Entrevista de março de 2002.
Veja – Na sua opinião, canções como as do Pink Floyd realmente podem ser incluídas na categoria "grande arte"?
Roger Waters – Assim como há quadros que são meros borrões e outros que são geniais, na música pop há bobagens e autênticas obras de arte. Não tenho dúvida de que os discos The Dark Side of the Moon e The Wall, do Pink Floyd, além de meu trabalho solo Amused to Death, se encaixam na segunda categoria.
Veja – O Pink Floyd fez a trilha sonora de um filme de arte, Zabriskie Point, do italiano Michelangelo Antonioni. Seus ex-companheiros de banda qualificam esse trabalho de "equívoco". Foi mesmo?
Waters – Meus ex-companheiros nem sequer foram a Roma na época da edição do filme. Fui eu quem passou várias tardes no estúdio Cinecittà, na mesa de mixagem. As duas semanas de trabalho ao lado de Antonioni estão entre as melhores de minha vida. O que os outros dizem não me interessa.
Veja – Que tal a atual encarnação do Pink Floyd?
Waters – O som deles parece tudo, menos Pink Floyd. A razão é simples: eu era o letrista e principal compositor da banda. Os outros são desprovidos desses talentos. Precisam apelar para terceiros, e assim não fazem justiça ao nosso velho estilo.
Veja - O que o show do senhor tem que o Pink Floyd atual não tem?
Roger Waters - Além da minha presença? Bem, é uma antologia da minha carreira desde 1967, quando compus Set the Controls for the Heart of the Sun, até as canções dos meus trabalhos solo. Apresento ainda uma música inédita, chamada Each Small Candle. O meu show tem ainda projeção de slides feitos a base de água e óleo, para dar um clima psicodélico, além de fotos de nativos americanos feitas por Edward Curtis. Além, é claro, do som quadrifônico, que me acompanha desde o início da minha carreira.
Veja - O senhor perdeu seu pai durante a Segunda Guerra Mundial, que motivou pelo menos dois discos do Pink Floyd. O que acha dos conflitos no Afeganistão?
Roger Waters - Eu fui abertamente contra a Guerra do Afeganistão. Não que eu apóie o regime do Taliban, que proíbe as artes e a liberdade. Mas sou bastante reticente em relação a um mundo policiado pelos Estados Unidos e seu presidente, George W. Bush. Os americanos, a meu ver, possuem uma relação curiosa com o terrorismo. Eles nunca ligaram quando seus governantes promoviam golpes militares em cidades da América do Sul, ou locais que os interessavam politica e economicamente. Se eles pelo menos estivessem interessados na paz, eu ficaria feliz. Mas duvido que esse seja o desejo dos americanos.
Veja - Uma de suas composições, Wish You Were Here, acabou se tornando uma espécie de hino para as vítimas do atentado de 11 de setembro. Qual a sua opinião sobre isso?
Roger Waters - Wish You Were Here tem muito a ver com os atentados do dia 11 de setembro. Fala de perda, de sentir falta de alguém. Aliás, boa parte desse álbum passa essa sensação. Eu compus Wish You Were Here para o meu pai, que nem sequer cheguei a conhecer. Mas saber que essa música traz o mesmo tipo de sensação para outras pessoas é algo que me deixa muito feliz.
Veja - Nos anos 80, o Pink Floyd serviu de experiência para a gravadora CBS testar o poder do jabá nas rádios americanas. Elas se recusaram a tocar Another Brick in the Wall até que a companhia despejasse uma soma vultosa na mão dos radialistas. O senhor acha que esse recurso ainda está em moda?
Roger Waters - Eu sinceramente nem me lembro mais desse episódio, mas acredito que as coisas pioraram muito desde então. Hoje as companhias não querem mais investir numa banda promissora e esperar que elas rendam trinta, quarenta anos. Elas querem logo uma Britney Spears e depois partir para outro grande vendedor de discos...
Veja - O senhor experimentou muitas drogas nos anos 60. Qual a lição que costuma dar aos seus filhos sobre a sua relação com as drogas lisérgicas?
Roger Waters - Eu tenho três filhos. O mais velho tem 25 anos de idade, toca teclados em minha banda e nem sequer bebe álcool. É lógico que eles experimentaram maconha e tomaram ecstasy durante a adolescência, mas hoje nem querer saber disso. Sinceramente, você não pode impedir as crianças de fazerem as coisas, o ideal seria dar-lhes informação sobre tudo.
Veja - Existe uma lenda de que, se tocarmos Dark Side of the Moon, simultaneamente com O Mágico de Oz, as imagens da tela sincronizam com as músicas do disco. O senhor conhece essa história?
Roger Waters - Sim, eu já ouvi falar disso. Mas estou velho demais para perder tempo com essas coisas.
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