domingo, 12 de junho de 2011

Entrevista com Rob Halford.

Você está com uma nova empreitada, a gravadora Metal God Entertainment (MGE). Quando veio a idéia de criá-la?
Rob Halford: Criamos a MGE, Metal God Entertainment, para estabelecer os parâmetros de download através do site robhalford.com. Este é apenas um negócio novo, uma aventura, que foi elaborada especialmente para os meus fãs em todo o mundo - sejam do Halford, do Judas Priest, do Fight ou os de Metal em geral -, que terão a chance de baixar músicas exclusivas através da iTunes da Apple (N.R.: iTunes é um programa da Apple no segmento de música digital, onde o internauta pode baixar e comprar músicas instantaneamente; sendo possível organizá-las por data, artista, ritmo, ordem alfabética, etc; e os usuários podem comprar músicas no formato MP3, gravar CDs ou exportar para um iPod.).

E o primeiro som liberado para download através deste sistema é Forgotten Generation, do Halford...
Halford: Sim, esta é a primeira música do Halford em quatro anos!

Na seqüência, quais serão os lançamentos?
Halford: Já estamos promovendo o relançamento do Crucible e do Resurrection, além do ao vivo Live Insurrection. Também será lançada uma compilação (N.R.: Halford: Metal God Essentials - Volume 1), contendo quinze músicas, sendo algumas tiradas de antigos Demos do Fight, as músicas novas - Forgotten Generation e Drop Out - e outras bem conhecidas.

Tudo isto só será possível de ser adquirido através deste sistema?
Halford: Inicialmente sim, somente através do iTunes da Apple. Mas eu estou trabalhando para que isto também esteja disponível em meu site na área de download. Estas são as novidades!

O que você pode falar a respeito das novas músicas do Halford, a Forgotten Generation e a Drop Out?
Halford: Elas realmente têm a essência e o estilo único da banda Halford. É difícil fazer algum tipo de comparação com os álbuns anteriores, mas eu acho que a Forgotten Generation tem algum tipo de vibração contida na Made In Hell, do Resurrection. Já a Drop Out tem mais a cara daquele Metal mais viajante dos anos 70. No final, o que mais importa é que após quatro anos os meus fãs e os do Priest poderão escutar algo novo do Halford!

Já que citou anteriormente sobre a inclusão de antigas Demos do Fight, você sente saudades daquela época? Aqui no Brasil o Fight obteve uma grande receptividade e aquele show no Olympia (SP) foi memorável!
Halford: Sim! Eu me lembro de tudo que aconteceu em São Paulo na época do Fight! Os fãs da América do Sul realmente enlouqueceram nos shows e o War Of Words foi mesmo um sucesso por aí. Em São Paulo tudo foi fantástico! Eu sinto falta sim, ainda mais porque eu sinto que havia algo mágico naquela banda, mas já faz mais de uma década e muita coisa aconteceu na minha vida desde então. Aquele foi um momento muito bom para mim, porque eu estava conseguindo realizar tudo que eu tinha em mente para o Fight.

Então foi por isso que você incluiu as Demos antigas do Fight, porque se fosse algo que não tivesse o agradado certamente você nem falaria a respeito, não?
Halford: Existem muitas coisas interessantes da época do Fight, material Demo incrivelmente agressivo! Era um som único, com personalidade, e já que tínhamos estes arquivos guardados, quisemos que os fãs também tomassem conhecimento, ainda mais que são versões diferentes de sons conhecidos, como War Of Words, Nailed To The Gun e Kill It. Os fãs do Fight certamente vão curtir muito!

O Fight pode mesmo ser considerado um fenômeno no Brasil e até hoje em dia passa o clipe da Nailed To The Gun em programas especializados em Metal na televisão, incluindo a MTV/Brasil...
Halford: Eu estava conversando com o Roy Z um dia desses, falando que seria legal fazermos algo novo com o Fight e ele me olhou com aquela cara de espanto. Mas é que esta banda tem algo realmente diferente e especial que nem eu consigo explicar direito. Então, nunca se sabe o que poderá acontecer e não afirmo que é 100% certo de que gravaremos material novo com o Fight, mas eu estou seriamente propenso a levar esta idéia adiante no futuro.

Até mesmo o nome da banda casa de forma perfeita com o som!
Halford: Justamente! E todo mundo sabe o que significa Fight (N.R.: Luta, em português). É um nome bem violento, explosivo e traduz de forma fiel toda a musicalidade da banda.

E quanto ao lançamento do DVD do Halford ao vivo no "Rock In Rio"?
Halford: Quando eu estava com o Maiden fizemos uma turnê mundial, que culminou com o show no "Rock In Rio", em frente a mais de cem mil fãs, que adoraram nossa performance! Aquele show foi filmado e Roberto (Medina), idealizador do "Rock In Rio", foi muito legal comigo, dizendo que poderíamos usar as imagens de toda a apresentação. No EP Silent Screams que está saindo pelo sistema de download que falei, consta o vídeo ao vivo desta música gravado no "Rock In Rio 3", além de outras versões dela, incluindo a Demo. No meu site oficial consta um trecho deste vídeo do festival, que foi algo realmente incrível para a minha carreira. Em breve, o DVD completo será lançado.

Você sempre se anima quando lembra de suas performances no "Rock In Rio", com o Judas Priest e o Halford, não?
Halford: Claro! A primeira foi aquela noite com Guns N' Roses, e foi espetacular. O "Rock In Rio" é sempre uma grande experiência para todos os envolvidos com a música. Eu acho que para nós tudo aquilo foi fascinante, pois tocamos para uma das maiores platéias de Metal. Aquelas memórias nunca saíram de nossas mentes! Aquele momento para o Judas Priest foi muito importante. Bem que queríamos repetir a dose. Quem sabe?...

Mas agora então para repetir a dose você terá que ir para Portugal, no "Rock In Rio Lisboa"...
Halford: Eu sei disso, mas acredito que se todos nós rezarmos bastante, poderemos ter novamente um "Rock In Rio", no Rio (risos). O Judas Priest iria adorar repetir a dose!

Roy Z esteve recentemente no Brasil, mas ele ainda pertence ao Halford?
Halford: Sim, está conosco. A formação da banda Halford conta com o Roy, além de Metal Mike Chlasciak, Bobby Jarzombek e Mike Davis. Roy agora é uma lenda e adora mesmo ir ao Brasil, já que suas raízes são da América do Sul. Ele é um cara incrível e um fantástico produtor, um compositor de mão cheia e um talentoso guitarrista. E também tem orgulho das raízes dele e por isso sempre se diverte muito aí no Brasil.

Na festa do "Live 'N' Louder Rock Fest", realizada no Manifesto Bar, em São Paulo (SP), ele riu bastante quando fomos tirar uma foto e eu pedi para que ele segurasse um papel escrito: "Prefiro Resurrection ao Demolition", e ele se recusou...
Halford: (risos) Ele é assim mesmo, bem centrado, educado e humilde. Um cara legal mesmo! E ele fala português fluente. Nós estávamos trabalhando certo dia e ele recebeu um telefonema e começou a falar, aí eu pensei: 'Lá vai o Roy com aquele seu português enrolado' (risos).

Voltando para a Metal God Entertainment (MGE), você pretende lançar todo o material que citou aqui no Brasil?
Halford: Estamos trabalhando bastante para que todos os fãs ao redor do mundo possam adquirir o material da Metal God Entertainment, não só os que possuem o iTunes da Apple. Mas o que acontece mesmo é que em breve os CDs se tornarão obsoletos, não podemos negar isso. Ele vai ficar da mesma forma que as fitas K-7 e os álbuns de vinil. Mesmo assim, eu acho que os fãs sul-americanos merecem ter as mesmas oportunidades e chances que qualquer outro do mundo para se envolver nesta nova tecnologia. Eu sei que os sul-americanos também começarão a abraçar este novo modelo e ficarão animados.

E quanto ao Judas Priest, como estão os trabalhos para o novo álbum de estúdio?
Halford: Estamos gravando o novo álbum, que se chamará Nostradamus, que será uma espécie de Ópera Metal. K.K. (Downing) e Glenn (Tipton) estão finalizando as guitarras neste momento na Inglaterra. Eu estou trabalhando nas letras e irei para lá gravar os vocais assim que eles tiverem finalizado as sessões de guitarra. Irei gravar no mesmo estúdio onde fizemos o Angel Of Retribution.

Como está sendo este novo desafio de escrever letras para um disco conceitual sobre Nostradamus (N.R.: Michel Nostradamus foi um médico, filósofo e astrólogo francês do Século 16)?
Halford: Eu sei que os fãs do Priest curtem os personagens que falamos no passado, como o 'Painkiller', o 'Ripper, o 'Hellrider' ou o 'Sinner', mas agora temos que falar deste homem que viveu no século 16 e este é um novo desafio.

Musicalmente, o que você pode adiantar a respeito do novo CD do Judas Priest?
Halford: Ele terá todos os elementos que os fãs gostam. Temos aquelas músicas mais aceleradas, as mais agressivas, a balada, as clássicas e típicas do Priest, mas a novidade será a adição de orquestra e coros, ou seja, uma nova dimensão para nosso som. Nunca tememos novos desafios e mudanças, e por isso, que queremos levar o Priest a um novo patamar. Acho que para os fãs não será tão difícil de assimilar, porque é puro Metal! Somente o lado de ser um álbum conceitual é algo realmente novo e diferente do que estávamos acostumados.

Como vocês vão fazer na nova turnê? Irão tocar o álbum Nostradamus inteiro?
Halford: Sim, nossa turnê - que ocorrerá entre 2007 e 2008 - será dividida em duas partes. Faremos primeiro a do Nostradamus, que eu queria muito apresentar em São Paulo e no Brasil, e depois uma mais, digamos, normal contendo todos os clássicos. O set com o álbum conceitual terá um cenário especial, como efeitos de ilusionismo, muita iluminação e vários efeitos para podermos contar a história.

Passada o impacto do seu retorno, qual a sua análise sobre o Angel Of Retribution?
Halford: Eu acho que foi um bom álbum de retorno. Ele agora está andando com suas próprias pernas, se é que me entende. Ele deve ser encarado como um dos importantes momentos da história do Priest. Olhando para trás e vendo nossa discografia eu poderia dizer que os pontos mais importantes foram nos álbuns Sad Wings Of Destiny, Stained Class, British Steel, Screaming For Vengeance, Painkiller e o Angel Of Retribution. Curto muito as faixas Judas Rising, Hellrider e a Loch Ness, que espero poder tocar para os fãs brasileiros em uma próxima visita.

Entrevista publicada na edição #96 da revista ROADIE CREW (janeiro de 2007)

Frases de Janis Joplin.

Frases da eterna estrela do rock.




* Algumas vezes a música é a única forma de melhorar a vida! [ Janis Joplin ]
* Vivo para o momento das apresentações, cheia de emoção e excitação, como esperando por alguém a vida toda. [ Janis Joplin ]
* Largue-se e você será muito mais do que jamais sonhou ser. [ Janis Joplin ]
* Costumo ter problemas nos bares por causa de minha aparência. Entao, ou você fica furiosa e vai embora, ou mostra o dinheiro e obriga os idiotas a engolirem você. [ Janis Joplin ]
* Estão me pagando US$50.000 por ano para que eu seja como eu sou. [ Janis Joplin ]
* Nos meus shows, a maioria das garotas estão procurando liberação, e elas pensam que eu vou lhes mostrar como se consegue isso. Mas na primeira fila sempre ficam as grã-fininhas, as comportadinhas, as putinhas reprimidas que ficam esperando todo mundo começar a gritar e dançar para poderem dançar e gritar também. Elas chegam num determinado ponto que eu sei que estão prontas, mas não têm coragem. Então precisam de um pé-na-bunda para se levantarem também. Aí é que eu entro: eu lhes dou esse chute na bunda! eu fui criada exatamente como elas. Sim. Logo, eu sei o que elas têm nessas cabecinhas estúpidas e vazias. [ Janis Joplin ]
* É preferível viver 10 anos intensamente à 70 anos vegetando em frente a uma televisão. [ Janis Joplin ]
* Às vezes olho para minha própria cara e acho que ela está bem ‘rodada’. Mas, considerando tudo pelo que já passei, não me acho tão mal assim. [ Janis Joplin ]
* Minha música é sobre o sofrimento, sua vigência. Sua presença. [ Janis Joplin ]
* Tenho medo de acabar me tornando uma dessas velhas bêbadas e roucas, que ficam vadiando pela rua assediando rapazinhos. [ Janis Joplin ]
* Tudo é sentimento… como sexo, só que mais abrangente. É uma mistura de amor, desejo e calor; aquela coisa em nossos corpos que todos nós sacamos… Quando estou cantando não penso. Só fico ali, com os olhos fechados, sentindo, me sentindo bem. Obs.: Em uma entrevista a Hubert Saal do Newsweek em 24 de fevereiro de 1969. [ Janis Joplin ]
* Não se venda: você é tudo o que tem! [ Janis Joplin ]
* Posso não durar tanto quanto outras cantoras mas sei que posso destruir-me agora se me preocupar demais com o amanhã. [ Janis Joplin ]
* Eu canto com a minha alma, com o meu corpo, com o meu sexo… Eu canto toda! [ Janis Joplin ]
* Se você não quer nada, não se conforma, você não sente dor, sofrimento. Blues é querer uma coisa que você não tem. [ Janis Joplin ]
* Acho que nunca mais encontrarei um grupo tão bom. Ainda gosto muito deles, como sempre gostei. Acho que nossa separação não foi culpa de ninguém, simplesmente aconteceu. A gente vivia numa atividade contínua desde que a gente explodiu, e eu te digo, isso é muito desgastante. Chegou uma hora que não havia mais sinceridade onde eu cantava. Obs.: Janis em 1970, uma de suas últimas entrevistas. [ Janis Joplin ]
* Eu trocaria todos os meus amanhãs por um único ontem. [ Janis Joplin ]
* Se me importo com o que dizem de mim? O pior que podem falar de mim é que nunca estou satisfeita com nada. [ Janis Joplin ]
* Nunca fui capaz de controlar meus sentimentos, mantê-los lá dentro. Antes, isso estragava a minha vida, sempre fui uma vítima de mim mesma. Eu vazia coisas erradas, fugia, ficava maluca. Agora faço esse sentimento trabalhar para mim, através da música, ao invés de me destruir. [ Janis Joplin ]
* Acho que o público gosta de ver seus artistas prediletos sofrendo. Especialmente se forem cantores de blues! ‘Oh… Billie Holliday é Junkie… ela morreu… oh…’ Bem, eu digo que não vou dar esse gostinho à ninguém: estou aqui para me divertir e vou tentar curtir a vida ao máximo. Obs.: Janis, num comentário sobre Billie Holliday, uma de suas maiores influências. [ Janis Joplin ]
* Eu quero ver como vai ser a música daqui a uns cinco anos. Eu comecei com música rudimentar, mas os jovens de hoje têm uma base musical incrível: Eles possuem a liberdade completa que o rock conseguiu! Eles cresceram ouvindo Jefferson Airplane, Milles Davis, Grateful Dead, enfim, todo mundo. Ah! Mal posso esperar para ver o que essa garotada vai estar tocando daqui a cinco anos!!! Só espero estar por lá nesta época. Quero cantar com eles, ou, pelo menos, ter grana para vê-los tocar. Obs.: Janis, semanas antes de morrer. [ Janis Joplin ]
* Meu negócio é aproveitar e me divertir. E por que não, se no fim tudo vai acabar mesmo? [ Janis Joplin ]
* Algum dia eu ainda irei compor uma música que explique o que é fazer amor com 25.000 pessoas durante um show e depois voltar para casa sozinha. [ Janis Joplin ]
* A única coisa que se tem e que realmente vale são os sentimentos. Isto é que é música para mim. [ Janis Joplin ]

Entrevista com Roger Waters.

Entrevista de março de 2002.







Veja – Na sua opinião, canções como as do Pink Floyd realmente podem ser incluídas na categoria "grande arte"?
Roger Waters – Assim como há quadros que são meros borrões e outros que são geniais, na música pop há bobagens e autênticas obras de arte. Não tenho dúvida de que os discos The Dark Side of the Moon e The Wall, do Pink Floyd, além de meu trabalho solo Amused to Death, se encaixam na segunda categoria.

Veja – O Pink Floyd fez a trilha sonora de um filme de arte, Zabriskie Point, do italiano Michelangelo Antonioni. Seus ex-companheiros de banda qualificam esse trabalho de "equívoco". Foi mesmo?
Waters – Meus ex-companheiros nem sequer foram a Roma na época da edição do filme. Fui eu quem passou várias tardes no estúdio Cinecittà, na mesa de mixagem. As duas semanas de trabalho ao lado de Antonioni estão entre as melhores de minha vida. O que os outros dizem não me interessa.

Veja – Que tal a atual encarnação do Pink Floyd?
Waters – O som deles parece tudo, menos Pink Floyd. A razão é simples: eu era o letrista e principal compositor da banda. Os outros são desprovidos desses talentos. Precisam apelar para terceiros, e assim não fazem justiça ao nosso velho estilo.

Veja - O que o show do senhor tem que o Pink Floyd atual não tem?
Roger Waters - Além da minha presença? Bem, é uma antologia da minha carreira desde 1967, quando compus Set the Controls for the Heart of the Sun, até as canções dos meus trabalhos solo. Apresento ainda uma música inédita, chamada Each Small Candle. O meu show tem ainda projeção de slides feitos a base de água e óleo, para dar um clima psicodélico, além de fotos de nativos americanos feitas por Edward Curtis. Além, é claro, do som quadrifônico, que me acompanha desde o início da minha carreira.

Veja - O senhor perdeu seu pai durante a Segunda Guerra Mundial, que motivou pelo menos dois discos do Pink Floyd. O que acha dos conflitos no Afeganistão?
Roger Waters - Eu fui abertamente contra a Guerra do Afeganistão. Não que eu apóie o regime do Taliban, que proíbe as artes e a liberdade. Mas sou bastante reticente em relação a um mundo policiado pelos Estados Unidos e seu presidente, George W. Bush. Os americanos, a meu ver, possuem uma relação curiosa com o terrorismo. Eles nunca ligaram quando seus governantes promoviam golpes militares em cidades da América do Sul, ou locais que os interessavam politica e economicamente. Se eles pelo menos estivessem interessados na paz, eu ficaria feliz. Mas duvido que esse seja o desejo dos americanos.

Veja - Uma de suas composições, Wish You Were Here, acabou se tornando uma espécie de hino para as vítimas do atentado de 11 de setembro. Qual a sua opinião sobre isso?
Roger Waters - Wish You Were Here tem muito a ver com os atentados do dia 11 de setembro. Fala de perda, de sentir falta de alguém. Aliás, boa parte desse álbum passa essa sensação. Eu compus Wish You Were Here para o meu pai, que nem sequer cheguei a conhecer. Mas saber que essa música traz o mesmo tipo de sensação para outras pessoas é algo que me deixa muito feliz.

Veja - Nos anos 80, o Pink Floyd serviu de experiência para a gravadora CBS testar o poder do jabá nas rádios americanas. Elas se recusaram a tocar Another Brick in the Wall até que a companhia despejasse uma soma vultosa na mão dos radialistas. O senhor acha que esse recurso ainda está em moda?
Roger Waters - Eu sinceramente nem me lembro mais desse episódio, mas acredito que as coisas pioraram muito desde então. Hoje as companhias não querem mais investir numa banda promissora e esperar que elas rendam trinta, quarenta anos. Elas querem logo uma Britney Spears e depois partir para outro grande vendedor de discos...

Veja - O senhor experimentou muitas drogas nos anos 60. Qual a lição que costuma dar aos seus filhos sobre a sua relação com as drogas lisérgicas?
Roger Waters - Eu tenho três filhos. O mais velho tem 25 anos de idade, toca teclados em minha banda e nem sequer bebe álcool. É lógico que eles experimentaram maconha e tomaram ecstasy durante a adolescência, mas hoje nem querer saber disso. Sinceramente, você não pode impedir as crianças de fazerem as coisas, o ideal seria dar-lhes informação sobre tudo.

Veja - Existe uma lenda de que, se tocarmos Dark Side of the Moon, simultaneamente com O Mágico de Oz, as imagens da tela sincronizam com as músicas do disco. O senhor conhece essa história?
Roger Waters - Sim, eu já ouvi falar disso. Mas estou velho demais para perder tempo com essas coisas.

Entrevista com Geddy Lee.

Entrevista de 2009.



Quando Gary Weinrib se tornou Geddy Lee?

Lee é o meu nome do meio, e todos os meus amigos me chamavam de 'Geddy’ desde que eu tinha 11 ou 12 anos. Uma amigo começou a me chamar assim vendo como minha mãe pronunciava 'Gary'. Ela tinha um sotaque [Polaco].

Existe alguma diferença entre o Gary e o Geddy?

Sim, de certa forma deixei de ser um pequeno nerd do subúrbio para me tornar um rock star.

Como era Gary Weinrib quando adolescente?

Eu era um cara quieto. Caí na música quando tinha 12 anos e ouvia rádio intensamente. Curtia outras bandas e me tornei um fanático por rock. Quis aprender tocar e então comecei a aprender. Estava motivado. Uma das minhas lembranças favoritas quando garoto é que lembro que o Cream veio tocar perto de onde eu morava e ninguém quis ir comigo, então comprei um ingresso e fui sozinho. O Cream me inspirou de muitas maneiras a fazer o que eu faço.

Quando eu era adolescente, tentei escapar da festa Hanukah da minha família para ver o Rush no Madison Square Garden. Me dei mal e perdi o show de vocês.

Conseguiram te segurar no Hanukah? Wow! Seus pais eram rigorosos. Temos que fazer uma outra turnê pra você.

E os seus pais? O que eles acharam quando o filho deles decidiu abandonar uma vida tradicional para ser uma estrela do rock?

Acima de tudo foi muito difícil para minha mãe. Ela desejava que eu fosse um bom menino judeu do subúrbio e não entendia o que eu queria — ela achava que eu tinha ficado maluco por decidir abandonar a escola para formar uma banda de rock. Mas ela entendeu meu papel de artista quando me viu na TV.

Meu disco favorito é o Grace Under Pressure (1984). O single "Red Sector A" fala sobre o Holocausto, certo?

Aquela música remonta uma história que minha mãe me contou sobre a liberação [de Bergen-Belsen] e de como ela não sabia ao certo o que estava acontecendo. Ela estava trabalhando num local do campo e olhou pela janela, vendo todos os soldados com seus braços para cima. Ela pensou que se tratava de algum tipo de nova saudação a Hitler. Não percebeu que eles estavam sendo liberados. Quando ela finalmente foi liberada, sua primeira reação foi: 'Porque demorou tanto?". A todo momento, ela presumia que o resto do mundo estava sofrendo as mesmas coisas, passando por condições similares .... Quando contei essa história para o Neil, algumas partes tiveram impacto sobre ele, e daí veio com "Red Sector A".

Você voltou ao antigo campo de concentração há pouco tempo?

Sim, fui com a minha mãe, com meu irmão e minha irmã em 1995 . Fomos para Bergen-Belsen, onde ela foi libertada, e era o 50º aniversário da libertação desse campo. Enquanto estávamos lá, fomos até a cidade onde ela nasceu, e também em Auschwitz, onde ela estava antes de ser transferida para Bergen-Belsen. Foi a nossa oportunidade de rever a vida dela, e esse fato a deu um significado de conclusão, o encerramento dessa parte horrível de sua vida.

Como foi pra você visitar o campo depois de ouvir essas histórias por tanto tempo?

Foi bom relembrar isso, independente do quão devastador é visitar um campo de concentração. O fato de ela ter sobrevivido, juntamente com a minha avó, tia e tios, o fato de ela estar viva evidencia provas contra os perpetradores do Holocausto, que foi algo desmoralizante. Sei que pode soar estranho, mas me lembro quando ela se virou para mim e disse: 'Quero meus irmãos e irmãs façam essa viagem, experimentando esse sentimento de termos ganho a guerra".

Você mencionou no passado que se considera judeu, mas não…

[Interrompe] Me considero judeu como raça, mas não tanto como religião. Não ligo para religião. Sou um judeu ateu, se isso é possível... comemoro as datas no sentido de que minha família se reúna e gosto de fazer parte disso. Então olho sempre o pelo aspecto do 'ficarmos juntos'.


Você acha que ser judeu impactou a sua música?

Ah, sim. Cresci sentindo a alienação que muitos garotos sentem. Eu não era uma criança particularmente social. Isso cria uma sensação de ser um cara que fica sempre de fora. Passei muito tempo vivendo dentro da minha própria cabeça, e nossa música está cheia desse tipo de histórias. O que te conforta é saber que não és o único que experimentou essa alienação, e temos fãs que se confortam da mesma maneira com que nos confortamos com nossa propria música.

O mais incrível no Rush é sua dinâmica orgânica coletiva. Você canta as letras que Neil Peart escreve. É importante pra você fazer uma conexão emocional com as palavras dele quando as canta?

Boa pergunta. Nosso relacionamento como uma equipe de compositores tem evoluído ao longo dos anos — ele como letrista e eu como vocalista. Tem que haver consideração em ambos os lados. Como crescemos juntos, temos experimentado um aumento progressivo dessa consideração. Ele geralmente reúne cinco ou seis idéias e me permite escolher a que mais positivamente me tocou e as que não ele deixa de lado. Neil me dá grande liberdade para alterar as letras, e se não estou sentindo o refrão, ele tenta reconstruir, e teremos esse vai-e-vem até que a canção funcione ou não. Outras vezes nem chego a tocar na letra, ele mesmo a altera. Da mesma forma ele me ouve cantar as canções e me passa um feedback sobre a maneira na qual estou cantando. De forma global nunca discutimos — apenas argumentamos.

Com quais músicas do catálgo do Rush que você mais se identifica?

Existem duas canções específicas do Roll The Bones (1991) que realmente me tocam — uma delas é 'Dreamline'. Amo o espírito dessa música e a maneira na qual Neil captura aquela sensação de invulnerabilidade e sede por viagens de uma determinada época de sua vida. A outra é 'Bravado', uma canção bem romântica e animadora que fala sobre renunciar e ser corajoso. Acho que abandonar certas coisas mesmo que seja contraditório fazendo aflorar sua personalidade natural é uma grande coisa a se fazer. Talvez seja por isso que me identifico com ela.

Você sente que tem estado sempre em turnê?

O ato físico da turnê tem seus altos e baixos, claro. Mas será que amo tocar? Sim. Adoro tocar com os outros caras? Sim. Eu explodo durante aquelas três horas em que tocamos juntos. O resto é trabalho pesado por todo o país, tentando me manter bem física e mentalmente. Essas são as coisas com as quais lidamos durante esses 150 anos de turnês.

Você se considera um músico progressivo?

Nossa história mostra que começamos como uma banda prog com peças extensas — com espadas e feitiçaria — que é do puro prog. Acredito que tenhamos evoluído desde então. Rupert Hine uma vez nos chamou de 'banda de rock pós-progressivo', ou p-p-rock.

Todos na banda são considerados músicos exepcionais. Neil, em particular, é considerado o deus das baquetas…

Sempre me surpreendo com a forma de tocar bateria do Neil e com a habilidade do Alex em ser um guitarrista solo e base ao mesmo tempo.

Você toca baixo e teclados. Não zombam de você?

Sabe do que eles me chamam? "Faz de tudo um pouco, mas nada direito".

O Rush nunca considerou contratar um tecladista para sair em turnê, para aliviar sua carga de trabalho?

É sempre uma discussão, e sempre que saímos em turnê, dizemos, 'Não, não podemos ter outro cara no palco'. Ele poderia estragar a química. Mas quando entramos no estúdio para gravar, percebo toda aquela porcaria de trabalhos extras e começo a pensar nessa possibilidade novamente.

Alguma vez você sentiu que durante as composições vocês estiveram sem inspiração? Depois de todos esses álbums…

Sim, há muitas vezes nas quais você se sente sem inspiração. Temos duas escolhas: continuar tocando até algo bom aparecer ou tirar o dia de folga para ler um livro ou coisa assim. Podemos nos forçar a compor algo — mantendo jammings e forçando circunstâncias. Sendo músicos profissionais, isso faz parte. Gostamos de passar bastante tempo com as canções para que estas nos mostrem alguma objetividade. Se a canção não for boa, jogamos fora.

Ok, agora algumas perguntas de nerd. Estava assitindo uma aparição que você fez recentemente num vídeo do Broken Social Scene, 'Fire Eye’d Boy'. Você ainda acompanha as bandas emergentes do Canadá?

Minha atenção para essas coisas fica num vai e vem. Estive em turnê nos últimos dois anos, e por isso te digo que estou totalmente por fora. Posso sair e conferir algumas bandas novas locais, mas raramente tenho vontade de fazer isso. Aqueles caras são muito populares por aqui. Me diverti bastante fazendo aquele vídeo.

Sempre quis saber: Você conhece a canção 'Stereo' do Pavement? Aquele trecho ('E a voz do Geddy Lee / Como ele consegue ir tão alto? Me pergunto se ele fala como um cara normal. Conheço ele e ele fala!')

Oh sim. As pessoas me perguntam sobre essa canção o tempo todo. Eu adoro a música. Morro de rir.

Você têm um grande senso de humor que recentemente foi exposto no The Colbert Report e no South Park…

Não sei. As pessoas acham que sou um cara sério. Mas acho importante não ser tão sério.

Um fato obscuro do Rush é que vocês gravaram a canção 'Time Stand Still' com a cantora Aimee Mann. Como foi isso?

Sim. Quando estávamos gravando a canção, ouvi uma voz feminina naquele trecho. Conversamos sobre Chrissie Hynde, mas nosso produtor sugeriu Aimee Mann que, na época, era vocalista da banda 'Til Tuesday. Ela foi muito generosa cedendo seu tempo, sendo uma ótima artista. Uma linda voz.

O que você está lendo agora?

Leio bastante na estrada. O último livro de Paul Theroux — ele é um dos meus escritores favoritos para viagens. Estou terminando um livro do Neal Karlen chamado 'Slouching Toward Fargo'.


Nada de livros de ficção científica e fantasia?

[Risos] Nunca li qualquer livro de ficção científica na verdade. Meu livro do ano é o 'What Is the What'. Exepcional. Dave Eggers é muito maneiro — gosto muito da sua forma de escrever.

'Nobody’s Hero', uma canção do álbum Counterparts de 1993, saiu um pouco do campo costumeiro do Rush, falando da AIDS e de homossexualidade — 'I knew he was different in his sexuality/I went to his parties as a straight minority/It never seemed a threat to my masculinity'.

Essa canção trata sobre a perda de pessoas em circunstâncias terríveis, e ela toca as pessoas de uma maneira diferente, eu acho. O tipo de questão que tratamos nessa música não é algo pop, o que faz dela uma canção tão distinta.

Porque os fãs vêm ao shows do Rush?

Temos realidades extremamente diversificadas — gosto de pensar assim. Alguns fãs se ligam estritamente na técnica do baterista ou na forma estranha de nossos acordes. Há outros que sentem uma conexão com o espírito da nossa música — a forma como elas ressoam tematicamente, um apelo mais emocional. Você pode ter dois fãs do Rush sentados lado a lado ouvindo nossa música sob diferentes aspectos.

Qual é o segredo para manter um relacionamento com três caras durante três décadas?

Você tem que ser capaz de se divertir com os outros até enjoar. Os sentimentos humanos raramente nos machucam. Estamos juntos por tanto tempo e por isso temos nossa comédia, o que nos mantém andando. Temos mais comédia do que música. Isso é grande parte da cola.

Vocês podem continuar fazendo isso ainda por quanto tempo?

É uma pergunta que me faço o tempo todo, mas não sei responder. Nesse momento vou com o fluxo. O dia em que não conseguirmos arrancar mais nenhuma idéia nova de dentro de nós é o dia em que tivemos o bastante.

Você sempre para e pensa: 'Ei cara. Estou no Rush'.

Não posso olhar para o Rush tão objetivamente. Me espanta ter tido tantas coisas legais ao longo dos anos. Mas não posso ver isso como algo intocável. Não me leve a mal — é incrível, mas você sabe? No passado chegou a ser imoral.

É impressão minha ou vocês são uma banda muito bem comportada?

Somos bons meninos. Só não posso garantir que seremos comportados todas as noites.

Existem histórias dessas de vocês no rock and roll que gostaria de compartilhar?

Elas vão ficar conosco para a sepultura.

Ah, vamos lá...

Entrevista com Paul McCartney.

Feita a Rolling Stone em 2010.



Os seus filhos o chamam de Sir?

Não... De jeito nenhum! Só de "pai" mesmo.

Como funciona a sua seleção de repertório para as turnês? Você tem mais de 50 anos de músicas para escolher. Certamente muita coisa fica de fora. Você sofre fazendo isso?

Não é ruim, é um processo meio interessante. Eu começo pensando: "Se eu fosse a esse show, o que eu gostaria de ouvir a banda tocar? O que eu gostaria de ouvir o Paul cantar?" Começo com essa lista, e há algumas canções que são meio óbvias. Eu provavelmente gostaria de ouvi-lo cantar "Let It Be"... Esse tipo de coisa. Então existe essa lista das que você não poderia deixar de fora. E aí surge uma segunda lista, de coisas novas que podemos fazer para surpreender a plateia, para manter as coisas frescas. Misturamos essas duas listas. E aí tem uma terceira lista, que tem as músicas que nós gostaríamos de tocar, sabe? Sem nos importarmos com o resto, as coisas das quais simplesmente gostamos. Juntamos tudo isso e ensaiamos todas as músicas que escolhemos, e às vezes os caras da banda dizem: "Oh, talvez devêssemos tentar esta aqui..." Todos podemos sugerir. Depois dos ensaios, vemos quais [músicas] ficaram melhores. Normalmente somos eu e o nosso cara dos teclados, Wix, que é o nosso DM, diretor musical. Na reta final dos ensaios, nos sentamos e vemos qual será o set list e o escrevemos. No último dia de ensaio, tocamos esse repertório para que cada um saiba qual guitarra [usar], para que os caras da técnica saibam o que está acontecendo. E é assim que fazemos!

Pouco depois do rompimento dos Beatles, no começo dos anos 70, Paul McCartney resolveu esquecer o passado recente e montar uma nova banda. Com a família a tiracolo, ele e o Wings (que incluía a esposa dele na época, Linda, nos teclados) se enfiaram em um ônibus e viajaram pelo Reino Unido fazendo apresentações improvisadas em universidades. Inicialmente, o repertório de seu antigo quarteto foi banido desses shows. Entre 1971 e 1979, o Wings lançou sete discos de estúdio - todos com desempenho notável nas paradas de sucesso. Ainda assim, havia uma barreira a ser vencida tanto em relação ao público - sedento pela música dos Fab Four - quanto aos críticos, sendo que a própria Rolling Stone norte-americana questionou se o trabalho de estreia do Wings não poderia ser intencionalmente ruim, como forma de atacar a gravadora EMI, que o lançou ( "Wild Life é altamente sentimental, mas musicalmente flácido e impotente nas letras", diz a resenha de janeiro de 1972). Não era deliberado, mas o próprio McCartney hoje consegue ver imperfeições naquelas canções e, veja só, tem como desafio convencer os próprios admiradores de que trabalhos como esses poderiam ser melhores.

Houve uma fase, no começo dos anos 70, quando você não tocava músicas dos Beatles com o Wings...

[Interrompendo] Sim, é verdade.

Como era tocar só músicas novas para um público que talvez estivesse esperando sucessos dos Beatles?

É, bem, foi... Foi muito bom porque determinamos essa regra, já que estávamos tentando estabelecer algo novo com o Wings. Eu queria, antes de tudo, fazer com que o Wings tivesse sucesso por mérito próprio. Eu não queria usar as músicas dos Beatles, queria que tivéssemos uma identidade particular. Depois que conseguimos isso, por volta de 1976, depois do Band on the Run, me senti mais confortável. Mas, sim, você percebia que a plateia gostaria que você tocasse músicas dos Beatles. Só que eu achei que essa seria uma saída fácil e não queríamos fazer isso com o Wings, então criamos a regra para, mais tarde, podermos começar a tocar faixas dos Beatles. Como já fiz isso [no passado], é muito libertador poder fazer o que eu quiser hoje, posso escolher qualquer música. Provei algo.

Também houve algo curioso recentemente: você voltou a tocar músicas do Wings, que haviam sido abandonadas depois do fim do grupo. O que gerou essa mudança? Elas têm crescido cada vez mais no repertório.

Isso foi interessante porque, em um certo momento, pensamos: "Vamos só tentar [tocar] uma canção do Wings e ver o que acontece, o que funciona". Fizemos isso e notamos que elas eram muito bem recebidas. O interessante é que as pessoas mais jovens do público conheciam mais as faixas do Wings do que as dos Beatles! Uma vez eu estava dando uma entrevista, falando sobre o Sgt. Pepper ['s Lonely Hearts Club Band, disco dos Beatles de 1967], e o repórter me disse: "É, esse é bom, mas o meu favorito é o Band on the Run. Esse disco é o meu Sgt. Pepper" . E foi aí que percebemos que tudo havia mudado. Por isso começamos a tocar mais músicas do Wings. E está sendo incrível, elas se saem tão bem quanto - e às vezes melhor - do que as dos Beatles.

Isso é curioso e parece ser uma tendência. Os jovens que curtem música indie em São Paulo amam os seus primeiros discos solo.

Sério?

Sim, muita gente já me disse que ama o McCartney (1970) ou o Ram (1971).

Sério mesmo? Nossa, isso é incrível, cara! Muito legal! Fantástico! O tempo muda as coisas. É ótimo saber dessas coisas.

Por falar em tendências, parece que existe uma nova nas turnês: o Roger Waters está fazendo uma do The Wall (1979), os Rolling Stones já falaram sobre fazer uma do Exile on Main Street (1972). O que você acha disso? Faria algo do tipo?

Quer saber? Eu não me interesso por isso. Já me perguntaram se eu faria o Band on the Run. E eu toco muitas músicas dele, mas... Não sei, sinto que se eu tocasse só esse disco seria uma apresentação interessante, mas haveria tantas músicas que eu teria de deixar de fora e... Eu não gosto de colocar essa pressão em mim mesmo. Não é uma ideia que me interessa o bastante porque a acho um pouco restritiva. Gosto de poder escolher o que me der na telha, o que eu quiser tocar. Mas acho que faremos algumas coisas agora, com o relançamento de Band on the Run. Acho que tocaremos mais canções do disco. Só que a ideia de tocar só esse álbum... Não sei. Se os Stones tocassem só o Exile, seria uma noite divertida - mas eu provavelmente ficaria meio decepcionado por eles não tocarem "Honky Tonk Women" ou "Satisfaction". Sabe? Eu gostaria de ouvilos tocar essas músicas também.

Essa sua falta de interesse tem a ver com nostalgia? Muitos artistas rejeitam esse clima de nostalgia por achar mais interessante sair em turnê com material novo.

É, talvez. No meu caso é mais a restrição. Não vejo propósito em fazer isso comigo mesmo.

Você está no processo de remasterizar seus discos solo. Band on the Run é o primeiro e os outros devem vir na sequência. Há algum deles que você escute e pense: "Não gosto muito dele e poderia ter feito algo melhor"?

Claro. Alguns deles, mas o interessante é que penso nisso e... Por exemplo, eu achava isso do Wild Life [1971] , do Wings. Achava que poderia ter sido melhor. Tem uma música nele chamada "Bip Bop" que me faz pensar: "Ah, essa poderia ter sido melhor". Sabe? E eu disse isso para uma pessoa, um jovem músico, e ele disse: "Não, cara, essa é a minha preferida!" [risos] Não dá para vencer! No passado eu provavelmente sentiria mais essa coisa do "poder ter feito melhor", mas hoje as pessoas me mandam ouvir novamente porque há algo ali. Então desisti de pensar nisso. Agora é: "Sabe o quê? É parte daquela época, foi o que eu criei". E cada álbum tem algo que os faz valer a pena. Não me preocupo mais com isso. Antes eu me preocupava mais, exatamente por não gostar de algumas coisas, mas agora essas coisas acabam sendo as favoritas de alguém.

Deve ser engraçado para você ler coisas como aquela pesquisa que saiu alguns anos atrás dizendo que "Ob-La-Di Ob-La-Da" era a pior música de todos os tempos.

[Incisivo] Quem disse isso?

Uma pesquisa britânica. Mas tem muita gente que ama essa canção.

É, claro. Se você compõe algo e essa composição fica famosa, sempre vai haver um monte de gente dizendo que não gosta dela. Não há nada que você possa fazer a respeito disso. Outro dia li alguém falando sobre "Mull of Kintyre", minha canção escocesa, dizendo que era a pior faixa de todos os tempos. Senti vontade de escrever para o cara e dizer que havia um milhão de pessoas que não concordavam com ele, então talvez ele não estivesse certo. É preciso aguentar esse tipo de coisa. Com "Ob-La-Di", sempre achei a música ok, mas nunca pensei que a tocaríamos [ao vivo]. E aí no ano passado resolvemos tocá-la no ensaio, que é como costumamos fazer. Tocamos e foi tipo: "Nossa, parece que ficou muito boa!" Aí tocamos em um show e foi ótimo. É uma música muito festiva. E, sabe, ela é bem simples, tem uma historinha, é influenciada pelo Caribe, coisas assim. Ela tem sido recebida maravilhosamente. Eu diria que é uma das músicas mais populares do nosso repertório no momento. Então nunca dá para saber! É assim: quando penso nas pessoas e nas opiniões delas, vejo que em uma semana alguém pode dizer que uma canção é ruim e, duas semanas depois, dizer que já não acha mais. É como estávamos falando antes, sobre "Bip Bop" - eu não gostava dela porque a achava simples demais, talvez não profissional o suficiente, e aí vinha alguém e me dizia que era exatamente por isso que ela era boa. Ontem à noite eu estava conversando com um jovem músico e ele me disse: "Descobri que as coisas não têm de ser perfeitas". Talvez os melhores discos não precisem ser tão profissionais. Eles simplesmente têm algo neles. Por exemplo, existem muitas bandas contemporâneas que são ótimas - mas não dá para dizer que elas são particularmente afinadas. Algumas não são, e esse é o charme delas. Em algumas o baterista pode não ser o melhor, mas é isso que as destaca, essa diferença. Se você é perfeito, perfeito, perfeito o tempo todo, acaba sendo entediante.

Se nos anos 70 a sombra dos Beatles perseguia e ocasionalmente ofuscava a carreira individual de Paul McCartney, nos anos 2000 os desafios são outros. A história dos Beatles foi arrematada de forma grandiosa com a série Anthology (que proporcionou um reencontro com George Harrison e Ringo Starr, no qual o trio pôde trabalhar em gravações caseiras deixadas por John Lennon, assassinado em 1980), e McCartney se viu livre para intensificar a busca por novos horizontes musicais. Essas ousadias incluíram a convocação de Nigel Godrich, fiel escudeiro do Radiohead, para produzir o elogiado álbum Chaos and Creation in the Backyard (2005) e a aventura de se esconder nas texturas do duo conceitual The Fireman (cujo lançamento mais recente, Electric Arguments, é representado na turnê Up and Coming com as faixas "Highway" e "Sing the Changes"). Indo mais longe ainda, McCartney dispensou a gigante EMI em 2007, em um surpreendente acordo com a rede de café Starbucks, que lançou o selo musical Hear Music com a contratação do músico. Depois de 50 anos de carreira, Paul McCartney se tornava um mega-astro
independente.

Na vida pessoal, o normalmente recatado beatle Paul se viu no meio de um turbilhão midiático na última década. Principalmente por causa de seu romance (e consequente separação), entre 2002 e 2006, com a ex- modelo Heather Mills. Passado o tempo tempestuoso, ele diz tentar dividir seu tempo entre a criação da filha Beatrice, 7 anos, e o trabalho - o que o levou a fazer menos apresentações ao vivo.

Lembro-me de ouvir você dizendo que tinha gostado de trabalhar com o produtor Nigel Godrich no disco Chaos and Creation in the Backyard (2005) porque ele lhe dizia quando uma música não era boa o suficiente. Isso motivou o seu processo de composição? Por que você não trabalhou mais com ele depois?

É verdade: amei tanto que nunca mais trabalhei com ele! [risos] Foi uma boa experiência, nos divertimos e ainda somos amigos. Há vários motivos para eu não ter trabalhado com ele novamente: eu queria voltar a gravar com o David Kahne, eu tinha uma ideia sobre como realizar Memory Almost Full [2007] e o David sabia como executá-la. E eu havia colocado esse disco de lado para gravar o Chaos and Creation. Não foi o caso de eu não querer trabalhar com o Nigel, era mais o caso de eu querer trabalhar com o David. Mas acho que ele [Nigel] me deu um foco, que também serviu para me ajudar a terminar o álbum seguinte. Foi bom ter um padrão para alcançar. Acho que foi muito bom, foi ok.

Antes disso tudo, você disse ter feito uma experiência na faixa "Young Boy" (do disco solo Flaming Pie, de 1997). Você teria se obrigado a escrever uma música inteira, de uma vez só. O quão recorrente é esse tipo de exercício de composição para você?

Isso é em especial o que eu faço. Hoje - ou sempre, acho - é mais uma questão de ter algum tempo [livre]. No meu caso, não espero pela musa - espero mais por uma janela de oportunidade. Recentemente eu estava escrevendo e foi assim: "Ok, posso tirar as próximas duas horas para isso, tenho tempo, posso me sentar e escrever". Depois de duas horas compondo, se estiver boa, eu guardo a música. Se não estiver, guardo para poder melhorá-la, arrumá-la. Acho que o truque é simplesmente fazer. Então é isso o que eu faço, quando tenho algum tempo pego um violão, procuro uma ideia e escrevo. Vejo o que sai. E, normalmente, sai uma música!

E quando você trabalha com outras pessoas? Recentemente teve o (baixista do Killing Joke) Youth, no projeto Fireman, e o trabalho de produção do disco do seu filho James.

É completamente diferente. Quando trabalho com o James, meu filho, é ele quem está fazendo todo o trabalho. Eu só fico sentado dizendo: "Esse take foi bom". Ou "Que tal se fizermos isto?" É um papel totalmente diferente. É divertido. Ele é muito bom, então gosto de ouvi-lo cantar, é o meu garoto. E eu consigo testar para descobrir o quão bem ele consegue tocar, o que é bom para um pai. Por enquanto é só um EP, mas eventualmente vai ser um álbum. Foi ótimo, fizemos eu e o David Kahne e ficamos satisfeitos com o resultado. Quando trabalho com o Youth é completamente diferente - de novo. É mais como um workshop teatral, um processo de improvisação. Vou ao estúdio sem saber o que faremos, ele também. Aí vemos qual o nosso clima e dizemos: "Ok, vamos fazer algo meio folk". Construímos um riff de guitarra que seja folk - ou mudamos de ideia e partimos para algo mais para o blues ou heavy rock. Começamos com um groove, uma ideia que sai de um sentimento. E aí entro no estúdio para colocar o baixo. Sinto o clima e faço isso. Então é assim, completamente inventado na hora, nunca sabemos aonde vamos chegar. Esse é um modo muito empolgante para se trabalhar. E, quando terminamos, é menos preciso do que simplesmente escrever e depois gravar a música. É uma forma boa de se trabalhar, eu gosto bastante.

No começo o Fireman também era para ser um projeto secreto, não? Vocês fizeram até um webcast usando máscaras e coisas assim.

Sim, sim.

Isso me leva à pergunta seguinte: como você mantém os pés no chão? Por exemplo, alguns amigos de Londres me juraram que viram você no metrô. Você costuma fazer esse tipo de coisa para não perder o senso de "vida real"?

Acho que sim. É algo que eu sempre fiz, sabe? Mesmo antes de eu ficar famoso com os Beatles, eu gostava [de fazer coisas corriqueiras como andar de metrô]. É bom sentir os pés no chão. Faço porque gosto. Realmente gosto da experiência de pegar o metrô! E, quando você fica famoso, parece que tudo o que você faz é andar de carro. É um pouco chato. Então, às vezes, se estou andando e passa um ônibus que vai para onde eu estou indo, eu pulo nele. Ou o metrô. Então, sim, as pessoas me veem no metrô. O mais legal é que ninguém acha que sou eu! Primeiro, porque ninguém olha para os outros no metrô - as pessoas leem o jornal ou ficam com os olhares perdidos. Se alguém olha para mim, dá para ver a pessoa pensando: "Não, não pode ser ele... Não aqui, no metrô". E, sabe, já fiz o mesmo em Paris. E estava lotado! Sabe como os trens ficam bem cheios? E eu estava lá, segurando na alça, como todo mundo. Vi umas duas pessoas que olharam e devem ter pensado: "Nossa, você se parece muito com ele, cara". Mas ninguém diz nada! Você consegue ver nos olhos deles, mas eu olho de volta como quem diz: "Eu não poderia ser ele, poderia? Acha que ele estaria andando de metrô com você?" [risos] Eu gosto bastante de fazer isso, curto o transporte público.

Deve ter sido um alívio, depois do furacão dos Beatles, poder voltar a fazer essas pequenas coisas sem ser incomodado.

Foi uma das coisas boas, sim. É bom poder ter isso de vez em quando, mudar, poder relaxar. Outra coisa boa é que voltou a ser como era antes dos Beatles. Não havia mais tanta pressão. Tento não permitir que outras pessoas me pressionem. Então, se estou andando na rua e - agora todo mundo tem câmeras fotográficas no celular! - alguém me pede para tirar uma foto, digo que não. Digo: "Estou tentando manter minha vida privada, você não se importa, né? Eu te cumprimento, aperto a sua mão e podemos conversar, mas estou tentando fingir que sou só mais um cara na rua". E a maior parte das pessoas se desculpa, não há problema algum, e eu as agradeço por compreenderem. Isso significa que eu tenho controle sobre mim. Ninguém me domina! Esse é um dos problemas da fama: se você deixa outras pessoas te dominarem... [suspira] Isso te enlouquece.

Tenho uma teoria: se você quisesse, poderia passar o resto da vida sem ter de trabalhar, vendendo autógrafos. Com um por dia, você ganharia cerca de mil dólares a cada 24 horas. Seria só rabiscar um papel, simples assim. Não é um pensamento assustador?

Sim, pense em fazer apenas isso para o resto de sua vida. Quero dizer, como seria tedioso... Entendo o que você quer dizer, mas não dá para pensar assim. Isso passa pela sua cabeça uma vez, você pensa: "É, seria incrível". Mas na verdade não é algo que você gostaria de fazer. Eu amo a música! Música é o que me deixa feliz. Conheci alguém ontem que explicou isso muito bem, ela disse: "Eu não conseguiria respirar sem música". Achei muito legal, disse que entendia o que ela queria dizer. Acho isso muito verdadeiro e acho que muita gente sente isso. É algo mágico que os humanos desenvolveram, é muito especial para muita gente. É algo que cura. Uma das coisas de que mais gosto é quando me encontro com alguém e a pessoa me diz: "Eu estava doente e escutei a sua música, que me fez melhorar". Penso: "Uau! Que legal".

Você nunca teve problema em ser sentimental em suas músicas. Mas em Memory Almost Full há uma canção, "End of the End", na qual você fala sobre morte de uma forma que é quase chocante. Quando a ouvi pela primeira vez, pensei: "Não tenho certeza se quero ouvi-lo cantar sobre a morte dele".

Entendo completamente o que você está dizendo! E é por isso que a maior parte das pessoas não escreve daquela forma. Para escrever essa música eu tive de superar... O que aconteceu foi que eu ouvi outra música, na qual a pessoa falava da própria morte. Pensei: "Nossa, isso é muito corajoso!" Me senti da mesma forma que você, achei que talvez exigisse tanta coragem que não quisesse fazer o mesmo. E, quanto mais eu me acovardava, mais pensava sobre tentar [fazer o mesmo], descobrir o que eu penso sobre esse assunto. Então, tudo aquilo de dizer que eu gostaria que contassem piadas e coisas assim foi o que fez a canção funcionar - e me fez pensar que é o que eu gostaria mesmo. Talvez seja a minha ascendência irlandesa, os irlandeses sempre fazem uma grande festa [quando alguém morre]. Talvez tenha a ver com isso. É uma música bastante realista.

Você acha que ficou mais emotivo...

[Interrompendo] Não acho que fiquei mais emotivo, mas acho que passei a me permitir ser mais emotivo.

Eu estava pensando especificamente na sua performance de "Here Today" (homenagem a John Lennon) na loja Amoeba, em Los Angeles, que foi muito tocante.

Exatamente. Acho que é uma coisa humana. Quando nós, rapazes, temos 18 anos, a última coisa que queremos é que alguém nos pegue chorando. "Sou durão, tenho 18 anos, já sou grande! Eu não choro, isso é coisa de garota." Esse é o comportamento típico. E, mais tarde, sabe, você pode perder um ente querido ou alguma coisa acontecer com a sua vida. E... Você chega a um ponto em que pensa: "O que há de errado com isso?" Me lembro de pensar: "Se Deus não quisesse que você chorasse, ele não teria te dado lágrimas". Aí você para e vê que realmente não tem nada de errado. E as pessoas começam a te dizer que é melhor soltar, não manter dentro de você. É melhor para você. Então, sabe, resolvi ficar no meio do caminho.

Voltando à turnê, há uma história recorrente de que essa seria a sua última. Ou de que, pelo menos, a última grande. E que depois dela você só faria shows avulsos. De onde surgiu isso?

Começaram a falar essas coisas uns cinco anos atrás. Comecei a ouvir boatos, os jornalistas começaram a me perguntar se era verdade. E as pessoas me diziam: "Preciso ir ver o seu show, é a minha última chance porque ouvi dizer que é a sua última turnê!" Até quem eu conhecia dizia coisas assim. E eu não achava que era minha última turnê! Mas o boato circulou, e você sabe como eles não morrem. Isso foi uma das coisas, e o motivo pelo qual não tenho passado seis meses na estrada é porque eu tenho uma filha de 6 anos. Passo muito tempo com ela, estou criando-a. Divido o meu tempo entre ela e o trabalho. E é muito legal, na verdade: trabalho, fico com ela e em novembro vamos ao Brasil e à Argentina. E o que acontece é que você começa a ficar ansioso [por fazer shows]. E, se você está em turnê, pode ser que se sinta meio: "Meu Deus, aonde vamos amanhã? Cleveland? Ok. E depois? Saint Louis? Ok. Kansas City? Ok". Você começa a ficar entediado. E isso não é bom. É melhor estar "faminto". Com esta banda, ficamos ansiosos para voltar ao palco - e isso faz a diferença. Acho que a plateia consegue sentir que estamos felizes por estar lá.

A banda é boa de verdade.

É, e outro dia eu percebi que estamos juntos há quase dez anos. Viramos uma banda de verdade, conseguimos nos comunicar. Gostamos da companhia uns dos outros e estamos tocando cada vez melhor. Isso é algo de que o público também gosta.

Você tocou com Ringo Starr no ano passado e neste ano, ambas no mesmo lugar, o Radio City Music Hall, em Nova York. Isso vai virar uma tradição anual?

[Rindo] Não, não, acho que não. Foi algo que só aconteceu. Nos chamaram para fazer o lance de meditação do David Lynch [o evento Change Begins Within, em 2009, beneficente à fundação dedicada à meditação transcendental administrada pelo cineasta] e foi uma ótima ideia, nós dois concordamos. Então foi isso. Neste ano, foi porque era o aniversário do Ringo. Joe Walsh, do Eagles, que é amigo dele - e cunhado, atualmente [Walsh é casado com Marjorie Bach, irmã de Barbara, esposa de Ringo Starr] -, me ligou secretamente e disse que queria fazer uma surpresa, que seria ótimo se eu aparecesse sem ele saber. Eu concordei, e fui para o ensaio. Eles conseguiram manter o Ringo longe, ele só chegaria uma hora mais tarde, então conseguimos ensaiar normalmente. E aí eu perguntei: "E onde eu vou me sentar durante o show?" E apontaram para a primeira fila. Eu disse que não funcionaria! A plateia me veria, o Ringo me veria! Não haveria surpresa. Eu disse para me colocarem bem no fundo, quero aqueles lugares. Então me deram. Quando o Ringo começou o show dele, entrei pela porta da frente, fui até o meu lugar no fundo da casa de shows e me sentei. Algumas pessoas me notaram, mas não o suficiente para que houvesse tumulto. Eu me virava para elas e fazia: "Shhh! Silêncio! É surpresa!" Ele não sabia de verdade, essa foi a melhor parte. Ele ficou chocado e ainda me agradece até hoje! Nos divertimos demais. Cara, tenho de dizer: foi um arrasa-quarteirão. Ele saiu do palco com o microfone na mão, e dava para ouvi-lo dizendo: "Bem, parabéns, Ringo!" E saiu. Ele estava com a mulher, Barbara, que disse para ele esperar um pouco. E ele: "Por quê? Acabou, quero ir para o camarim!" E ela pedia para ele esperar. Ela sofreu para conseguir mantê-lo lá. Enquanto isso, eu olhava para o palco e conseguia ver meu técnico John [Hammel] se escondendo atrás de um amplificador. Automaticamente pensei que havia algo errado com o meu baixo. E comecei a pensar que não daria certo, que eu não subiria mais ao palco. Por que ele estava agachado no amplificador? É claro, era porque o Ringo o conhecia e entenderia tudo se o visse ali. Ele estava se escondendo. Subi e tocamos "Birthday". Depois o Ringo disse: "Eu nunca ficaria na coxia [só assistindo]". Por isso ele correu e tocou conosco. Foi uma noite absolutamente linda, linda!

Entrevistei Yoko Ono recentemente e perguntei se as três músicas de John Lennon nas quais você, o Ringo e o George supostamente trabalharam nos anos 90 - "Now and Then", "Grow Old with Me" e "I Don't Want to Lose You" - mas, decidiram não lançar, poderiam chegar às lojas algum dia. É verdade?

Eu não sei... Sabe, acho que teve uma na qual trabalhamos de verdade. Nunca chegamos a fazer nada em "I Don't Want to Lose You". Mas, sim, houve uma na qual trabalhamos. O que aconteceu, na época, é que o George Harrison não gostou do resultado. Ele disse: "Não, isto não está funcionando". E eu gostava bastante! Eu achava que havia uns trechos que funcionavam. Jeff Lynne estava produzindo e ele também gostou, achou que poderia sair algo dali. Então, essa música ainda está por aí. É claro, a qualidade do vocal de John não é perfeita - porque tiramos a voz de uma fita cassete -, mas é o John! É a performance vocal dele. E algumas das coisas que o George fez nessa faixa agora são históricas, porque ele faleceu. A contribuição dele está lá. Não sei, quem sabe um dia ela veja a luz do dia.