eles e escreveu sua primeira música.
Madonna:
Ela se chama ‘Tell the truth’. Tinha uns quatro acordes, e também outros versos e um refrão. Foi uma experiência religiosa. Decidi que, se eu queria mesmo me tornar uma cantora, precisava saber como, precisava aprender a tocar algum instrumento. Nós morávamos em uma sinagoga abandonada e, quando eu voltava das aulas de música, servia de modelo para Dan, que era pintor. Eu era a musa dele. Ele me ensinou como tocar acordes. Quando eles não estavam em casa eu tocava bateria. Aprendi ouvindo Elvis Costello. Então um dia escrevi uma música e fiquei tipo, ‘quem escreveu isso?’. Quando o baterista deles deixou a banda eu assumi seu posto. Certa noite, no clube CBGB, eu implorei para eles me deixarem cantar e tocar guitarra. A posição do microfone parecia cada vez mais atraente.
Austin:
Em 1982 você fechou com a Sire Records. Entre as demos existia ‘Everybody’ que se tornou seu primeiro single. Quando foi a primeira vez que você ‘se ouviu’ no rádio?
Madonna:
Eu morava no Upper West Side, na 99 com a Riverside. Eram umas 7 da noite e eu tinha um rádio no meu quarto ligado na estação KTU. Escutei ‘Everybody’ e disse ‘Oh meu Deus, sou eu saindo da caixa!’. Foi uma sensação incrível!
Austin:
Você ligou para o seu pai?
Madonna:
Não liguei para ele. Meu pai não teria ficado muito impressionado.
Austin:
Como você celebrou?
Madonna:
Naquele tempo eu andava com muitos grafiteiros: o Futura 2000, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Jean-Michel, que me apresentou a Andy Warhol. Eu lembro que estávamos em um restaurante japonês na 2nd Avenue com a 7th Street, onde o Keith tinha vários desenhos na parede. Jean-Michel falava de como ele tinha inveja de eu estar tocando na rádio. Ele achava que eu tinha uma forma mais acessível de arte e Andy mandou ele parar de reclamar.
Austin:
Haring morreu em 1990, de AIDS, e Basquiat morreu de overdose em 1988. Eles foram artistas incríveis para a geração. Como você os conheceu?
Madonna:
Eu fui apresentada a Keith por um colega de quarto, mas eu já conhecia o trabalho dele nas ruas, metrôs e prédios. Então nós começamos a sair para o Danceteria, Mudd Clubb e Roxy. O pessoal do Rocksteady [estilo musical parecido com reggae e ska] estava lá. Nós dançávamos, assistíamos break-dance nos clubes e nas ruas.
O figurino Old School da última turnê realizada, Sticky & Sweet, tem inspiração na grafitagem de Keith Haring O figurino ‘Old School’ da última turnê realizada, Sticky & Sweet, tem inspiração na grafitagem de Keith Haring
Austin:
Você fazia ‘grafite’?
Madonna:
Nas paredes, metrôs e calçadas.
Austin:
Qual era sua assinatura?
Madonna:
Boy Toy.
Austin:
Sério! Quem teve essa idéia?
Madonna:
Acho que foi o Futura. Ele é inteligente. Foi ele quem pintou meu quarto na 99, mas o dono não gostou. Nós tínhamos uma pequena gangue – Debi Mazar fazia parte dela. Nos chamávamos de as ‘Webo Girls’ – como ‘Huevos’, garotas com bolas.
Austin:
Você tem alguma pintura de Warhol, Haring ou Basquiat?
Madonna:
Eu tenho de todos. Keith e Warhol fizeram quatro para mim na época que me casei com Sean. São fotos da capa do The New York Post quando minhas fotos nuas apareceram na Playboy e na Penthouse. A manchete era ‘Eu não tenho vergonha‘. Então eles pegaram todas essas capas e pintaram por cima. Elas estão na minha casa em Los Angeles. Também tenho uma jaqueta de couro que Keith Harring pintou, nunca vou dá-las a ninguém.
Austin:
Desde o começo da sua carreira a transformação da sua imagem foi constante. Entre seus álbuns 1983, ‘Madonna’, e 1984, ‘Like A Virgin’, você passou por uma mega reinvenção, de uma morena punk para a loira no vestido de noiva. De onde veio tudo isso?
Madonna:
Eu não sei. Acho que comecei a escrever músicas mais sensuais e inconscientemente me transformei naquilo. Vem também do fato de que eu estava fazendo mais sessões de fotos, sempre vestida e estilizada. Antes disso eu fazia tudo sozinha, não tinha maquiador, eu pegava minhas meias-calças e as amarrava na minha cabeça, usava alguns rosários. Depois disso o Steven Meisel e o pessoal da moda começaram a me pôr em espartilhos. Eu acho que as pessoas dão muita atenção para a re-invenção e eu sou muito menos calculista do que pareço. Eu evoluo de acordo com o que estou interessada, com os livros que leio ou as roupas que vejo. Me chame de Zelig, daquele filme do Woody Allen em que o personagem muda de personalidade a cada pessoa diferente com quem fala. Acho tão chato ser sempre a mesma, uma garota precisa mudar seu visual.
Austin:
Quando você foi apresentada no Rock & Roll Hall of Fame tinha um vídeo da sua carreira e, quando você subiu no palco, fez uma piada sobre ‘todos os meus penteados horríveis’. Qual era sua você olha e mais odeia?
Madonna:
Acho que a fase do batom roxo e suéter verde fluorescente, e muitos desses penteados. Mas tudo bem, estamos falando dos anos 80, a era do penteado ruim.
Austin:
Por outro lado, existe algum momento que você olha para trás e diz ‘Nossa, eu era muito gostosa!’?
Madonna:
Você acha que eu vou te dizer? E ser aniquilada pelos próximos 10 anos? Não vou responder essa…
Austin:
Tem aquela famosa história de quando você performou no Radio City Music Hall em 1985 e a platéia estava tomada de clones seus. A ‘Virgin Tour’ começou em Seattle e percorreu todo o país. Foi Madonna-mania desde o começo?
Madonna:
A turnê foi muito louca porque eu saí do CBGB e do Mudd Club para tocar em grandes arenas. Eu toquei em um pequeno teatro em Seattle e as garotas estavam de saia, calças rasgadas, luvas de renda, rosários, laços no cabelo e brincos de argola. Eu pensava ‘Isso é loucura!’. Depois de Seattle todos os shows foram transferidos para arenas. Eu nunca fiz uma turnê de ônibus, todos dizem que é muito legal!
Austin:
Você não escreveu nem ‘Material Girl’ nem ‘Like A Virgin’. Qual foi sua primeira impressão após ouvir as demos?
Madonna:
Eu gostei delas porque eram ao mesmo tempo irônicas e provocativas, mas diferentes de mim. Eu não sou materialista e certamente não era virgem, e de qualquer forma, como alguém pode ser “como” uma virgem? Gosto de brincar com as palavras, eu as achava espertas. Tão bobas, tão legais.
Austin:
Não é materialista?
Madonna:
Eu me sinto sortuda de poder comprar um quadro da Fridah Kahlo e morar em uma boa casa, mas eu sei que consigo viver sem isso. Sou engenhosa, e se eu parar em uma casa no meio da floresta, eu terei que trabalhar. Essas coisas não são obrigatórias para minha felicidade. É isso que eu quero dizer quando ‘não sou uma pessoa materialista’.
Austin:
Você achava que essas duas músicas se tornariam grandes ‘hits’?
Madonna:
Não. Elas combinaram comigo. Eu nunca fui boa para julgar se as coisas se tornariam grandes ou não. As músicas mais retardadas que eu já escrevi como ‘Cherish’ ou ‘Sorry’, se tornaram grandes sucessos. ‘Into The Groove’ é outra música que eu me sinto retardada ao cantar, mas todo mundo parece gostar dela.
Austin:
Isso é porque ‘Into The Groove’ tem um baixo incrível!
Madonna:
É! Graças ao Stephen Bray. Sempre começava com um baixo e uma batida. Você construía a partir do zero, como em ‘Holiday’, ‘Hung Up’, ‘Music’. Eu penso que tem a ver com o fato de eu ser dançarina, porque é o baixo quem comanda quando você é dançarina. Você sente isso no seu centro de gravidade.
Austin:
Como você reage às criticas? Quando as fotos nuas apareceram na Playboy e na Penthouse você estava totalmente inatingível.
Madonna:
Foi a primeira vez que eu tive a atitude ‘foda-se’. Vocês querem me fazer sentir péssima por causo disso? Nunca vou deixar a opinião pública mudar o que eu penso sobre mim. Não vou me desculpar por algo que eu já tenha feito.
Austin:
Seu ex-empresário, Freddy DeMann, pensou que sua carreira ia acabar depois de sua performance de ‘Like A Virgin’ no VMA em 1984. Você ficou preocupada?
Madonna:
Ele estava branco feito um fantasma. Estava desapontado comigo, porque eu tinha rolado no chão, meu vestido tinha subido e todos podiam ver minha calcinha. No que eu estava pensando? ‘Meu sapato saiu do pé, não sei como colocá-lo de volta, vou descer até o chão para fazer isso’. Foi medonho e divertido, eu não sabia que iria significar tanto no meu futuro, milhões de coisas passavam pela minha cabeça.
Austin:
Não eram só suas performances que eram provocativas. Você não escreveu ‘Papa Don’t Preach’, mas é impossível imaginar outra pessoa cantando. O que aquela música significa pra você?
Madonna:
Ela era perfeita em conjunto com o meu gênio de estar contra as autoridades masculinas, mesmo sendo o Papa, a Igreja Católica ou meu pai e seus pensamentos conservadores e patriarcais.
Austin:
Qual foi a repercussão?
Madonna:
Fora muitas. Todos ficaram confusos. Mas para ‘Papa Don’t Preach’ existem muitas opiniões, por isso que achei tão legal. Perguntavam, ‘Ela é contra ou a favor do aborto?
Austin:
Há alguma idéia que você não levou adiante por ser muito chocante?
Madonna:
Eu fiz um ensaio fotográfico com Steven Klein para a capa do meu último álbum [Hard Candy]. Fiz um ensaio fotográfico com Steven Klein para a capa do meu último álbum, ‘Hard Candy’. Eu pintei a minha cara com tinta escura, exceto a minha boca que deixei com os lábios vermelhos e os olhos bem brancos. Era um jogo de palavras. Você já ouviu falar sobre a ‘Black Madonna’? Eu achava que poderia ter milhares de significados, seria um conceito legal para meu álbum. Mas então eu pensei ‘só 25% das pessoas vão entender, ou ainda menos, penso que não vale a pena’. Isso acontece todo o tempo, por isso que tenho pessoas como Guy Oseary que cuidam de mim e dizem ‘não, você não vai fazer isso‘.
Austin:
Muitos fãs consideram ‘Live To Tell’, do seu álbum de 1986 ‘True Blue’, a música que melhor a descreve. Você se lembra de algo da época em que a escreveu?
Madonna:
Algumas vezes quando eu escrevo uma música, eu só canalizo. E posso dizer que ‘Live To Tell’ é sobre minha infância, o relacionamento com meus pais e minha madrasta. Mas talvez não. Pode ser também algo sobre uma novela ou ramance de F. Scoot Fritzgeral que escutei uma vez, não precisa ser necessariamente autobiográfica. Eu posso dizer o mesmo sobre ‘La Isla Bonita’, não sei de onde veio.
Austin:
Quer dizer que você nunca sonhou com San Pedro?
Madonna:
Eu nem sei onde San Pedro fica. Naquele tempo eu não viajava para ilhas maravilhosas, talvez eu estivesse indo para o estúdio e vi alguma coisa sobre San Pedro.
Austin:
Como você escreveu ‘Vogue’?
Madonna:
Eu escrevi enquanto fazia o filme ‘Dick Tracy’. Depois que nós gravamos o filme, Warren Beatty me pediu para escrever algo que se relacionasse com o ponto de vista da minha personagem, algo que ela poderia ter feito. Ela era obcecada com lugares secretos e ilegais e é assim que o filme começa. A idéia da letra veio daquilo. Coincidentemente eu estava indo ao Sound Factory onde tinha esses dançarinos que faziam uma nova dança chamada “vogueing” e então Shep Pettibone, que co-produziu ‘Vogue’ comigo, era DJ de lá e foi assim que aconteceu.
Austin:
Qual foi o maior desafio da sua carreira?
Madonna:
Trabalhar em ‘Evita’ com Andrew Lloyd e Tim Rice. Foi uma sensibilidade de canto totalmente diferente, eu precisava trabalhar muito com um treinador vocal para cantar com força e convicção. Muitas coisas foram gravadas ao vivo, e eu estava no estúdio com produtores e escritores estranhos e uma grande orquestra. A primeira música que eles queriam que eu cantasse foi ‘Don’t Cry For Me Argentiva’, que era a mais difícil. Eu quase comecei a chorar, me senti muito intimidada, mas depois consegui relaxar.
Com Live To Tell, de 1987, Madonna queria mostrar que tinha uma imagem séria para interpretar Eva Peron nos cinemas. O diretor ainda não acreditava no potencial da cantora, que ganhou o Globo de Ouro por Melhor Atriz. Com ‘Live To Tell’, de 1987, Madonna queria mostrar que tinha uma imagem séria para interpretar Eva Peron nos cinemas. O diretor ainda não acreditava no potencial da cantora, que ganhou o Globo de Ouro na categoria ’Melhor Atriz’.
Austin:
Em 1998 você retornou depois de quatro anos com ‘Ray Of Light’ trabalhando com o britânico da música eletrônica, William Orbit. Por que ele?
Madonna:
Depois de ‘Evita’ eu tive um bebê. Saí do mundo da cultura pop por um tempo e quando voltei estava me sentido com fome, curiosa, procurando algo novo. Durante aquele tempo eu estava ouvindo as musicas de William Orbit da gravação ‘Strange Cargo’. Ele é bem excêntrico e vive em seu próprio mundo. Eu estava longe tanto tempo e quando entrei no estúdio com ele me senti como se fosse atirada de um canhão. Eu tinha tantas idéias e ‘Ray Of Light’ reflete isso.
Austin:
Na maioria dos seus álbuns você procura produtores fora do radar como Orbit, Mirways e Stuart price. Mas para o ‘Hard Candy’ você mudou para ‘hitmakers’ como Timbaland, Justin Timberlake e Pharrel Williams. O que você tinha em mente?
Madonna:
Eu sempre penso ‘Ok, quem está fazendo música que eu gosto agora?‘ e eu realmente gostava da música de Timbaland e Justin. Justin é um escritor incrível, ‘What Goes Around…Comes Around?’ é brilhante! Então pensei que seria um bom desafio trabalhar com ele.
Austin:
Alguém já recusou trabalhar com você?
Madonna:
Claro, ou o artista ‘não tem tempo’. Eu queria trabalhar com Eminem, mas acho que ele não queria trabalhar comigo [risos] talvez ele seja tímido.
Austin:
Em 1996 você teve sua primeira filha, Lourdes. Depois sua família cresceu com Rocco, que você teve com Guy Ritchie, e depois David e Mercy, adotados do Malaui. Os seus filhos possuem músicas favoritas suas?
Madonna:
Com certeza. Lourdes gosta das minhas músicas mais antigas. Ela curte os anos 80, desde o jeito de se vestir até o que ela ouve. Rocco gosta de tudo que fiz com Timbaland. Ele é basicamente um garoto ‘hip hop’ e ‘eletrônica’. A música favorita do David é ‘Ha isla’, é desse jeito que ele a chama, ele é meu maior fã! Todos dizem que quando ele assiste ao show fica congelado do começo ao fim, estuda cada movimento, cada passo de dança [Sorrisos]. David não é parado como meus filhos mais velhos.
Austin:
Você e Lourdes foram juntas ao show de Lady GaGa em NY. Vocês vão a muitos shows?
Madonna:
Nós estamos apenas começando, gostamos do mesmo tipo de música. Eu acho Lady GaGa ótima, quando nós vimos ela eu senti um pouco de reconhecimento. Pensei ‘ela é especial’, tem algo interessante nela, não tem medo e é engraçada. Quando fala com o público parece inteligente e esperta. GaGa é única.
Austin:
Você consegue sentir a ambição das pessoas?
Madonna:
Sim. Tem pessoas como Justin Timberlake que são muito bonitas e descontraídas. Ele é tipo um Cary Grant. Eu o amo e adoro trabalhar com ele, mas não me vejo nele. Mas me vejo em Lady GaGa, no começo da minha carreira com certeza. Quando a vi não tinha muito dinheiro para a produção, ela tinha buracos na meia calça e erros por toda parte. Era uma bagunça, mas GaGa tem algo especial e foi bom ver aquilo num palco simples.
Madonna apresentou-se com Lady Gaga, de forma surpreendente, no Saturday Night Live, programa de humor mais famoso dos EUA. Madonna apresentou-se com Lady Gaga, de forma surpreendente, no ‘Saturday Night Live’, programa de humor mais famoso dos EUA.
Austin:
Outro artista que você admira é Sting. O que você pode falar sobre ele?
Madonna:
Eu considero Sting meu amigo, mas sou mais amiga da mulher dele, Trudie. Ele é um músico incrível que toca cinquenta instrumentos diferentes. Sempre me sinto intimidada por ele e sempre acho que ele me olha com superioridade. Não querendo me deixar triste, mas eu sou uma ‘pop star’ e ele um músico de verdade. Nós não falamos sobre música quando estamos juntos. Sting geralmente está no canto jogando xadrez ou tocando um instrumento de dezesseis cordas que eu nem sei o nome.
Austin:
Ano passado você e Guy Ritchie se divorciaram…
Madonna:
Você não precisa abaixar o seu tom de voz ao falar sobre isso, não é nenhum palavrão. Eu pensei que nós íamos falar sobre música, talvez se você conseguir conectar isso com música eu falarei sobre o divórcio.
Austin:
Então vamos falar de uma parte da letra de ‘Devil Wouldn’t Recognize You’ do ‘Hard Candy’: ‘I should just walk away/ Over and over, I keep on coming back for more [Eu devia ir embora/ de novo e de novo, eu sempre volto para mais]‘.
Madonna:
O que eu posso dizer? Ano passado foi desafiador. O trabalho me salvou, estou muito grata que tenha tido trabalho para fazer, se não eu teria me atirado de um prédio. A vida é sempre ajustada. Meus filhos não estão comigo agora, estão com o pai deles. Não estou confortável com a idéia deles não viverem juntos. Existem prós e contras, mas eu me sinto bem agora.
Austin:
O que você adora ao ter filhos de três países diferentes?
Madonna:
Quanto mais diversificado é o mundo em que você vive, mais aberto você é. Meus dois mais novos são da África, o que abriu meus olhos e me deu uma nova perspectiva do mundo. Minha casa é como uma propaganda da Benetton. Tenho babás francesas, seguranças israelenses, assistentes da Argentina e Porto Rico e também um cheff japonês e outro italiano. É incrível, eu adoro! Não gostaria que fosse diferente, minha vida é uma mistura de diferentes línguas e músicas.
Austin:
Eu estive no show de ontem em Budapeste e fiquei chocado. Nenhuma das músicas foi apresentada na forma original.
Madonna:
Mesmo as minhas músicas novas, eu preciso reinventá-las ou depois de algumas vezes ficarei enjoada de todas. Quando você vai reinventá-las senta por dias com seu diretor musical e sua banda. Inevitavelmente acaba usando o ‘sample’ de alguém e daí precisa pedir permissão e pagar mais dinheiro. Já me disseram ‘você podia apenas ir lá, tocar violão e suas músicas como o Paul McCartney’ mas eu ficaria entediada. A alegria dos meus shows vem da mágica de criá-los – o teatro! Sou perfeccionista, gosto de trabalho duro, gosto de suar!
Austin:
Certamente. Você cantou ‘Into The Groove’ enquanto pulava corda.
Madonna:
Eu sempre tenho que fazer algo bem impossível nos meus shows e é esse o momento mais impossível. É muito difícil dançar e cantar ao mesmo tempo. É por isso que a maioria das pessoas que dançam não canta, pelo menos muito bem.
Austin:
Em ‘I’m Going To Tell You A Secret’, o seu documentário sobre a ‘Re-Invention Tour’, você está toda cheia de gelo como um jogador de basquete depois do show.
Madonna:
Depois do show eu sento numa banheira de gelo e fico lá por dez minutos. É doloroso ao entrar, mas você se sente tão bem depois. Sou uma atleta, meus tornozelos são enrolados antes dos shows e eu tenho terapia e tratamentos físicos. Isso vem de anos e anos de abusos dançando em salto alto, o que não é bom para seus joelhos. Todos os dançarinos têm machucados, mas temos que lidar com eles. Nós fazemos acupuntura e terapias e continuamos.
Austin:
Quando você olha para o público, o que você nota?
Madonna:
Algumas vezes é puro entusiasmo. Eu estava em Munique outro dia e tinha esse pai na primeira fila com sua filha nos ombros. Ela estava totalmente impressionada, sorrindo de orelha a orelha. Também do lado havia dois caras sem camisa cobertos de tatuagens minhas.
Austin:
Quando os fãs cantaram parabéns em Varsóvia você desmoronou em lágrimas.
Madonna:
Quando o público começa a chorar, tem um efeito contagiante. Chorar é complicado porque quando você chora não consegue cantar bem, sua garganta treme. Mas ao longo da turnê muitas coisas emocionantes aconteceram. Obama foi eleito logo antes de eu entrar no palco [em San Diego], nós rezamos antes do show e eu tinha lágrimas no meu rosto. Eu disse, ‘Eu me sinto como se estivesse vivendo um sonho’, então beijei o chão. Tenho vontade de chorar agora.
Austin:
Uma vez você disse à ‘Rolling Stone’, ‘Existem horas que eu penso que se eu soubesse que a fama seria assim não teria lutado tanto. Chega a ser demais, eu odeio ser examinada, eu não agüento mais!’. O que você pensa sobre a fama hoje em dia?
Madonna:
Vale à pena se você entender que também tem fim. Meu trabalho me permitiu fazer coisas fora do campo da música. Saber que minha experiência na África mudou a vida das pessoas para melhor, ver a vida deles mudando na minha frente, como eu não posso me sentir bem com isso? Eu não estou sempre bem, posso te afirmar. Ontem eu acordei no lado errado da cama, que bom que a entrevista foi hoje.
Austin:
Irritada?
Madonna:
Super irritada. Quando eu fico sem dormir não é muito engraçado. Você sabe, todo dia paro por um momento para pensar como minhas palavras e ações podem afetar as pessoas. Faço toda manhã e quando vou dormir, ‘O que vou fazer com o meu dia? O que fiz no meu dia?’.
Austin:
Na maioria das vezes, você está satisfeita?
Madonna:
Algumas vezes, mas outras vezes eu fracasso e penso que não faço nada a não ser causar caos. Mas sou um ser humano e erro, então depois eu esqueço de mim.
Rolling Stone Online: A rainha abre o coração
Nesta parte da entrevista [que só foi divulgada no site oficial da revista Rolling Stone], Madonna fala sobre como lida com as críticas, principalmente quando partem de sua filha Lourdes Maria, sua relação com Michael Jackson e Britney Spears.
Austin:
Sua energia no palco é incrível. Eu particularmente gostei de ‘Into The Groove’, que você cantou enquanto pulava corda na turnê Sticky & Sweet. Como você faz para manter tão boa forma?
Madonna:
Eu tenho dois programas de malhação. Aquele que eu faço em dias de shows, que deixa meu corpo aquecido e preparado de verdade, e aquele para quando estou de folga e que envolve tudo. O tipo de treinamento que eu faço incorpora desde o balé até Pilates, correr na esteira, pular corda, pular na cama elástica, ginástica olímpica, etc. exercitando todos os grupos musculares que eu uso para fazer o show. O mais importante é eu manter minha resistência cardiovascular. No começo da turnê passada eu estava patinando. Mas aí eu acabei desistindo de usá-los, pois vivia voando para fora da pista.
Austin:
Com que freqüência você chora no palco?
Madonna:
[Durante a turnê Sticky & Sweet] há um momento pouco antes de eu cantar ‘You Must Love Me’, que é uma canção bastante triste, quando tenho um tempo maior para conversar com a platéia. Nesta etapa da turnê, eu chorei quando estava falando a respeito dos dois homens que morreram no desabamento do meu palco em Marselha. Também chorei quando fiquei sabendo da morte de Michael Jackson.
Austin:
Você e Michael Jackson nasceram no mesmo mês, Agosto de 1958. Como foi para você vê-lo ainda criança fazendo tanto sucesso?
Madonna:
Eu era loucamente apaixonada por ele. Ele era muito talentoso. As músicas que ele cantava não eram nada infantis.
Austin:
Quando foi a primeira vez que você o viu pessoalmente?
Madonna:
Foi no começo dos anos 80, quando comecei a trabalhar com Freddy DeMann, que na época era empresário de Michael Jackson. Eu o vi no Madison Square Garden, e eu pirei. Ele foi impecável. Havia uma festa no Helmsley Palace Hotel. Ele era bastante tímido, mas para mim ele era único.
Austin:
Você sentia inveja dele?
Madonna:
De forma positiva. Queria ter escrito ‘Billie Jean’ e ‘Wanna Be Startin’ Something’. Não tem uma música dele que eu não goste.
Austin:
Dez anos depois surgiu um boato sobre um dueto, e, além disso, vocês foram juntos ao Oscar.
Madonna:
Houve uma época em que nós saíamos juntos. Ele queria trabalhar comigo. Penso que ele queria me conhecer e comecei a agir da mesma maneira. É uma experiência um pouco estranha compor com outra pessoa, porque você se sente vulnerável e tímido. Senti-me desse jeito quando trabalhei com Justin Timberlake. Compor com alguém é algo muito íntimo, é como ser atirada em um rolo compressor. ‘Em suas posições, preparem-se, criem!’. Você tem que superar esses obstáculos. Ou seja, ‘Eu quero impressionar esta pessoa, mas será que ela não vai achar minhas idéias estúpidas demais? E se as idéias dela forem estúpidas? Será que eu posso ser honesta com ela? Será que não irei ofendê-la?’. E aí você começa a conversar e a trocar idéias e você precisa agir assim para que a coisa aconteça de verdade, tem de ser criativa. E era isso que nós estávamos fazendo. Assistindo filmes, jantando, saindo, indo ao Oscar, agindo como duas crianças para ver se haveria química. Ele relaxou. Tirou os óculos escuros, bebeu uma taça de vinho, eu o fiz rir.
Austin:
Você é a única grande artista que não se deixou abater pelas críticas de que foi alvo ao longo dos anos. Por que você acha que elas conseguiram destruir a carreira de Jackson?
Madonna:
Tudo o que eu tenho são minhas opiniões, eu não tinha tanta intimidade assim com ele. É bom ter uma boa infância e ter noção de quem você é no mundo antes que as pessoas comecem a falar quem elas pensam que você é. Onde você pode cometer erros e ser inocente. Isso te dá mais noção de confiança. Não penso que ele tenha começado desta forma. Ele tinha alguma noção de quem ele era para o mundo, de ser adorado e ser famoso? É difícil sobreviver assim. Penso que ele se sentia inseguro sobre todas as atenções que recebia, e tinha uma relação de amor e ódio com seu trabalho. Ele não parecia ter amigos próximos. E na última década, todos o abandonaram, ou o taxaram de maluco. As pessoas dizem tantas mentiras a meu respeito e eu nunca pensei duas vezes sobre as acusações que fizeram contra ele, de que elas pudessem ser verdadeiras. Mas ele não parecia saber se defender, de forma pública ou privada, e isso pode te destruir. Quando ele morreu, todos começaram a falar sobre o quanto ele era um gênio, só que ninguém se lembrou de fazer isso enquanto ele estava vivo. É uma lástima.
Austin:
Britney Spears apareceu em um vídeo durante a música ‘Human Nature’ na sua turnê. Ela está presa em um elevador e começa a pirar. É a forma que você achou de fazer uma analogia com que aconteceu com a carreira dela?
Britney Spears chegou a fazer uma apresentação especial em 2008, na turnê Sticky & Sweet no show de Los Angeles Britney Spears chegou a fazer uma apresentação especial em 2008, na turnê Sticky & Sweet no show de Los Angeles
Madonna:
Sim. Não ficou bem clara minha intenção? ‘Não sou sua vadia, não venha me sacanear’. Eu penso que as pessoas deveriam cuidar de suas próprias vidas e deixá-la em paz para que ela cresça. Penso que todo mundo chega ao fundo do poço em algum momento da vida e ela, assim como o Michael Jackson, não teve infância de verdade, então há algo de inerente naquele cenário. Tenho muita compaixão por ela e espero que ela encontre harmonia em sua vida. Não faço idéia do quanto ela caiu. Mas as pessoas não deveriam acreditar em tudo o que lêem.
Austin:
Você descreveu a música como um veículo para transcender a miséria. Quando foi que você percebeu que a música tinha esse poder de cura?
Madonna:
Bem, todo mundo sabe que a música pode deixar você feliz, tirá-lo da pior e salvá-lo e, mesmo que você nem esteja ciente disso, está acontecendo. Não conheço uma única pessoa que não tenha dito, ‘Esta música salvou minha vida’, ‘Esta música foi a trilha sonora do meu verão’, ‘Esta música me tirou da forca’.
Austin:
Desde o começo, você foi classificada como ‘uma cantora de um único sucesso’. Em que momento você foi capaz de transformar essas opiniões em motivação? Eu acho que a virada definitiva aconteceu quando suas fotos nua apareceram na ‘Playboy’ e na ‘Penthouse’, e com a sua famosa frase ‘Não tenho vergonha’.
Madonna:
Foi algo que eu fiz e que estava totalmente fora do contexto, já que as fotos foram tiradas quando eu estava posando para aulas de fotografia. Foi tão injusto. Obviamente alguém estava tentando levar vantagem com o fato de eu estar ficando famosa e vendeu as fotos. Aquilo foi apenas uma forma de poder sobreviver quando eu cheguei à Nova York. Eu posava para aulas de arte: pintura, fotografia, desenho. Eu era bailarina, então eu era capaz de permanecer na mesma posição por um bom tempo e você conseguia ver os músculos do meu corpo. É um trabalho perfeitamente respeitável. Todos tentaram me deixar embaraçada, e tudo pareceu tão ridículo. Eu não diria que, a partir daquele momento, nada do que as pessoas dissessem a meu respeito pudesse me aborrecer, mas eu era capaz de usá-las como forma de, como você mesmo disse, motivação. Era o efeito contrário. Se você disser que eu não consigo, eu provarei que consigo. É como tudo na vida. Quanto mais resistência nós temos, mais pesados ficamos, mais seus músculos crescem. Possivelmente esta seja a razão de eu ainda ter uma carreira. Eu sempre lidei com resistência.
Austin:
Você acha que algumas das suas declarações e provocações de certa forma interferiram na qualidade da sua música?
Madonna:
É possível, mas tudo aconteceu como deveria acontecer. Não nego nada do que eu disse ou fiz. Lembro de quando estava fazendo meu documentário ‘I AM BECAUSE WE ARE’, e eu entrei na disputa no festival de Sundance. Uma mulher falou, ‘Você tem de decidir se quer ser uma artista ou uma ativista’. Então respondi, ‘E por que não posso ser ambas?’. Sempre agi desta forma.
Austin:
Em 1989, ninguém tentou impedi-la de dançar e cantar em frente às cruzes em chamas no clipe de ‘Like A Prayer’?
Madonna:
Para falar a verdade não foram muitas pessoas que se mostraram contra isso. Obviamente depois de pronto elas se mostraram contra, mas eu ignorei. Algumas vezes eu apenas o defendia. Eu penso que é desfragmentação religiosa, ou fanáticos que dizem fazer as coisas em nome de Deus, mas na realidade trazem sofrimento às vidas das pessoas é algo que precisa ser combatido, e eu senti que foi isso que eu estava fazendo. E quando eu cantei ‘Live To Tell’ na cruz [na 'Confessions Tour'] eu estava apoiando Jesus Cristo, pagando tributo à sua mensagem, que é a de amar ao próximo como a si mesmo, a de tratar as pessoas com dignidade. Mas os cristãos não gostaram muito da idéia.
Na 'Confessions Tour', Madonna causou polêmica ao cantar 'Like a Prayer' crucificada. Em 1989, o clipe da mesma canção foi banido em vários lugares do mundo por exibir cruzes pegando fogo e membros racistas. Na ‘Confessions Tour’, Madonna causou polêmica ao cantar ‘Live To Tell’ crucificada. Antes disso, porém, ela já causava polêmica junto à igreja Católica. Em 1989, o clipe de ‘Like A Prayer’ foi banido em vários lugares do mundo por exibir cruzes pegando fogo e membros racistas.
Austin:
Quem você considera um gênio musical? Como você define ‘gênio’?
Madonna:
‘Gênio’ quer dizer tantas coisas diferentes. Pode ser sobre a poesia, ou a melodia, ou o timbre da voz quando alcança uma determinada nota. Seja Cole Porter, Elvis Costello, Joe Henry, Stevie Wonder, Cat Stevens, David Bowie, Lou Reed, Chrissie Hynde, Joni Mitchell, Iggy Pop, Elton John, John Lennon ou Chris Martin.
Austin:
Você cantou ‘Imagine’ na sua ‘Re-invention Tour’. Onde você estava quando John Lennon foi assassinado?
Madonna:
Eu estava no Upper East Side. Lembro de estar descendo do trem na 72nd Street, algumas horas depois do que aconteceu e havia uma multidão e carros de polícia, foi uma loucura. Todos estavam chocados. A forma como aconteceu era perturbadora, a violência pode te deixar muito paranóico. O acidente de carro da Princesa Diana, e o evento trágico com Michael Jackson, essas coisas fazem você ficar parado. Toda vez que eu cantava ‘Imagine’ eu percebia as pessoas na primeira fila chorando. Era contagiante. John Lennon despertava isso nas pessoas.
Austin:
Você pode apontar algumas inspirações para alguns dos discos que gravou?
Madonna:
Há tantas pessoas que são inspiradoras, artistas e filósofos. Eu me inspiro em pessoas que quebram as regras, como Martin Luther King, Al Gore e Ghandi. Tenho mais heróis obscuros como Frida Kahlo, Martha Graham e Eleanor Roosevelt. Para o disco ‘American Life’ eu diria que as inspirações foram Michael Moore e Che Guevara. Eu sempre me inspirei em pessoas que não têm medo de expressar suas opiniões, e falar sobre sexo e provocações e o que é certo ou errado. O que é correto e incorreto no comportamento de homens e mulheres, e brincar com esses limites. Obviamente que eu sei que se eu tivesse nascido homem, muito do que eu disse e fiz jamais teria recebido a atenção que recebeu. Essa realidade é bem evidente na minha cabeça.
Austin:
Algumas das suas melhores músicas – ‘Live To Tell’, ‘Like A Prayer’, ‘Cherish’ – foram colaborações com o compositor e produtor Patrick Leonard. Por que essa relação foi tão bem sucedida?
Madonna:
Nós dois viemos da mesma região e, no fundo, ambos somos ‘nerds’. Ele é melancólico, e ele é um músico classicamente treinado com um incrível senso de melodia. Nós tivemos uma ótima química desde o começo, sempre surgíamos com algo interessante. Normalmente nós não escrevemos canções frívolas, embora tenhamos feito isso também. Mas existe algo de mágico na forma como compomos.
Austin:
Falando um pouco sobre suas letras, quais são os versos de que você mais gosta dos que escreveu ao longo dos anos?
Madonna:
Eu gosto das letras das músicas menos famosas. ‘Miles Away’ e ‘Devil Wouldn’t Recognize You’. Elas são mais pessoais e menos acessíveis. Eu adoro a letra de ‘Like It or Not’. [Cantando] ‘I’ll be the garden, you’ll be the snake, all of my fruit is yours to take, better the devil that you know, your love will surely grow’. E eu adoro ‘Paradise [Not For Me]‘. [Cantando] ‘I can’t remember when I was young, I can’t explain if it was wrong’.
Austin:
Qual a importância dos ‘hits’ para você?
Madonna:
Bem, elas são importantes, não vou mentir. Eu quero que a minha música seja acessível e alcance pessoas ao redor do mundo.
Austin:
Quem você gosta de ouvir?
Madonna:
Eu escuto música o tempo todo. Tenho muitos amigos que são DJs, ou então recebo coisas de outros artistas, dos meus agentes, ou vou a um clube ou simplesmente ouço rádio. As pessoas sempre trazem música para as minhas aulas de malhação e toda Terça-Feira eu confiro a lista do iTunes. Tenho dois amigos que são DJs em Nova York e eles estão sempre me apresentando coisas novas. Não vivo em uma bolha.
Austin:
Sua filha mais velha, Lourdes, lhe apresenta à nova geração musical?
Madonna:
Ela me apresentou Ting Tings. Há uma banda nova chamada Disco Bitch. Ela adora My Chemical Romance e já superou ‘a febre’ Jonas Brothers. Ela adora Lady Gaga, Ciara, T.I. e Justin. Vive com o iPod grudado nos ouvidos.
Austin:
Ela a critica?
Madonna:
Ah sim. Meus concertos, minha música. Ela é honesta de uma forma brutal, não apenas comigo, mas com todo mundo, sobre o que você está vestindo, com quem está namorando, as músicas que você ouve, cada escolha sua. Nós estamos usando o mesmo tamanho agora, ela pega as minhas roupas, meus sapatos, vive enfiada no meu armário. Além disso, ela está trabalhando na turnê agora. Agora parecemos mais como amigas e brigamos o tempo todo. Uma relação normal de mãe e filha que está passando pela puberdade.
Austin:
É muito incomum para você ser confrontada com opiniões tão honestas? Imagino que haja muitas pessoas andando em ovos quando você está por perto.
Madonna:
Eu penso que sou muito boa em identificar quando alguém tenta me sacanear. Eu prefiro pensar que tenho amigos que são honestos comigo e pessoas com quem trabalho que me dizem coisas que eu não quero ouvir. Eu tenho essas pessoas no meu dia a dia e tenho sorte de tê-las.
Austin:
Qual a função da Lourdes na turnê?
Madonna:
Ela ajuda os bailarinos a se vestir. Ela ajuda na maquiagem e no cabelo, vive fazendo experiências. É muito talentosa. Ela poderia tranquilamente ter sua própria linha de criação de roupas, pois ela tem muito estilo. Todos vivem lhe perguntando o que ela acha do visual deles. A ela, não a mim.
No último show da turnê em 2009, Madonna encerra a turnê ao lado da filha, que dançam juntas o hit 'Give It 2 Me'. No último show da turnê ‘Sticky & Sweet’, em 2009, Madonna encerra o show ao lado da filha, e elas dançam juntas o hit ‘Give It 2 Me’.
Austin:
Quais objetos você considera os de maior valor?
Madonna:
Eu tenho pilhas de cadernos com composições minhas de décadas. Outras coisas são mais maternais, como o primeiro sapatinho que minha filha usou, o primeiro fio de cabelo.
Austin:
É um sentimento agridoce, o rompimento com a Warner Bros., após passar sua carreira toda lá?
Madonna:
Não sei dizer. A indústria fonográfica que conhecemos não existe mais. O mercado musical hoje é completamente diferente do que era no começo. É uma evolução natural. Por um lado, está bem melhor agora, porque os jovens têm a chance de se lançar no mercado sem tanta burocracia e sem intermediários, toda aquela bobagem que só atrapalha. Por outro lado, não há ninguém dando apoio para que elas sigam em frente. Não sei qual a solução para isso. Acredito que vai voltar tudo à estaca zero outra vez. Mas eu me sinto bem assim.
Madonna entra para o Rock And Roll of Fame em 2008 e recebe o prêmio de Justin Timberlake. Madonna entra para o ‘Rock and Roll Hall of Fame’ em 2008 e recebe o prêmio de Justin Timberlake.
Austin:
Na entrega do Rock And Roll Hall Of Fame, você resumiu seu discurso dizendo, ‘Tudo se volta para a música’. Você pensa no seu legado ou, daqui a cem anos, em como você será lembrada?
Madonna:
Não necessariamente. Mas quando eu faço meus shows e vejo como a música carrega as pessoas, mais do que qualquer coisa quando eu vejo as pessoas chorando, ou estáticas, é como a música afeta as pessoas e o poder que ela tem, sobre qualquer outra forma de arte. Sinto-me tão inspirada por outras pessoas – sou um ser humano como qualquer outro. Nós devemos todos partilhar dessa mesma conexão. Sinto-me privilegiada e abençoada por ser um canal para a música. No fim das contas, as pessoas irão pensar no sapato que usei no VMAs ou na minha foto nua no jornal, ou vão se lembrar de ‘Live To Tell’? Penso que no fim das contas elas irão se lembrar da autenticidade. Elas se lembram do que é verdade, e o resto
sábado, 18 de junho de 2011
Entrevista com Ian Anderson.
Feita recentemente.
O Jethro Tull já esteve no Brasil diversas vezes, mas agora a banda traz na bagagem um show batizado de Acoustic/Electric Tull Concerts. Poderia dar mais detalhes sobre este espetáculo e dizer no que ele difere dos demais já apresentados aqui?
Digo que esta é uma turnê acústica e elétrica porque a banda vem se revezando entre duas turnês, uma totalmente acústica e uma elétrica e acústica. É esta última que estamos levando ao Brasil e que, na verdade, é o que fazemos desde 1969, ou seja, mesclar canções acústicas e elétricas. Não gosto de rotular nosso show como acústico e nem como um show de rock, porque o Jethro Tull não é uma banda de rock, como são Iron Maiden ou Motörhead. Nós usamos instrumentos acústicos e eu sempre fui um músico acústico. Batizamos a turnê desta maneira, porque é a melhor definição que encontramos, afinal de contas, tocamos canções acústicas, algumas totalmente totalmente elétricas e outras que misturam ambas as coisas.
Programe-se
E quanto ao repertório do show? O que a banda está planejando?
O repertório será especialmente formado por canções clássicas como “Aqualang”, “Locomotive Breath”, “Thick as a Brick” e “Budapest”; outras mais obscuras que também fazem parte da nossa extensa discografia; possivelmente duas canções inéditas; além de composições de outros artistas. Como sempre, tentamos montar um repertório que não fique preso apenas aos nossos grandes hits, pois isso seria muito chato para nós, então também tentamos mostrar um lado mais obscuro do nosso trabalho. Até porque muita gente já assitiu a um show do Jethro Tull e não queremos que elas vejam sempre a mesma coisa. É possível dizer que este show é no mínimo 67% diferente do que o show passado que apresentamos no Brasil.
E quanto ao público da banda, que todos sabem ser bastante fiel, seria possível afirmar que pelo menos 90% das pessoas que vão aos shows do Jethro Tull no Brasil nesta turnê são as mesmas que estiveram presentes em outras ocasiões em que grupo passou pelo país?
Acho que 90% é muita coisa. Talvez uns 70%, porque há muitas pessoas na platéia que estão assistindo ao primeiro show do Jethro Tull de suas vidas. Para estas, tocamos nossas músicas mais famosas. Para as que já tiveram a oportunidade de conferir o show desta turnê em outras ocasiões, fazemos algo diferente. Tentamos sempre manter em mente que há pessoas diferentes na platéia todos os dias, então tentamos apresentar um show interessante para todas elas. Meu compromisso é fazer com que todos sintam-se levemente desconfortáveis (risos).
O que você quer dizer com isso exatamente? Desconfortáveis em que sentido?
Acho que o Jethro Tull seria muito mais conhecido se fôssemos uma banda de rock pesado. Se ainda hoje tocássemos como na época das turnês de Aqualung (1971) e Thick as a Brick (1972) seria como uma “quick fix” (dose mínima para atingir o efeito de uma certa droga), como uma picada de heroína ou uma carreira de cocaína, seria como uma forte dose de uma droga poderosa. Mas eu não me interesso por drogas de nenhum tipo. O que quero dizer, é que minha música é desafiadora em certos termos. Quando digo que meu objetivo é deixar as pessoas levemente desconfortáveis, é a mais pura verdade. Eu gosto da tensão que consigo criar no público com algo estranho ou pouco familiar. Acho necessária a existência dos elementos de confusão e dúvida que surgem nas pessoas diante de algo que elas não têm certeza se gostam ou não. E nós temos apenas alguns minutos para tentar convecê-las de que sim, elas poderão gostar daquilo, se ao menos experimentarem. Não gostaria de ser parte daquele tipo de banda que simplesmente entrega a mercadoria na porta do freguês sabendo que ele mesmo poderia ter comprado tudo se tivesse ido ao supermercado. Eu não quero ser como um entregador de mercearia, que vai até a sua casa entregar exatamente o que você deseja comer todos os dias. Quero poder entregar algo que a pessoa nunca tenha comido antes, e que talvez até tenha uma sabor esquisito, mas de que ela talvez goste. É importante experimentar novos ingredientes quando você se senta numa mesa para jantar, assim como quando você se senta num auditório para assistir a um concerto musical.
Acha então que o experimentalismo presente na sonoridade do Jethro Tull pode ser um dos fatores que atraem novas gerações a mergulhar no universo da banda?
Acho que as pessoas mais jovens vêm aos nossos shows principalmente porque é o tipo de música que seus pais passaram a vida ouvindo. Se você vai a um show dos Rolling Stones, com certeza não é porque está interessado nas canções do álbum mais recente deles. Você quer mesmo é conferir ao vivo os clássicos dos anos 60, talvez alguns dos anos 70, mas algo além disso, esqueça. Ninguém é a fim de ouvir o que eles fizeram a partir dos anos 80 e acho que esse é o maior problema deles. Mas desde o começo, em 1969, eu sempre busquei me aventurar cada vez mais musicalmente e, talvez por isso, nossos fãs estejam mais acostumados com o fato de o Jethro Tull fazer algo de mais mérito. Os mais novos querem ver qual é o encanto que a nossa música produz, desejam tentar descobrir e entender o porquê de seus pais gostarem mais das nossas canções do que de “Stairway to Heaven” (risos).
A banda está trabalhando em um novo álbum certo? Em que estágio está sua realização e quando pretendem lançá-lo?
Temos cerca de oito canções prontas, mas só vamos voltar ao estúdio em setembro, quando pararmos de viajar. Então, acredito que o novo álbum deve ficar pronto apenas no final do ano, com lançamento previsto para o início de 2008. Acham que conseguem esperar tanto tempo? (risos)
Seu interesse em instrumentos variados e músicas de diferentes culturas são beneficiados pelo fato de estar constantemente viajando pelo mundo? Aproveita as turnês da banda para conhecer novos artistas de países diferentes, que possam agregar algo a mais à sonoridade do Jethro Tull?
Sempre que viajamos recebo CDs de pessoas que vão aos nossos shows, escuto algo que está tocando nos elevadores ou vazando pela janela de algum carro. Dia desses recebi um CD de um músico brasileiro e fiquei bastante interessado em ouvir, pois ele era um flautista. Mas acabei ficando bastante decepcionado, pois além de não ser nada diferente do que eu já havia ouvido, percebi que ele tentava emular a minha maneira de tocar. Mas este não é um problema exclusivamente brasileiro. Por todos os lugares que passo recebo álbuns de bandas novas que não passam de imitações. A garotada de hoje assiste a muita MTV e acha que não há nada de errado em simplesmente copiar o que anda sendo feito em outros países. Não vejo nada de errado em aproveitar elementos musicais de outras culturas, mas desde que seja algo que sirva para intensificar a música que já se faz, e não para simplesmente reproduzi-la com a pretensão de soar original.
Nesse sentido, podemos dizer que há algo de brasileiro em sua formação musical?
Sim, é perfeitamente correto fazer esta afirmação, mas não em relação ao rock contemporâneo que é produzido aí, e sim ao jazz e à música clássica brasileira. Pode parecer estranho, mas mesmo quando adolescente eu nunca gostei de ouvir rock. Sempre gostei mais de jazz, música clássica e principalmente folk. Todos os dias ouço rock, de bateria estridente e guitarras altas, durante duas horas, que é o tempo em que estou no palco. Fora dele, procuro fugir de instrumentos em volumes intensos e ouço coisas completamente diferentes do que acabei de tocar para acalmar os ânimos após os shows.
O Jethro Tull já esteve no Brasil diversas vezes, mas agora a banda traz na bagagem um show batizado de Acoustic/Electric Tull Concerts. Poderia dar mais detalhes sobre este espetáculo e dizer no que ele difere dos demais já apresentados aqui?
Digo que esta é uma turnê acústica e elétrica porque a banda vem se revezando entre duas turnês, uma totalmente acústica e uma elétrica e acústica. É esta última que estamos levando ao Brasil e que, na verdade, é o que fazemos desde 1969, ou seja, mesclar canções acústicas e elétricas. Não gosto de rotular nosso show como acústico e nem como um show de rock, porque o Jethro Tull não é uma banda de rock, como são Iron Maiden ou Motörhead. Nós usamos instrumentos acústicos e eu sempre fui um músico acústico. Batizamos a turnê desta maneira, porque é a melhor definição que encontramos, afinal de contas, tocamos canções acústicas, algumas totalmente totalmente elétricas e outras que misturam ambas as coisas.
Programe-se
E quanto ao repertório do show? O que a banda está planejando?
O repertório será especialmente formado por canções clássicas como “Aqualang”, “Locomotive Breath”, “Thick as a Brick” e “Budapest”; outras mais obscuras que também fazem parte da nossa extensa discografia; possivelmente duas canções inéditas; além de composições de outros artistas. Como sempre, tentamos montar um repertório que não fique preso apenas aos nossos grandes hits, pois isso seria muito chato para nós, então também tentamos mostrar um lado mais obscuro do nosso trabalho. Até porque muita gente já assitiu a um show do Jethro Tull e não queremos que elas vejam sempre a mesma coisa. É possível dizer que este show é no mínimo 67% diferente do que o show passado que apresentamos no Brasil.
E quanto ao público da banda, que todos sabem ser bastante fiel, seria possível afirmar que pelo menos 90% das pessoas que vão aos shows do Jethro Tull no Brasil nesta turnê são as mesmas que estiveram presentes em outras ocasiões em que grupo passou pelo país?
Acho que 90% é muita coisa. Talvez uns 70%, porque há muitas pessoas na platéia que estão assistindo ao primeiro show do Jethro Tull de suas vidas. Para estas, tocamos nossas músicas mais famosas. Para as que já tiveram a oportunidade de conferir o show desta turnê em outras ocasiões, fazemos algo diferente. Tentamos sempre manter em mente que há pessoas diferentes na platéia todos os dias, então tentamos apresentar um show interessante para todas elas. Meu compromisso é fazer com que todos sintam-se levemente desconfortáveis (risos).
O que você quer dizer com isso exatamente? Desconfortáveis em que sentido?
Acho que o Jethro Tull seria muito mais conhecido se fôssemos uma banda de rock pesado. Se ainda hoje tocássemos como na época das turnês de Aqualung (1971) e Thick as a Brick (1972) seria como uma “quick fix” (dose mínima para atingir o efeito de uma certa droga), como uma picada de heroína ou uma carreira de cocaína, seria como uma forte dose de uma droga poderosa. Mas eu não me interesso por drogas de nenhum tipo. O que quero dizer, é que minha música é desafiadora em certos termos. Quando digo que meu objetivo é deixar as pessoas levemente desconfortáveis, é a mais pura verdade. Eu gosto da tensão que consigo criar no público com algo estranho ou pouco familiar. Acho necessária a existência dos elementos de confusão e dúvida que surgem nas pessoas diante de algo que elas não têm certeza se gostam ou não. E nós temos apenas alguns minutos para tentar convecê-las de que sim, elas poderão gostar daquilo, se ao menos experimentarem. Não gostaria de ser parte daquele tipo de banda que simplesmente entrega a mercadoria na porta do freguês sabendo que ele mesmo poderia ter comprado tudo se tivesse ido ao supermercado. Eu não quero ser como um entregador de mercearia, que vai até a sua casa entregar exatamente o que você deseja comer todos os dias. Quero poder entregar algo que a pessoa nunca tenha comido antes, e que talvez até tenha uma sabor esquisito, mas de que ela talvez goste. É importante experimentar novos ingredientes quando você se senta numa mesa para jantar, assim como quando você se senta num auditório para assistir a um concerto musical.
Acha então que o experimentalismo presente na sonoridade do Jethro Tull pode ser um dos fatores que atraem novas gerações a mergulhar no universo da banda?
Acho que as pessoas mais jovens vêm aos nossos shows principalmente porque é o tipo de música que seus pais passaram a vida ouvindo. Se você vai a um show dos Rolling Stones, com certeza não é porque está interessado nas canções do álbum mais recente deles. Você quer mesmo é conferir ao vivo os clássicos dos anos 60, talvez alguns dos anos 70, mas algo além disso, esqueça. Ninguém é a fim de ouvir o que eles fizeram a partir dos anos 80 e acho que esse é o maior problema deles. Mas desde o começo, em 1969, eu sempre busquei me aventurar cada vez mais musicalmente e, talvez por isso, nossos fãs estejam mais acostumados com o fato de o Jethro Tull fazer algo de mais mérito. Os mais novos querem ver qual é o encanto que a nossa música produz, desejam tentar descobrir e entender o porquê de seus pais gostarem mais das nossas canções do que de “Stairway to Heaven” (risos).
A banda está trabalhando em um novo álbum certo? Em que estágio está sua realização e quando pretendem lançá-lo?
Temos cerca de oito canções prontas, mas só vamos voltar ao estúdio em setembro, quando pararmos de viajar. Então, acredito que o novo álbum deve ficar pronto apenas no final do ano, com lançamento previsto para o início de 2008. Acham que conseguem esperar tanto tempo? (risos)
Seu interesse em instrumentos variados e músicas de diferentes culturas são beneficiados pelo fato de estar constantemente viajando pelo mundo? Aproveita as turnês da banda para conhecer novos artistas de países diferentes, que possam agregar algo a mais à sonoridade do Jethro Tull?
Sempre que viajamos recebo CDs de pessoas que vão aos nossos shows, escuto algo que está tocando nos elevadores ou vazando pela janela de algum carro. Dia desses recebi um CD de um músico brasileiro e fiquei bastante interessado em ouvir, pois ele era um flautista. Mas acabei ficando bastante decepcionado, pois além de não ser nada diferente do que eu já havia ouvido, percebi que ele tentava emular a minha maneira de tocar. Mas este não é um problema exclusivamente brasileiro. Por todos os lugares que passo recebo álbuns de bandas novas que não passam de imitações. A garotada de hoje assiste a muita MTV e acha que não há nada de errado em simplesmente copiar o que anda sendo feito em outros países. Não vejo nada de errado em aproveitar elementos musicais de outras culturas, mas desde que seja algo que sirva para intensificar a música que já se faz, e não para simplesmente reproduzi-la com a pretensão de soar original.
Nesse sentido, podemos dizer que há algo de brasileiro em sua formação musical?
Sim, é perfeitamente correto fazer esta afirmação, mas não em relação ao rock contemporâneo que é produzido aí, e sim ao jazz e à música clássica brasileira. Pode parecer estranho, mas mesmo quando adolescente eu nunca gostei de ouvir rock. Sempre gostei mais de jazz, música clássica e principalmente folk. Todos os dias ouço rock, de bateria estridente e guitarras altas, durante duas horas, que é o tempo em que estou no palco. Fora dele, procuro fugir de instrumentos em volumes intensos e ouço coisas completamente diferentes do que acabei de tocar para acalmar os ânimos após os shows.
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